TRADIÇÃO

Dia Mundial do Contador de Histórias: conheça pessoas que fazem do partilhamento de narrativas um ofício

Prática vai muito além da ludicidade e tem papel fundamental na perpetuação da riqueza cultural de diferentes povos

Nathália Pereira
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Nathália Pereira
Publicado em 20/03/2021 às 6:30 | Atualizado em 24/03/2021 às 10:33
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Clara Haddad, Roberto Carlos Ramos e Pedro Tenório têm a contação de histórias como parte de suas vidas - FOTO: DIVULGAÇÃO/DIVULGAÇÃO/JOSÉ ROBERNITO
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Em agosto de 2009, Luiz Villaça levou para as telas de cinema o longa O Contador de Histórias. O filme roteirizado e dirigido por ele biografou os passos de Roberto Carlos Ramos, mineiro que ainda criança conheceu as crueldades que a realidade nacional reserva para muitos meninos pobres e pretos como
ele. Durante os anos 1970, o garoto foi conduzido para ser interno da antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem) por sua mãe, ingenuamente seduzida pela propaganda positiva do lugar e esperançosa de que pelo menos um dos dez filhos tivesse destino melhor do que o seu.

Depois de todo tipo de artifício para suportar dor, frieza e fome, o menino Roberto conhece a pedagoga Margherit Duvas, que, ciente do potencial inventivo e da inteligência do pequeno, ofereceu os facilitadores para que ele se tornasse o que é hoje, aos 55 anos: pedagogo, escritor e contador de histórias, profissão mundialmente comemorada neste 20 de março.

“O que faz uma pessoa se tornar um grande contador é ter boa escuta e empatia em relação às histórias ouvidas. Mais do que saber falar bem, é necessário saber entender as entrelinhas das mensagens”, diz a paulistana Clara Haddad, escritora e narradora de histórias orais há mais de duas décadas. Envolvida com
diversas atividades de formação de narradores, a exemplo da Escola de Narração Oral Itinerante, em Portugal, onde mora há 17 anos, ela acredita que a força das memórias pessoais de um pretenso narrador tem tanto ou maior poder do que a perfeição técnica na hora de formar um novo profissional.

“Quando estamos diante de um público, sendo analisados, alguns medos que possamos ter surgem com muita força. O trabalho do contador de histórias também é de autoconhecimento e percepção das suas características individuais. Se a pessoa for muito tímida, ou discreta, ela vai buscar dentro das possibilidades que tem de comunicação a sua característica principal para reforçar o seu discurso a partir dela. Cada um tem uma maneira individual, única, genuína e autêntica de manifestar seus relatos”, observa.

Com a experiência da contação para outros povos além do brasileiro, Clara compreendeu ainda que fora caraterísticas particulares da socialização de cada país — o Brasil, assim como outros latinos, acaba sendo sempre mais efusivo comparado aos europeus, por exemplo —, o acolhimento a uma roda para perpetuação
de histórias é fator comum.

ORALIDADE POPULAR

Clara Haddad conversou com o JC diretamente de São Paulo. Isso porque ela havia passado o Carnaval de 2020 em Pernambuco e não conseguiu voltar para Portugal por causa da expansão da covid-19. Portanto, são daqui as recordações mais recentes de contato com outro, das quais ela destaca a permanência das
brincadeiras populares na festa local. A partir disso, ressalta o papel perpetuador de tradições, principalmente as de povos racializados, que está na gênese do costume de usar a linguagem oral para manter viva a História, em maiúsculo, dessas pessoas.

“Estive aí para uma prévia carnavalesca infantil e saí contagiada com o maracatu, o cordel... um povo que não fala suas histórias morre com o tempo, porque não alimenta a cultura, a vida. Desde a primeira infância, as músicas, letras, construção frásica, tudo isso cria afetividade. É uma troca que pode romper
barreiras de classe, de idade, de localização, porque muitas inquietações, medos e alegrias são comuns a todo ser humano.”

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A narradora está à frente do projeto social Jovens Narradores Descobrindo Novos Horizonte, que conduz desde 2012 em parceria com a irmã, a professora Sandra Haddad. A ação tem sede em São Paulo e
articula o desenvolvimento de competências artísticas, narrativas e leitoras de meninas e meninos entre 10 e 18 anos. É mesmo uma missão. “Ser contador de histórias é ser um leitor do mundo, um conhecedor
do que acontece à tua volta e de você mesmo, como um cidadão crítico e participativo”, encerra Clara.

CONTRIBUIÇÃO DA INTERNET

Um dos pilares na prática de compartilhar contos e causos é a sensibilidade de entender os ouvintes, o que acontece através da percepção frente a frente. Troca de olhares, diferentes entonações vocais, gesticulação, tudo isso contribui. Só que a realidade atual de pandemia exige que os encontros, por enquanto, sejam atravessados por uma tela. Quem tem acesso à internet e dispositivos digitais pode usá-los para conhecer
mais o trabalho de artistas e profissionais da oralidade.

“Muitos migraram para o meio digital como alternativa para continuar trabalhando, como foi meu caso. É preciso encontrar a linguagem correta para manter o interesse e o contato com a beleza que a arte traz”, reflete Clara Haddad, que tem compartilhado bastante conteúdo em seu canal no YouTube. Lá estão quadros como Mil Histórias para Contar, Histórias de Quem Conta Histórias e o mais recente Encontro com as Histórias.

A recifense Mari Bigio também tem marcado presença na plataforma de vídeos, em que reúne mais de 17 mil inscritos. O foco é no público infantil e na literatura de cordel em casamento com a animação. João Pedro e o Saci e A História da Monga em Cordel são alguns dos vídeos encontrados lá, além de variadas lives.

No abraço da poesia popular do Sertão do Pajeú está o jornalista e cineasta Jefferson Sousa, natural de Itapetim. Depois de circular o mundo com o documentário Leonardo Bastião, o Poeta Analfabeto (2019), o jovem de 27 anos se prepara para a estreia de Pedro Tenório de Lima e a Enxada de um Poeta Iletrado, aprovado no edital da Lei Aldir Blanc no Estado. Ambos retratam vida e obra de poetas idosos, firmados fora da formalidade acadêmica e que até pouco tempo não tinham registro oficial de suas criações.

O primeiro pode ser visto no youtube.com/JeffersonSousa, onde acumula quase 110 mil reproduções. O segundo foi finalizado e aguarda o período de distribuição. No fim do ano estará também no YouTube e no streaming do Prime Video para os Estados Unidos e Reino Unido.

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