LITERATURA

Sidney Rocha receberá título de Doutor Honoris Causa da UFPE: 'Me sinto um escritor do meu tempo'

Vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura, artista acredita que honraria é uma homenagem geracional: 'O meu trabalho está para a transformação'

Emannuel Bento
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Emannuel Bento
Publicado em 27/01/2022 às 19:00 | Atualizado em 28/01/2022 às 1:22
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O escritor, editor e educador Sidney Rocha - FOTO: Divulgação
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O escritor, editor e educador Sidney Rocha vai receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Aprovada com unanimidade pelo Conselho Universitário em junho, a honraria dada ao artista é destinada a pessoas que tenham contribuído para o progresso da Universidade, da região ou do país, ou pela sua atuação em favor das ciências, letras, artes e cultura. A cerimônia de entrega seria realizada nesta sexta-feira (28), mas precisou ser adiada depois que o reitor Alfredo Gomes, que fez a proposta para a concessão, testou positivo para a Covid-19. A nova data ainda será anunciada.

A homenagem se junta a outros reconhecimentos na trajetória de Rocha, que foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura em 2011, pelo livro de contos "O Destino das Metáforas". Em 2010, foi o autor homenageado da Feira do Livro de Pernambuco. Também integrou o júri de concursos literários como Jabuti, Prêmio Oceanos, Prêmio Sesc Nacional e muitos outros. Já presidiu o Conselho Editorial da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), cargo recentemente ocupado por Marcelo Pereira.

Sobre a entrega do título Doutor Honoris Causa, o autor acredita que a honraria tenha a ver com uma questão geracional. "Senti, nesse caso, honrar geração à qual pertenço. São 40 anos de trabalho, atravessando umas quatro gerações, sempre tratando de temas cada vez mais indispensáveis. Mas esse é um reconhecimento para quem integra toda uma geração de pessoas ligadas à cultura em Pernambuco. Foi uma decisão muito legal, retomando esse conceito do universalismo dos conhecimentos."

Trajetória dedicada à arte

Nascido na cidade de Juazeiro do Norte (CE), em 1965, Sidney Rocha iniciou sua trajetória como escritor ainda muito jovem, inspirado pela literatura popular, muito ligada à cultura oral. Mora no Recife desde 1983, cursando psicologia e atuando junto à política estudantil. Fez textos para o teatro, especialmente o teatro de rua. Em 1994, recebeu o Prêmio Osman Lins de Literatura, uma das principais láureas da literatura de Pernambuco, com seu romance "Sofia, uma ventania para dentro", publicado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

Desde então, tem lançado várias obras, a exemplo dos livros de contos "Matriuska", "Guerra de Ninguém" e "O destino das metáforas". Também se destaca por romances como os da recém-finalizada trilogia "Cromane": "Fernanflor", "A estética da indiferença" e "Flashes". Suas obras já foram traduzidas para o inglês, espanhol e alemão.

"Eu me considero um escritor do meu tempo. Esse tipo de escritor está altamente comprometido com as preocupações políticas, culturais e todo o sentido do seu próprio tempo. E terminam influenciando quem escreve a partir dessa leitura. É um conceito novo de leitura, que deve comover, alterar e influenciar os leitores e leitoras", comenta Sidney Rocha.

"O meu trabalho está para essa transformação. A leitura crítica do romance, da narrativa, para gerar assim novas consciências políticas, de classe, de comportamento. Acho que esse seja o papel do escritor. Toda literatura precisa estar envolvida, incrementada no cotidiano das pessoas, na construção de uma consciência única, coletiva, voltada para a própria essência humana", continua.

Trabalho como editor e educador

Como editor, Sidney Rocha coordenou a editoração de mais de 400 livros em diversas áreas do conhecimento, como educação, sociologia, economia, política, arte e muito mais. Um destaque nesse campo da editoração foi a Coleção Educadores, uma parceria entre MEC, FNDE e Unesco.

"A ideia do editor é tão importante quanto a própria ideia de autor. Um editor é um tipo de autor, que faz escolhas técnicas. Eu tenho a sorte de poder trabalhar da forma mais autônoma possível. No decorrer desses anos, foi muito bom ter passado por editoras universitárias, grandes editoras, sobretudo a Cepe."

O reconhecimento ocorre como consequências de um trabalho que transcende o ato da escrita. Nos últimos anos, ele tem se dedicado ao fomento da leitura e da escrita nas escolas públicas, por meio de cursos e oficinas, como o projeto Leitura e Escrita Criativa, vencedor do Prêmio Delmiro Gouveia de Economia Criativa, da Fundaj.

"Não falo somente no pedagógico, da literatura como instrumentalização pedagógica, mas também como promotora de uma leitura do mundo. São palavras do Paulo Freire: 'a leitura de mundo precede a leitura das palavras'. Ela não está aí para salvar ninguém, mas se nós colocarmos em mente que a escola pública precisa de mais ferramentas que as outras escolas, nós podemos nos colocar como ferramentas", reflete.

"É uma luta minha também garantir o direito à leitura literária, então viemos influenciando as secretarias de educação nesse sentido. Hoje há uma visão mais clara de que a leitura literária é muito importante para a formação do estudante", finaliza.

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