MÚSICA

25 anos sem Chico Science: Como o legado do gênio está presente nas novas gerações

Morto em 2 de fevereiro de 1997 num acidente de carro, cantor segue inspirando artistas para além do manguebeat e da música

Emannuel Bento
Emannuel Bento
Publicado em 02/02/2022 às 8:15
ALEXANDRE BELEM/ACERVO JC IMAGEM
GÊNIO Chico Science deixou como legado imaginários e sonoridades para novas gerações - FOTO: ALEXANDRE BELEM/ACERVO JC IMAGEM
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Há exatos 25 anos, em 2 de fevereiro de 1997, o Brasil recebeu a notícia de que Chico Science havia morrido em um acidente de automóvel no Recife. A morte precoce do precursor do manguebeat consternou os brasileiros, mas sobretudo os pernambucanos. Afinal, partiu o personagem central da ebulição que tirou o Estado de um marasmo cultural, recolocando-o na rota da música brasileira e da cultura pop nacional.

O seu legado continuou fomentando toda uma cena artística. Diretamente, nomes já bastante conhecidos do manguebeat, como Mundo Livre S/A, Eddie, Sheik Tosado, Mestre Ambrósio, Comadre Fulozinha e muitos outros. Indiretamente, esse leque se amplia até a atualidade.


ALEXANDRE BELEM/ACERVO JC IMAGEM
GÊNIO Chico Science deixou como legado imaginários e sonoridades para novas gerações - ALEXANDRE BELEM/ACERVO JC IMAGEM
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GÊNIO Chico Science deixou como legado imaginários e sonoridades para novas gerações - ALEXANDRE BELEM/ACERVO JC IMAGEM
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Chico Science é homenageado no mesmo dia de sua morte, em 2 de fevereiro de 1997 - ALEXANDRE BELEM/ACERVO JC IMAGEM
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GÊNIO Chico Science deixou como legado imaginários e sonoridades para novas gerações - ALEXANDRE BELEM/ACERVO JC IMAGEM

O manguebeat, da forma como ficou conhecido, foi um fenômeno de uma época com suas especificidades: as grandes gravadoras ditavam muito mais o jogo, a imprensa tradicional era a única forma de se comunicar com as massas. Em resumo, a mídia ainda era analógica.

Os impactos da aceleração digital foram enormes na cultura e na música. Além da maior autonomia para produção e fruição, alguns valores foram revistos. E num momento em que é possível se conectar com a cultura de qualquer local do mundo é que o legado de Chico Science ainda mostra a sua potência: ele evidencia como é importante olhar para o nosso redor.

Esse aspecto continua vivo em vários artistas que não necessariamente são do manguebeat — é raro, inclusive, ver novos nomes que se rotulam com o gênero. Esse legado está em cantores, MCs, poetas orais, grafiteiros, dançarinos.

BELL PUÃ/DIVULGAÇÃO
25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Recifense Bell Puã em mangue no clipe de "Dale" - BELL PUÃ/DIVULGAÇÃO
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25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Recifense Bell Puã em mangue no clipe de "Dale" - BELL PUÃ/DIVULGAÇÃO
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25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Recifense Bell Puã em mangue no clipe de "Dale" - BELL PUÃ/DIVULGAÇÃO

"Maga do litoral (chama) / Chama o terror da manguetown", versa a poeta slammer e rapper Bell Puã, 28, na canção Dale. O clipe da faixa tem como cenário um mangue, que continua sendo uma metáfora para a valorização do que é local e historicamente repudiado. Bell, inclusive, tem mestrado em história e pesquisou a historiografia do mangue em determinados períodos.

"O mangue era repudiado pelas classes dominantes, sendo Josué de Castro o primeiro intelectual a defendê-lo. Já Chico Science trouxe algo bastante midiático na defesa desse mangue, trazendo-o para as artes, como um símbolo da nossa cidade", conta Bell, que foi a vencedora do Slam BR, competição de poesia falada, disputada em São Paulo em 2017.

"Eu acredito que Chico e a Nação Zumbi respiram a cidade e mostram que a cidade respira o mangue. Eles nos apresentaram um jeito de ser múltiplo, mas sabendo de onde viemos, valorizando as nossas origens. Isso tudo de um jeito muito único na poesia."

O olhar sensível para as periferias se faz presente no Coletivo Pão e Tinta, que usa o grafite como instrumento de transformação social há cerca de dez anos na Comunidade do Bode, no Pina, Zona Sul do Recife. A arte urbana é um dos pilares da cultura hip hop, que inspirou bastante Chico no final dos anos 1980.

THAYS MESUDA/DIVULGAÇÃO
GRAFITE Pão e Tinta se coloca entre a disparidade de palafitas e torres - THAYS MESUDA/DIVULGAÇÃO
THAYS MESUDA/@olhardamedus4
25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Coletivo Pão e Tinta fazendo intervenções artísticas na Comunidade do Bode - THAYS MESUDA/@olhardamedus4
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25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Coletivo Pão e Tinta fazendo intervenções artísticas na Comunidade do Bode - THAYS MESUDA/@olhardamedus4

"O coletivo é formado por pessoas do próprio Bode. Somos uma comunidade tradicional pesqueira do Brasil, estamos bem na beira do mangue e vivemos uma disparidade social gritante. O Pina é cercado por torres, mas aqui temos palafitas. Chico tentou falar muito sobre essa calamidade, o que nos inspirou muito. 'Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça'. É sobre a especulação imobiliária, o sistema", diz Pedro Stilo, 33, acelerador social e articulador do coletivo.

Uma das edições do Encontro Nacional de Artes Pão e Tinta, anualmente realizado pelo projeto, teve como tema "Urubus Têm Asa". "Pintávamos palafitas e vários espaços trazendo o imaginário do mangue. Pintamos muito Chico, caranguejo, essas coisas." A 10ª edição do encontro será realizada em setembro.

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25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Vídeoperformance do Coletivo de Teatro Agridoce, filmado em mangue do Grande Recife - FRAME
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25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Vídeoperformance do Coletivo de Teatro Agridoce, filmado em mangue do Grande Recife - FRAME
DIVULGAÇÃO
VIDEOPERFORMANCE Agridoce gravou Rhizophora em mangue de Paulista - DIVULGAÇÃO

Esse Recife desigual, tão incrustado na faixa "A Cidade", também inspirou a videoperformance "Rhizophora", do Coletivo de Teatro Agridoce, que trabalha com espetáculos sintonizados com a cultura pernambucana. A obra entrou na recente programação virtual do Itaú Cultural. O projeto tem atuações e danças gravadas num mangue de Paulista, no Grande Recife.

"A gente bebeu muito do Josué, mas o Chico também entrou de forma muito forte. Temos muito essa luta por espaço que acontece diariamente no Recife. Parece que existem cidades paralelas, uma cidade das máquinas, das construções, das infraestruturas. Temos uma avenida dentro de um mangue. Ao mesmo tempo, ainda existe uma vida muito simples aqui debaixo do nosso nariz", diz o ator Nilo Pedrosa, integrante do coletivo. A coreógrafa do coletivo, Sophia William, também costuma trazer danças populares para a linguagem da dança contemporânea.

Sonoridade segue influenciando

A cantora olindense Joanah Flor vem construindo um imaginário bastante ligado ao manguebeat, mas muito relacionado à figura da mulher. Ela chegou a participar da cena de Peixinhos, em Olinda, nos anos 1990, mas se sentiu boicotada ao assumir o vocal de bandas. Só em 2016 iniciou a carreira solo, lançando o single "Deixa Ela" em 2018.

SUZANNY FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO
25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Cantora Joanah Flor usa elementos populares e contemporâneos para discutir sobre gênero - SUZANNY FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO
CLARA MENDONÇA/DIVULGAÇÃO
25 ANOS SEM CHICO SCIENCE Cantora Joanah Flor usa elementos populares e contemporâneos para discutir sobre gênero - CLARA MENDONÇA/DIVULGAÇÃO

"Eu resolvi trazer toda essa influência na sonoridade, na atitude, na narrativa, trazendo essa minha luta com as mulheres. O início do movimento era muito masculinizado e eu sentia falta dessa narrativa feminina. A minha primeira música trouxe influências do coco e do maracatu, trazendo ainda essa questão do gênero", explica a cantora de 41 anos.

"Também tenho um projeto social com pescadoras marisqueiras de Suape e de Serrambi e quero trazê-las no meu próximo clipe. Acho que dialoga muito com a verdadeira essência do trabalho que o Chico trouxe, de dar visibilidade ao mangue, à periferia", diz a cantora, que lançará seu primeiro álbum pelo selo Tropical Diaspora Records, com produção de Renato e Ronaldo Gama.

HOODCAVE/DIVULGAÇÃO
GLOBAL E LOCAL HoodBob mistura o trap, do mundo, com o brega, nosso - HOODCAVE/DIVULGAÇÃO
HOODCAVE/DIVULGAÇÃO
25 ANOS SEM CHICO SCIENCE HoodBob retoma misturas do global com o local com trap e brega - HOODCAVE/DIVULGAÇÃO

Já o trapper recifense HoodBob retoma com novos gêneros à questão do global conversando com o local: a união do brega, ritmo que criou raízes em Pernambuco desde os anos 1970, com o trap norte-americano, vertente do rap mais eletrônica e acelerada. Essa mistura ocorre no universo das batidas, composições, símbolos e roupas.

Ele chama a proposta de "trapbrega". Seu clipe mais recente, Desande, traz o imaginário em torno do bairro de Brasília Teimosa, periferia da Zona Sul, e integrou a programação virtual do 17º Coquetel Molotov.

"Chico é um dos artistas que mais me inspira pela múltipla capacidade dele de misturar ritmos, símbolos, linguagens e histórias populares. E fazer com que isso tudo não pareça algo distante, como num museu, mas que esteja no nosso dia a dia. Está na nossa viagem de ônibus, na nossa ida à cidade. É algo que está inerente no ser pernambucano e recifense. Também era algo muito futurista para a época, mas com uma bagagem popular muito grande", diz o artista, que pretende intensificar seus diálogos com o manguebeat nos próximos trabalhos.

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