Exposição

Sem Carnaval, maracatu Cambinda Brasileira exibe trajes da sua corte em exposição fotográfica virtual

Mostra faz homenagem à madrinha espiritual do grupo, Dona Biu, que faleceu em 2020, e às vítimas da covid-19 em todo o País

Adriana Guarda
Adriana Guarda
Publicado em 26/02/2022 às 8:00
Heudes Regis/Divulgção
LUTO Dama do paço veste preto em homenagem a Dona Biu, vítimas da covid-19 e cancelamento do Carnaval - FOTO: Heudes Regis/Divulgção
Leitura:

À primeira vista, a imagem parece inusitada ao universo do Cambinda Brasileira. A sempre colorida dama do paço, trajando um vestido preto e usando um véu negro para cobrir o rosto. A roupa, na verdade, simboliza vários lutos. O luto pela perda de Dona Biu, madrinha espiritual do maracatu, que partiu em 2020. O luto pela morte inesperada de 600 mil brasileiros, vítimas da covid-19. E o luto pelo silenciamento do Carnaval, cancelado por dois anos consecutivos. A imagem da dama do paço e de outros sete personagens da corte do maracatu fazem parte da exposição fotográfica "Uma corte para Dona Biu - Cambinda, Carnaval 2022 ", assinada pelo fotógrafo Heudes Regis.  

Heudes Regis/Divulgação
Sem Carnaval em 2022, Cambinda Brasileira homenageira madrinha espirutual falecida em 2020 e vítimas na covid-19 no Brasil - Heudes Regis/Divulgação
 

Além de cuidar da preparação espiritual do Cambinda Brasileira por 40 anos, Dona Biu também era responsável por costurar as roupas da corte e das baianas do maracatu. Todos os anos, passava horas debruçada sobre sua velha máquina preta de costura, preparando os vestidos. Estudava as cores para vestir cada personagem, fazia segredo sobre os trajes do rei e da rainha e escondia tudo a sete chaves até chegar o Carnaval. 

 

A presidente do Cambinda Brasileira, Edlamar Lopes, conta que depois que ela morreu, em abril de 2020, aprontou a corte para desfilar no ano seguinte, mas não teve Carnaval. "Este ano estávamos esperançosos de que a festa fosse acontecer, mas veio a gripe e essa variante da covid e o Carnaval foi suspenso mais uma vez. Fiquei pensando que precisava encontrar uma maneira de expor esta corte que fizemos para ela. Aí veio a ideia da exposição, que em um primeiro momento será virtual, mas depois poderá ter versão presencial, quando o momento permitir", acredita. 

O Cambinda contratou o estilista Raphael Freitas, de Tracunhaém, para desenhar as roupas da corte e entregar tudo pronto. O artista apostou bastante no dourado e no azul para contrapor o traje preto e dourado da dama do paço. Além dela, ele vestiu a rainha, o rei, a dama, o valete, duas baianas, dois lampiões, dois sombreiros e um caboclo de lança. Para homenagear Dona Biu, as roupas trazem um camafeu com uma foto dela. 

"A especialidade de Rafael é vestido de noiva e demais roupas de casamento, mas a corte ficou impressionante. Lembro que quando fui buscar os vestidos me emocionei. Fiquei encantada com a beleza das peças e senti a presença de Dona Biu. Chorei, me arrepiei. Era um trabalho que ela fazia com muito amor e cuidado e não tinha como não lembrar", revela Edlamar. 

A presidente do Cambinda destaca que realizar a exposição também é uma forma de mostrar que o maracatu continua vivo, mesmo com a suspensão do Carnaval. "Cambinda é Patrimônio Vivo de Pernambuco (desde 2019) e precisa continuar investindo e fazendo história. Nesses últimos anos organizamos as sedes do Engenho Cumbe e da cidade e continuamos investindo e trabalhando", diz. 

Heudes Regis/Divulgação
Sem Carnaval em 2022, Cambinda Brasileira homenageira madrinha espirutual falecida em 2020 e vítimas na covid-19 no Brasil - Heudes Regis/Divulgação
 

Autor do livro Festa no Terreiro Mágico, sobre o centenário do Cambinda Brasileira, Heudes Regis, aproveitou o cenário do Engenho Cumbe, sede rural do maracatu, em Nazaré da Mata, para produzir as fotos. Os personagens da corte foram clicados sobre a terra avermelhada e a paisagem de jaqueiras e cana-de-açúcar, tão caracteristicas do Cumbe. Um misto de luz de estúdio e luz natural de final de tarde deram um efeito transcendental às imagens. Impossível olhar e não pensar: que figuras mágicas são essas, em um lugar igualmente espantoso? 

É que o Cambinda Brasileira é assim: feito de magia. Se Dona Biu estivesse aqui se emocionaria com essa corte feita para ela. E, num gesto de carinho, olharia as fotos e beijaria, como costumava fazer. 

SERVIÇO

O link para acessar a exposição virtual estará disponível nas redes sociais do Maracatu Cambinda Brasileira neste domingo (27), a partir do meio-dia.  As fotos aparecem como se estivessem em uma galeria e os visitantes virtuais podem acessar as salas. 

https://www.facebook.com/1562397304011155/posts/3074325052818365/?sfnsn=wiwspmo 

https://www.artsteps.com/embed/6216f11d85800b955d2feb7e/560/315?fbclid=IwAR0JA6ZI18ExqTemYa5PPz4yJSTwbCyKl-wjX8UkG77x6LciySC_i4LnbmQ

 

 

  

Comentários

Últimas notícias