ESTREIA

'King Kong en Asunción', de Camilo Cavalcante, joga luz nas longas estradas que nos unem

Vencedor do Festival de Cinema de Gramado em 2020, longa do diretor pernambucano chega hoje (02) em circuito comercial

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 02/09/2021 às 7:00
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AURORA CINEMA/DIVULGAÇÃO
O ator Andrade Júnior foi elementar no desenvolvimento do roteiro que protagonizou. O filme é dedicado a ele, que faleceu em 2019 - FOTO: AURORA CINEMA/DIVULGAÇÃO
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Um Velho homem dirige por um grande deserto de sal. Nas costas, leva o peso da idade, que parece até coisa menor se comparado ao tanto de vidas e mortes que carrega em paralelo. Após décadas como matador de aluguel, o sujeito encara agora o último assassinato por encomenda enquanto se prepara para o confronto com outra grande jornada, dessa vez em busca de uma filha já adulta e que nunca conheceu.

É com histórico de importantes premiações que King Kong en Asunción, segundo longa ficcional do recifense Camilo Cavalcante, estreia hoje em circuito comercial. Somente no 48º Festival de Cinema de Gramado, em 2020, conquistou as categorias de Melhor Filme pelo júri oficial, Melhor Filme pelo público, Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator para Andrade Júnior, o Velho que surge em cena já nos primeiros minutos. Saiu vangloriado também do Los Angeles Brazilian Film Festival e da 15ª edição do Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro.

Além de direção, Camilo assina roteiro e produção de um resultado final fruto de quatro semanas de filmagens, feitas em 2017, em Pernambuco, na Bolívia e no Paraguai, e possível graças a uma grande bagagem de trabalho e colaboração entre profissionais dos três lugares.

Por telefone, o cineasta falou ao JC dos múltiplos desafios envolvidos na feitura de um projeto pensado há, pelo menos, dez anos. "É [desafiador] não só por ser um filme de baixo orçamento, mas por ter esses longos caminhos percorridos. A ideia surgiu em 2007, quando eu estava em um festival de cinema em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e conheci Andrade Júnior. Dividimos um quarto naquela ocasião e em algum momento ele fez a performance de um 'homem gorila'. Isso me despertou uma centelha criativa", recorda. A partir desse instante, a figura de um andarilho cambaleante perseguido pela violência desde a tenra idade se desenvolveu a ponto de "Velho" funcionar muito mais como substantivo próprio do que como adjetivo ligado somente à óbvia idade cronológica.

Proposta em mente, Camilo partiu para a capital paraguaia, onde a analogia entre o ancião embrutecido pelas chagas latino-americanas está para o imenso e perturbado gorila, eternizado por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack no clássico de 1933, assim como a Nova Iorque deste toma as vezes aqui de Assunção. "É a história de um homem aturdido pela falta de amor", complementa o pernambucano.

Já em 2015, em pesquisa de campo, diretor e equipe exploraram trajeto contrário do proposto no filme, saindo de Assunção até o boliviano Salar de Uyuni, o que ampliou ainda mais as possibilidades da andança errante a ser registrada. Expansão contida também, acrescenta Camilo, no entendimento geral das equipes envolvidas de que a construção seria viva e aberta à vida - devido a uma pré-produção bem desenhada e articulada, dos cuidados nas fronteiras à segurança dos atores. Andrade Júnior, que faleceu em 2019 e a quem o longa é dedicado, já havia completado 70 anos à época, mas seguiu bem durante todas as cenas.

VOZ GUARANI

"A vida é um percurso", diz a primeira incursão narrativa de King Kong en Asunción. O texto que acompanha o Velho durante 90 minutos é criação da autora Natália Borges Polesso, foi adaptado para o guarani por Lilian Sosa e interpretado pela atriz paraguaia Ana Ivanova, cuja entonação é peça fundamental no ambiente lapidado ao redor do protagonista. Tão fundamental que o filme precisou ser remontado, para que estivesse melhor adaptado à cadência - e à força - da narração.

"O povo Guarani vem sendo massacrado ao longo dos séculos, desde o início dessa colonização perversa, excludente, preconceituosa, injusta e exploradora que permeou todo o continente latino-americano e que traz até hoje o reflexo desse massacre, que vemos claramente em nosso País, com a situação socioeconômica, com o desmonte da cultura. Quem está no poder representa exatamente os mesmos interesses do início dessa perversidade. Por isso, queríamos colocar a voz, a fala, a musicalidade guarani em evidência. Uma voz tão massacrada. Queríamos que ela estivéssemos em primeiro plano", diz Camilo Cavalcante.

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OLHAR PARA DENTRO

King Kong en Asunción estreia em um momento difícil para o mundo, mais ainda para o Brasil, atravessado por inúmeras crises humanas, políticas, que deixam a situação histórica e a relação desta com toda a América Latina ainda mais escancarada. São essas ligações, tão preciosas para o entendimento de nosso passado e para a luta pelo futuro, que Camilo Cavalcante pretende sensibilizar no espectador.

"Além de reflexões existenciais sobre a vida, afeto, ódio, sobre o que somos nós e de que forma fomos constituídos, que nada surgiu de agora e que é fruto desse processo perverso comum que permanece como neocolonização, espero que o filme gere esse encontro com essa América Latina. Que em vez de permanecermos olhando para fora, a Europa, a América do Norte, com ideais e desejos não genuínos, mas sempre impostos, possamos olhar mais para dentro - do continente e de nós mesmos", diz. "Que isso siga até vermos com clareza que o fundo do poço onde chegamos não veio de ontem para hoje. Temos que aprender e falar para que o tipo de postura fascista que vigora, principalmente agora no Brasil, não exista mais".

King Kong en Asunción tem na ficha técnica nomes como Camilo Soares, na direção de fotografia, e Diogo Balbino, responsável pela direção de arte. A premiada trilha sonora original é de autoria de Shaman Herrera.

NOVOS PROJETOS

Os últimos quatro meses de 2021 serão dedicados a dar continuidade a projetos interrompidos pela pandemia. Já em setembro, Camilo roda Rua Aurora - Refúgio de Todos os Mundos, documentário em que propõe contextualizar passado e presente da Rua Aurora, no Centro de São Paulo. Durante a primeira metade do século 20, o logradouro foi endereço recorrente da aristocracia, enquanto nas décadas finais tornou-se reduto da explosão do cinema independente da Boca do Lixo.

"E hoje é de muitos refugiados, uma rua que abriga muitos mundos e que, como boa parte dos centros das grandes cidades, está abandonada pelo poder público. Pode ser um retrato não só de São Paulo, mas do País e das vidas que ali habitam", arremata Camilo, a quem caberá a direção. No roteiro, divide o ofício com Eli Ramos.

Ele segue também nos preparos de O Palhaço de Cara Limpa, ficção filmada entre 2016 e 2021. Nele, um ator passa por uma crise no relacionamento conjugal e se vê levado a voltar à casa da mãe. Como contexto histórico, tem o processo que acarretou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff - que completou cinco anos de conclusão no último dia 31 de agosto.

"Enquanto o Brasil desmorona, ele ensaia e constrói esse palhaço de cara limpa, inspirado em A Poética Do Devaneio (do francês Gaston Bachelard). É a resistência enquanto o País naufraga diante de tudo o que veio a acontecer depois". O filme aguarda a arrecadação de recursos para o momento de finalização.

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