Memória

The Liverbirds, única banda feminina de Liverpool na era dos Beatles

O grupo acabou em 1968, caiu na obscuridade, e está sendo redescoberto

José Teles
José Teles
Publicado em 09/03/2020 às 11:19
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The Liverbirds, as moças do Mersey Beat - FOTO: Divulgação
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Meninas Não Tocam Guitarras (Girls Don’t Play Guitars) é o título de um musical que estreou em 2019, em Liverpool, cujo roteiro remonta à cidade em 1963, quando acontecia uma movimentada cena de rock and roll, rotulada de Mersey Beat. A frase que deu título ao espetáculo, foi dita por John Lennon, que até conhecer Yoko Ono, não era exatamente um exemplo de defensor dos direitos femininos. Contemporânea e conterrânea do ex-Beatle, a adolescente Mary McGlory pretendia ser freira mas acabou passando uma temporada na zona de baixo meretrício mais pesada da Europa, a Reeperbahn, em Hamburgo. Mary tocava baixo na banda Liverbirds, a única formada por mulheres na era do Mersey Beat (Mersey é o rio que corta Liverpool). As outras integrantes do grupo: Valerie Gell (guitarra e vocais), Pamela Birch (vocais), Sylvia Saunders (bateria).

Quando dezenas de grupos de rock foram surgindo em Liverpool, Valerie aprendeu a tocar guitarra e Sylvia, bateria. Pretendiam fundar uma banda chama Liverbirds (pássaro símbolo de Liverpool), quando leram no jornal Mersey Beat (editado por Allan Williams, um cara que chegou a ser empresário dos Beatles por um curto período), que Mary formara um grupo com suas primas, chamado The Squaws. Um grupo que tinha um problema: possuíam instrumentos, mas nenhuma delas sabia tocar. Valerie e Sylvia foram à casa de Mary e a convidaram para a banda, na qual acabou como baixista. Pamela completaria a Liverbirds como cantora. Em 1963, a primeira banda feminina de rock da Inglaterra estava pronta para os palcos. O difícil seria conseguir espaço entre tantos marmanjos, e músicos de talento feito os Beatles, de quem eram fãs, embora o quarteto fosse conhecido basicamente no Norte do país.

Bob Wooler, DJ do Cavern Club, foi o sujeito que apresentou o empresário Brian Epstein aos Beatles. Foi Wooler quem apresentou as garotas da Liverbirds aos Beatles, no camarim do Cavern. John Lennon quando viu que carregavam cases (estojos) de instrumentos perguntou a Mary o que traziam ali dentro. Ela respondeu: “Guitarras”. John Lennon, soltou um sorriso sardônico: “Meninas não tocam guitarras”. Não tocavam até ali. A Liverbirds logo viajavam com os marmanjos (entre estes, os Rolling Stones) pelas Inglaterra e vários países da Europa ( Reza a lenda, que foi com os instrumentos tomados emprestados às garotas que os Kinks gravaram o clássico You Really Got Me, e que enrolaram baseados para Jimi Hendrix (Sylvia confessa que chegou a dar uns “pegas” num baseado de Hendrix).

HAMBURGO

The Liverbirds existiu de 1963 a 1968 (o segundo disco foi lançado em 1966), não chegou ser um grande sucesso, mas frequentou as paradas inglesas e europeias com Peanut Butter. Faltava-lhes um empresário como Brian Epstein, que gerenciava a carreira dos Beatles e de mais algumas bandas e artistas solo de Liverpool, feito a cantora Cilla Black. As quatro garotas tentaram convencer Epstein a contratá-las. Foram a Londres, mas não o convenceram. O que conseguiram foi que ele lhes pagasse a passagem de volta a Liverpool, e uma sugestão para que o alemão Manfred Weissleder as contratasse para tocar no Star-Club, que entrou para a história por ter sido uma espécie de tubo de ensaio para os Beatles, que ainda tocavam lá quando foram contratados pela EMI/Parlophone.

Apresentadas aos alemães como os Beatles de saias, a Liverbirds cumpriu uma série de shows no clube, algo impensável para Mary McGlory, religiosa de frequentar igreja, assistir missa, e que se prometeu ser freira quando deixasse a banda. No Doc Girls Don’t Play Guitars, ela conta que ao chegar ao Reeperbahan o que via era sexo por todos os lados, das calçadas às placas iluminadas à néon. Mas sobreviveram. O que acabou a banda foi a formação que receberam, de seguir as regras estabelecidas para as moças nos anos 50, início dos 60. Sylvia, a baterista, engravidou e saiu do grupo. Enquanto Valerie casou-se com um alemão. O quarteto, que chegou a se apresentar no Japão, virou duo, com Mary McGlory and Pamela Birch, então com 22 e 23 anos, respectivamente. Pamela Birch faleceu em 2009, aos 65 anos, e Valerie Gell, em 2016, aos 71 anos. Mary vive em Hamburgo, e Sylvia em Glasgow.

The Liverbirds, até o musical, montado por Ian Salmon, era um elo perdido na história do Mersey Beat. O grupo caíra na obscuridade, agora é cultuado pelo pioneirismo, embora tenham deixado a rebeldia para mulheres de gerações posteriores. Os discos da Liverbirds foram relançados, e o grupo também foi tema de um documentário e, provavelmente, ganhará uma cinebiografia. Musicalmente, eram boas no repertório de rock and roll que todos os grupos de Liverpool tocavam, hits de Little Richard, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, porém, nas baladas a Every Brothers, que pediam harmonias vocais requintadas nem tanto.

O quarteto lançou dois álbuns, Star-Club Show 4 (1965), e More of the Liverbirds (1966)Star-Club Show 4 (1965), More of the Liverbirds (1966), mais quatro compactos.

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