ROCK

Dani Carmesim celebra dez anos de carreira bem ao seu estilo

Pernambucana festeja aniversário de seu trabalho autoral enquanto prepara a chegada do segundo álbum, 'Resumo da Ópera'

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 15/08/2021 às 6:00
ANDRÉ INSURGENTE / DIVULGAÇÃO
Além do disco, Dani tem lançado singles solos e em parceria, como o recente 'For Sales' - FOTO: ANDRÉ INSURGENTE / DIVULGAÇÃO
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O momento é de boa e constante produção para Dani Carmesim. A cantora e compositora pernambucana lançou, há cerca de uma semana, o single For Sales, parceria com o DJ Ramdon. A faixa aborda o verdadeiro caos, cada vez maior, em que tem mergulhado a questão ambiental no Brasil, trazendo nos versos referências aos nomes que ocupam - ou recentemente ocuparam - os mais altos cargos de poder ligados ao assunto, como o ex-ministro Ricardo Salles.

"O que mais me impactou foi a notícia, da reunião em que ele [Salles] falou sobre aproveitar a pandemia e 'passar a boiada'. Tudo o que aconteceu em sequência se tornou uma bola de neve revoltante, e eu acabei extravasando através da música. Ainda bem que a gente tem a arte para fazer isso", conta Dani em entrevista por telefone ao Jornal do Commercio.

A produção aconteceu de forma remota, em diálogo com Ramdon. "Ele colocou as baterias eletrônicas, os efeitos, eu curti e aí resolvemos gravar. Eu, a voz, André [Insurgente], meu marido, gravou guitarra e baixo, e DJ Ramdon assumiu os beats". A música está nas plataformas de streaming.

For Sales é trabalho surgido após um intenso mergulho de Dani nos preparativos para Resumo da Ópera, segundo álbum cheio que chegará ainda em 2021. O disco já está pronto, e ganhou uma tríade de vídeos, postados no canal da artista no YouTube, para destrinchar as fases de sua construção.

São como atos. No primeiro, Lapada, Dose e Bronca, se vê já nos primeiros segundos cenas de uma realidade hoje distante: Dani e banda tocando ao vivo, com direito a público, que grita ao fundo. Depoimentos dos integrantes sobre pré produção, gravação e finalização de Resumo da Ópera vêm em sequência. "Eu queria fazer alguma coisa mais dançante. Acho que na época eu estava ouvindo muito aquele disco da Rita Lee, Fruto Proibido (1975), e acabou que fiquei instigado em fazer algo naquela pegada, com uma bateria mais envolvente", comenta o produtor e guitarrista Fernando S. em um trecho.

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O segundo documentário, Convidados, apresenta os artistas recebidos por Dani para participarem do trabalho. São eles o cantor, compositor e guitarrista Fernandes; Kira Aderne, cantora, compositora, guitarrista e líder da banda Diablo Angel; Neilton Carvalho, artista plástico e guitarrista da fundamental Devotos, patrimônio da cena punk/hardcore pernambucana; Rafael Bandeira, fotógrafo e guitarrista; e André Oliveira, também guitarrista.

O terceiro e último vídeo-doc é o Ao Vivo no Estúdio, com pocket show que adianta quatro das músicas integrantes da tracklist final: Loop Infinito, Memória Queijo Coalho, Libriana, O Cheiro do Medo. O material contou com fomento do Edital Criação, Fruição e Difusão LAB PE, pela Lei Aldir Blanc.

"Em Resumo da Ópera eu falo de encerramentos de ciclos, de começo de novos ciclos, marca bem esses meus dez anos de carreira autoral", diz Dani. "É um trabalho bem diferente, vai ser um divisor de águas para mim".

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REORGANIZAÇÕES 

Quando a pandemia estourou no Brasil, Dani Carmesim já estava finalizando Resumo..., que deveria ter sido lançado ainda no primeiro semestre deste ano. O adiamento veio junto a outras adaptações necessárias, e a um período de bloqueio criativo, desencadeado pela situação extrema e imprevista.

"Minha sorte foi buscar fuga no trabalho musical. Fiz parcerias, lancei singles, participei de disco, fiz lives, dei entrevistas. Aproveitei também para estudar muito, marketing, direito autoral, já que sou eu quem gerencio minha carreira", avalia.

OLHANDO DE FORA

"Se eu fosse apenas expectadora de Dani Carmesim, diria que ela teve uma evolução muito grande", avalia a artista. "Eu vesti essa camisa, tive que me inteirar de todos os processos. Eu não só componho e canto. Sou minha própria assessoria de imprensa, [faço] a parte dos direitos autorais, de colocar as músicas nas plataformas digitais, ter contato constante com o público, que é muito importante. E sinto que a cada dia as pessoas se identificam mais com meu trabalho. Tenho muitos objetivos ainda, mas estou muito orgulhosa do que estou conseguindo".

Dani também comemora a boa aceitação de suas músicas por outros países da América Latina, com apoio de rádios e web rádios. Chile, Argentina e Guatemala são os principais deles, além de uma inserção europeia, com ouvintes espanhóis.

E o trabalho continua. Entre 9 e 19 de setembro, ela integrará a programação do festival paulista online Cultura Educa, ao lado de nomes como Chico César e o rapper GOG, com transmissão pelo YouTube. 

FUTURO

Com o andamento do esquema de vacinação contra a covid-19 no Brasil e o vislumbre de um retorno aos tradicionais shows, assim que a situação permitir, ela sublinha que alguns hábitos da cena local devem ser revistos, e torce para que os colegas de profissão se tornem cada mais mais emancipados na organização de suas trajetórias.

"Todo mundo sabe que Recife é um celeiro de artistas. São tantos, que é difícil achar espaço para todo mundo. Espaço físico mesmo. Quando este não existe, a gente mete um espaço virtual e acabou-se. Ainda bem que hoje em dia dá para fazer isso. Ainda sinto certa tristeza, porque todo mundo perde quando não se dá espaço para um artista novo. Eu já estou aí há dez anos e ainda é difícil, para você ter uma ideia. A Saga HC, por exemplo, é uma banda de hardcore, já foi vendedora do [Festival] Pré Amp, por que demorou tanto para aparecer? Sempre estiveram aqui, estão atuantes há 20 anos. Precisamos repensar como é feita essa curadoria, o porquê de os produtores da própria cidade não darem espaço para os novos, não diversificarem os line up. E olhe que temos artistas de inúmeros gêneros", questiona.

"Pernambuco exporta talentos. Espero que na volta [aos palcos] os espaços sejam repensados. E que os artistas não esperem apenas as coisas acontecerem", finaliza.

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