Coronavírus

Sem apoio do Estado, salões de beleza driblam a quarentena

Rigor do fechamento do comércio, sem um plano de ajuda efetivo do governo, está fazendo a categoria trabalhar na clandestinidade, diz presidente do Sinbeleza

Leonardo Spinelli
Leonardo Spinelli
Publicado em 01/04/2020 às 18:59
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Foto: Abr
Em Pernambuco são 43 mil salões, 22 mil microempresários individuais (MEIs) parceiros e 250 mil empregados - FOTO: Foto: Abr
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As medidas anunciadas pela prefeitura do Recife e governo do Estado para minimizar os impactos econômicos causados pela pandemia do coronavírus não estão agradando os empresários pernambucanos. No setor de salões de beleza, o rigor com o fechamento do comércio, sem que o governo apresentasse um plano de ajuda efetivo, está fazendo a categoria trabalhar na clandestinidade.

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A medida de fechamento do comércio feita para evitar a propagação do vírus pode perder a eficiência se nada for feito para auxiliar os profissionais do setor que estão sem renda. A grande maioria do segmento é formado por mulheres. O comércio está fechado desde o dia 21 de março. São quase duas semanas sem faturamento.

Reprodução Instagram
Cinhtia Almeida (e.), presidente do Sindicato Patronal dos Salões de Beleza (Sinbeleza/PE) - Reprodução Instagram

“Nossa preocupação é que temos salões funcionando hoje de portas fechadas. Ou seja, tem muito salão de beleza que não está cumprindo a lei porque não tem dinheiro. Precisam pagar o aluguel, luz, funcionário, comer. Como estão sem dinheiro, estão descumprindo a quarentena. Trabalham de porta fechada ou indo atender na casa do cliente”, diz a presidente do Sindicato Patronal dos Salões de Beleza de Pernambuco (Sinbeleza), Cinthia Almeida. “Isso atrapalha o projeto de saúde pública, simplesmente porque o governo fechou as portas e não quer nos ouvir.”

Nossa preocupação é que temos salões funcionando hoje de portas fechadas. Ou seja, tem muito salão de beleza que não está cumprindo a lei porque não tem dinheiro<aspas>
Cinthia Almeida, presidente do Sindicato Patronal dos Salões de Beleza de Pernambuco (Sinbeleza)

Segundo a líder empresarial, o governo do Estado interviu na crise fechando o comércio e, assim como a prefeitura, coloca a responsabilidade de ajudar financeiramente o setor nas costas do governo federal. O setor de salões de beleza foi fortemente atingido pelas medidas de quarentena impostas pelo Estado ao comércio. Ela diz que, tanto a prefeitura, quanto o Estado, não atendem o pleito mínimo do segmento que é ouvi-los.

“A gente tentou acesso para conversar com o prefeito e o governador. Estamos falando de um setor com 43 mil salões, 22 mil microempresários individuais (MEIs) parceiros e 250 mil empregados. Somos um segmento formado 95% por mulheres, todas chefes de família”, diz Cinthia Almeida. Ela salienta que a principal característica do setor de beleza é ser inclusivo. “Temos muita gente que não sabe nem escrever o nome. Quem é MEI ficou sem renda e, para os pequenos empresários, há muita dificuldade de acesso a crédito. Não é todo banco que conversa com a gente.”

Cínthia critica a forma como foi determinado o fechamento do comércio. “Recebemos um toque de recolher para cumprir em 48 horas. Tentamos conversar com prefeito e governador e não tivemos sucesso, quem está nos apoiando é o Sebrae que é do Sistema S”, diz a empresária.

O governo do Estado diz que as medidas restritivas "são uma necessidade para retardar ao máximo a disseminação da covid-19". "Todos os setores produtivos estão sofrendo o impacto da quarentena não só em Pernambuco, mas no Brasil e no mundo. A retomada da economia e a proteção social dependem primordialmente das ações dos governos nacionais", disse o governo em nota.

O presidente Jair Bolsonaro sancionou nesta quarta-feira (1º) o projeto do chamado coronavoucher, que vai destinar R$ 600 de auxílio aos trabalhadores informais, autônomos, desempregados e microempreendedores individuais. Segundo o ministro da Cidadania Onyx Lorenzoni, o valor começará a ser pago no próximo dia 16 em quatro etapas, começando pelos beneficiários do Bolsa Família, depois informais do cadastro único (CadÚnico), depois MEIs  e, por fim, informais que não estão no CadÚnico. Num prazo otimista, o prazo poderia ser adiantado para o dia 10, ou seja, dessa sexta-feira a oito. 

AUXÍLIO

A Prefeitura do Recife anunciou, nesta quarta-feira (1º), a prorrogação, durante noventa dias, do Imposto Sobre Serviços (ISS) para setores como hotéis, salões de beleza, academias e eventos, sem incidência de multas ou juros adicionais. Já o Estado, publicou decreto também nesta quarta, prorrogando por por 90 dias as obrigações tributárias acessórias previstas em lei e também as contestações de débitos.

Sobre a medida da prefeitura, o secretário de Finanças, Ricardo Dantas reconhece que a “ajuda não é do tamanho que os empresários precisam”, mas salienta que, sim, é um bom auxílio. “Não vale dizer que não estamos ajudando porque nesses três segmentos temos nota fiscal emitidas em março que deveriam ser pagas e 10 de abril no valor de R$ 2,440 milhões. Estamos deixando esse dinheiro nas mãos de 2,3 mil empresários cadastrados para complementarem seu fluxo de caixa”, defendeu o secretário.

Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem
Ricardo Dantas, secretário de Finanças da Prefeitura do Recife - Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem

Dantas afirma que em países como EUA, Reino Unido, Alemanha e França, quem tem anunciado e feito programas de apoio e fomento direto às empresas que estão sofrendo com o isolamento social é o governo central. “Essa é uma medida macroeconômica e só o governo federal pode intervir. O governo central é o único que pode emitir título e moedas para socorrer de forma imediata, tanto a população como as empresas.”

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