Finanças

Como conseguir crédito para investir em pequenos negócios

Várias instituições oferecem créditos para microempreendedores, mas é preciso estar com o nome limpo na praça e planejar para não contrair uma dívida sem necessidade

JC
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Publicado em 26/06/2020 às 20:23
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Cortesia/Rose Aguiar
Marconi vende caldinho na cidade de Paulista (PE) e gostaria de ter recursos para comprar uma carrocinha maior "para vender mais", afirma - FOTO: Cortesia/Rose Aguiar
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Marconi Antônio da Silva, de 55 anos, já teve várias profissões. Foi vigilante e trabalhou 18 anos com carteira assinada, como mestre de obras. Em 2007, decidiu dar uma guinada na vida e fez vestibular para administração de empresas. Terminou a faculdade, mas é da carrocinha de caldinhos de feijão e camarão, que ele garante o sustento da família. Com a renda, de cerca de R$ 1.300 por mês, mantém a esposa e o filho mais novo, de um ano e meio. Os outros 11 filhos já têm vida própria. Há 13 anos, o “Caldinho do Mestre” faz sucesso na cidade de Paulista, Região Metropolitana do Recife.

Marconi garante que utiliza alguns ensinamentos aprendidos na faculdade em seu negócio. Para ele, não falta conhecimento. Mas falta capital. “Gostaria de comprar uma carrocinha maior, porque às vezes, vendo todo o estoque e volto pra casa mais cedo. Se eu tivesse uma carroça que comportasse mais garrafas, poderia passar mais tempo na rua e vender mais”, planeja. Marconi nunca foi atrás de bancos e nem de empréstimos. Não é formalizado como micro empreendedor individual (MEI) e acredita que exista muita burocracia para quem precisa de crédito.

A situação do vendedor de caldinhos é a mesma de muitos pequenos comerciantes que precisam de dinheiro para ampliar, ou retomar seus negócios após a pandemia, mas temem tomar empréstimos ou têm seu empréstimo negado. Segundo o Sebrae, até o dia 20 de junho, estavam registrados em Pernambuco 321 mil microempreendedores individuais (MEI). E o número só cresce. Desde abril deste ano são cerca de 3 mil novos registros por mês. Mas a inadimplência entre esses empreendedores também é alta. Cerca de 68% estão em atraso com as obrigações fiscais, quando a média nacional é de 50%.

PLANEJAMENTO

Alexandre Alves, gerente da Região Metropolitana do Recife do Sebrae-PE, diz que qualquer tipo de restrição, seja bancária, no SPC/Serasa ou com o fisco, seja Federal, Estadual ou Municipal, vai impedir o acesso aos empréstimos. Antes de procurar um banco ou agência de fomento, pague ou negocie suas dívidas. No caso do MEI, pelo site é possível negociar, parcelar e gerar boletos para pagamentos das obrigações fiscais.

A falta de um planejamento também pesa. O gerente do Sebrae diz que os microempresários se preocupam muito com o momento atual, e esquecem de olhar para o futuro. “Os pequenos, em geral, não têm um plano de negócio e nem costumam acompanhar o fluxo de caixa, ou seja, não sabem quanto faturam e, desse faturamento, o quanto é lucro. Nem projetam as despesas futuras”. O resultado, diz Alexandre Alves, é que muitos chegam ao banco para pedir empréstimo sem saber o quanto realmente precisam e como irão pagar a dívida.

“Se a pessoa tem um estabelecimento comercial de maior porte, a presença de um contador é fundamental para organizar esse balanço do que entra de dinheiro e o que sai, para ajudar no planejamento. Se é um trabalhador individual, uma planilha Excell, ou mesmo a velha caderneta ajuda a ter um controle mínimo sobre seu negócio”. Alexandre diz que, o ideal, é não comprometer mais de 50% do seu lucro com o pagamento de financiamentos. “Os próprios bancos, baseados nos dados apresentados pelo empreendedor, já estimam valores máximos para o empréstimo”, diz Alexandre.

O gerente regional do Sebrae também fala da necessidade de se abrir uma conta bancária e pesquisar locais, condições, e taxas de juros oferecidas. Geralmente, o crédito mais acessível ao pequeno é o do tipo solidário, como o Credi Amigo, do Banco do Nordeste, ou o oferecido pela Agência de Fomento de Pernambuco (AGE), onde as pessoas que formam um grupo se responsabilizam pelo pagamento de cada um que atrase. Só a AGE já atendeu este ano, mais de 2,5 mil empreendedores, disponibilizando linhas de crédito no total de mais de R$ 10 milhões. No Crédito Popular oferecido pela AGE o financiamento, no valor de até R$ 3 mil, pode ser pago em até 15 meses (sendo os três primeiros meses de carência, devido à pandemia do coronavírus). Os juros são de 1,49% ao mês, para parcelas quitadas em dia.

Existem ainda os empréstimos dos bancos oficiais (Banco do Brasil e Caixa), bancos privados, cooperativas de crédito e fintechs. “As fintechs são uma novidade no mercado, mais ainda são poucas, e por serem totalmente digitais, todo o processo é feito através de um aplicativo, não existem agências e nem negociação presencial, o que torna indicado apenas para quem tem familiaridade com transações eletrônicas”, observa Alexandre Alves.

DOAÇÃO

O advogado Edson Holanda quer oferecer outra alternativa de ajuda aos microempreendedores sem passar pelos bancos ou outros tipos de empréstimos convencionais. É o programa Adote um Informal, que pretende oferecer uma ajuda de R$ 6 mil, distribuída em seis parcelas mensais e consecutivas de R$ 1 mil, para que o pequeno empreendedor não regularizado como MEI, ganhe fôlego e mantenha, ou amplie suas atividades durante a crise. “Estas pessoas não querem esmolas. Querem apoio para trabalhar com dignidade e não viver na dependência de assistencialismo político”, diz Edson Holanda, idealizador do projeto.

Nesta primeira etapa, serão selecionados dez microempreendedores informais que vão poder usar as parcelas para custeio pessoal ou investimento no negócio. Não se trata de empréstimo, é uma doação ligada ao compromisso de “adoção” do pequeno comerciante. “A ideia é que o profissional liberal, ou mesmo a empresa que adote o empreendedor, estabeleça uma comunicação regular com a pessoa adotada, nesse período de seis meses, para que possa acompanhar e, se for o caso, até orientá-lo no desenvolvimento da sua atividade”, diz Holanda. O vendedor de caldinho Marconi Antônio da Silva, citado no início dessa reportagem, é um dos candidatos inscritos no programa Adote um Informal. O cadastro de interessados na ajuda ou em se tornarem doadores pode ser feito no site do projeto que também oferece assistência jurídica gratuita.

O advogado Edson Holanda espera que a adoção de trabalhadores informais se torne uma prática comum de voluntariado, como acontece em outros países. “Teremos condições de ampliar este incentivo com o engajamento de empresários, advogados, consultores e muitos outros profissionais que desejam ajudar oferecendo assistência técnica e compartilhando experiências exitosas”, diz Holanda, lembrando que as doações de empresas podem ser abatidas no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica.

Divulgação/Pipo Fontes
Advogado Edson Holanda criou projeto para "adoção" de trabalhadores informais. "Esse povo não quer esmolas" - FOTO:Divulgação/Pipo Fontes

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