ESTATAL

Bolsonaro terá dificuldade para alinhar discurso e prática após intervenção na Petrobras, diz economista

Para o especialista, a mudança de comando na estatal é "um grande abacaxi que o governo federal terá que descascar" se quiser evitar a perda de valor de mercado da petroleira

Marcelo Aprígio
Marcelo Aprígio
Publicado em 22/02/2021 às 12:53
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MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) - FOTO: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
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Em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, na manhã desta segunda-feira (22), o economista Sandro Prado, professor da UPE e da UNIFG, afirmou que após intervir na Petrobras, mesmo se apresentando a apoiadores e aliados como liberal, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) terá dificuldades pela frente para aliar prática e discurso. Para o especialista, a mudança de comando na estatal é “um grande abacaxi que o governo federal terá que descascar” se quiser evitar a perda de valor de mercado da petroleira.

“[A intervenção na Petrobras] gerou um grande mal estar no mercado, que acabou derrubando ações da petroleira e de outras empresas estatais. É um grande abacaxi que o governo federal terá que descascar, pois se coloca como neoliberal, mas adota uma medida intervencionista, indicando, não um técnico para a presidência da Petrobras, mas mais um militar para dirigir uma estatal. Ser militar não é o problema, a questão está na competência de ele poder seguir minimamente as regras do mercado”, disse o economista.

Apesar de ver com preocupação a intervenção no comando da estatal, Sandro Prado afirmou que a situação da Petrobras é complexa e que esta medida adotada pelo presidente visa também o resguardo da imagem de Bolsonaro. Por causa disse, o especialista acredita que o governo se meteu naquilo que ele chamou de “saia justa”.

“O problema da Petrobras já é antigo e bastante complexo. O que nós percebemos neste anos, que acabou levando a essa intervenção do Estado na Petrobras, foram as altas expressivas nos preços da gasolina e do diesel e também dos gás de cozinha, que são os derivados do petróleo mais consumidos Então, se pararmos para pensar, a gasolina teve uma alta de 34,78% nos últimos dois meses e isso estava manchando muito a reputação do atual presidente da República”, afirmou ele.

“Assim, o governo ficou numa saia justa para saber se manteria uma política de governança corporativa, para deixar investidores tranquilos em relação à Petrobras, ou se deveria voltar a um modelo intervencionista, que foi a aposta do governo”, pontuou o especialista.

Venezuela x Brasil

Questionado pelo jornalista do SJCC Jamildo Melo, titular do blog que leva seu nome, se o Brasil caminhava na mesma direção da Venezuela, ao indicar militares para postos de comando em suas petroleiras, Sandro Prado relembrou o período em que os militares ocuparam grande parte dos postos de poder do Brasil e a herança deixada por eles, alertando para a necessidade de indicações técnicas para estes cargos.

“Nós já tivemos uma experiência no Brasil, por um longo tempo, de 1964 a 1985, na qual os militares estavam nos principais postos de poder, e vimos o que aconteceu no final: O Brasil na década de 1980 estava quebrado, o Fundo Monetário Internacional interveio no país, decretamos moratória, nossa dívida externa ficou muito grande”, argumentou ele.

“Então, eu acho que, com esse aprendizado, deveríamos perceber que cargos diretivos não podem ser políticos, mas, sim, técnicos, ocupados por quem tenha habilidade, comprometimento e, principalmente, a liberdade para tomar decisões. Claro, com a devida prestação de contas”, completou.

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