MUNDO DIGITAL

Como algumas empresas de tecnologia cresceram apesar da pandemia de covid-19

Muitas empresas que estão no Porto Digital apresentaram crescimento expressivo durante 2020. Algumas tiveram demandas aumentadas pela transformação digital forçada acelerada pela pandemia

Angela Fenanda Belfort
Angela Fenanda Belfort
Publicado em 12/03/2021 às 22:14
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Divulgação/ Neurotech
Diretor de Novos Negócios da Neurotech, Rodrigo Cunha, diz que a empresa precisou criar novos produtos pra atender a demanda que ocorreu devido à digitalização de mais dados durante a pandemia - FOTO: Divulgação/ Neurotech
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Não se pode falar em lado positivo de uma pandemia que deixou um rastro de mais de 272 mil mortos. Mas mesmo numa realidade tão adversa que provocou recuo na produção da economia brasileira (de -4,1%) e pernambucana (-1,4%) no ano passado, uma parte das empresas de tecnologia cresceu acima dos dois dígitos durante 2020. As empresas que estão no ambiente do parque tecnológico do Porto Digital apresentaram um crescimento médio do seu faturamento de 22%, comparando com 2019. Dentre elas, a maioria das que cresceram e das que mais faturaram oferecem algum serviço no qual a demanda aumentou durante a pandemia. Dos cinco entrevistados nesta matéria, somente um disse que o crescimento do faturamento ocorreu sem o impacto da pandemia, que foi o Instituto de Inovação Cesar.

"As empresas do Porto Digital já vinham num crescimento acelerado desde 2019, quando registraram um aumento de X do faturamento. Houve uma transformação digital forçada acelerada pela pandemia. Isso ajudou mais as maiores empresas, porque tinham contratos mais sólidos e estáveis. Tecnologia é um serviço que está crescendo no mundo todo", resume o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena. Dentre as que mais cresceram, no ano passado, estão a Speedmais, Insole e a Consenso. E ainda de acordo com as informações do Porto Digital, no grupo das que mais faturaram estão: a Accenture, Acqio, Avanade, Avantia, Cesar, Insole, Neurotech, Rede Globo, Sertell e Tempest.

As empresas citadas acima oferecem uma diversidade de serviços como atendimento eletrônico (parecidos com o de um call center), desenvolvimento de softwares, inteligência artificial, big data, suporte às empresas na área de tecnologia, consultorias para a transformação digital, atividades ligadas ao e-commerce, sistemas para facilitar o trabalho das pessoas, entre outros.

Instituto de Ciência e Tecnologia, o Cesar registrou um aumento de faturamento superior aos 30%, comparando o faturamento de 2020 com o de 2019, quando registrou uma receita de cerca de R$ 128 milhões. "Houve um crescimento dos negócios dos nossos clientes em setores como financeiro, indústria eletro-eletrônica, empresas de serviços, setor elétrico, óleo e gás. A pandemia não contribuiu para o aumento do faturamento do Cesar. Isso ocorreu devido aos novos negócios que já vínhamos prospectando desde 2019, por causa do crescimento natural da Cesar School e também dos projetos de Lei de Informática que cresceram 20%. Teríamos crescido do mesmo jeito sem a pandemia", argumenta o presidente do Cesar, Fred Arruda.

Ele acrescenta também que não foram todas as empresas de tecnologia que cresceram no ano passado e que isso variou de acordo com o setor para o qual as firmas de tecnologia prestam serviço. "Muitos setores estão transformando os seus modelos de negócios que dependem de alguma forma do meio digital. Como por exemplo, a educação que teve que migrar para o digital", explica. Muitos colégios e faculdades passaram a oferecer aulas somente on line por que tiveram que suspender as aulas presenciais devido à pandemia.

SOLAR

Outro exemplo de crescimento vem da Insole que faturou, em 2020, 150% a mais do que em 2019. "Logo no começo da pandemia, tivemos medo com relação ao cenário que estava se desenhando. Pensamos que íamos crescer menos. Mas o nosso crescimento de vendas foi maior nos dois períodos de maior impacto da pandemia que foram o segundo e o terceiro trimestre de 2020", conta o presidente da Insole, Ananias Gomes. A Insole é uma fintech que vende soluções para o consumidor ou empresa reduzir a sua conta de energia elétrica sem bancar um investimento.

Mas o que o consumo de energia elétrica tem a ver com a pandemia ? "As pessoas ficaram em casa e aumentaram o consumo de energia elétrica. Por sua vez, muitas empresas tiveram as suas receitas reduzidas e tiveram que diminuir as suas despesas. As nossas soluções proporcionam uma redução de até 40% na conta de luz", afirma Ananias. A empresa atualmente tem 180 funcionários dos quais 60 ingressaram no ano passado.

A Insole vem apresentando crescimento nas mesmas proporções de 2020 há cerca de quatro anos. Segundo Ananias, os três fatores que mais contribuem para isso são: o aumento dos custos da energia elétrica, um conhecimento maior da geração distribuída e a necessidade de diminuir as despesas. A geração distribuída permite que o consumidor desconte uma parte da energia gerada por pequenas plantas remotas ou não na sua conta de energia. Outro fator que ajudou o crescimento da Insole foi a abertura de franquias. "Muitas pessoas que estavam desempregadas, executivos numa fase de transição - como gerentes de bancos, consultores de vendas - adquiriram uma franquia da Insole", diz Ananias.

"A pandemia é um evento muito ruim. Tentamos focar na saúde da população e dos nossos colaboradores. Mas o efeito colateral disso é que as empresas precisaram se transformar e levar informações para o mundo digital. E o volume de dados gerado no mundo digital é exponencial", conta o diretor de Novos Negócios da Neurotech, Rodrigo Cunha. A empresa registrou um crescimento de 40% do faturamento com relação a 2019. "Já tínhamos crescido nessa ordem de grandeza nos anos anteriores. Em 2020, a Neurotech foi muito demandada para ajudar as empresas a lidarem com esses dados que migraram para o digital", comenta Rodrigo. Isso fez surgir novos produtos oferecidos pela empresa.

Rodrigo acredita que a transformação digital é um caminho sem volta depois da pandemia. A Neurotech usa big data e inteligência artificial para oferecer soluções que ajudam os seus clientes a tomarem decisão com maior assertividade baseada em dados, indicando por exemplo como diminuir a inadimplência de um determinado negócio, definir o produto certo para determinado cliente etc. A Neurotech surgiu de um projeto de pesquisa dentro do Cesar com a participação dos professores do Centro de Informática (CIn) da Universidade Federal. Hoje, atua nos setores de crédito, varejo, seguros, financeiro, fintechs, entre outros.

PESSOAL

Todas as empresas citadas acima contrataram mais funcionários em 2020, enquanto grande parte das atividades econômicas demitiram ou reduziram salários no ano passado. Um dos fatores que podem impactar o crescimento das empresas de tecnologia é a falta de pessoal qualificado. "Queremos crescer o mesmo percentual de 2020. No entanto, o crescimento é determinado pelo capital humano disponível", argumenta Pierre Lucena.

O Porto Digital e a Prefeitura do Recife estão desenhando um programa que pretende aumentar a formação de jovens na área de tecnologia, aproveitando alunos que obtiveram boas notas no Enem pra fazer cursos de graduação na área de tecnologia.

"Está difícil reter pessoal qualificado. A competição por gente aumentou. Contratamos 50 pessoas e perdemos 30 nos dois primeiros meses de 2021. Os segmentos de banco e varejo estão contratando mais pessoas na área de tecnologia", conta Fred Arruda. Algumas vagas que estão tendo maior procura são as de engenheiro de software (que antigamente eram chamados de programadores) e profissionais de design, entre outros.

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