ECONOMIA CIRCULAR

Resíduos da fábrica da Jeep estão virando bolsas, saias e mochilas e vão estar à venda na Fenearte

Cintos de segurança, airbags e outros tipos de plástico estão se transformando em saias,sandálias bolsas e casacos. A intenção é ser mais sustentável e dar uma destinação mais nobre a esses resíduos

Angela Fernanda Belfort
Angela Fernanda Belfort
Publicado em 10/12/2021 às 18:34
ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DA JEEP/DIVULGAÇÃO
Roupas feita a partir da lona de airbag pela projeto Roda, que produz usando o conceito da economia circular - FOTO: ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DA JEEP/DIVULGAÇÃO
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Cinto de segurança, airbags, couro e alguns tipos de plásticos, todos resíduos da produção dos carros da Jeep, estão sendo transformados em saias, mochilas, casacos, sandálias e bolsas. Estes produtos são frutos do Projeto Roda e estarão expostos na 21ª edição da Fenearte, que está acontecendo no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda. É uma parceria entre a Roda e a multinacional Stellantis, dona da marca Jeep, que tem uma fábrica em Goiana, na Mata Norte de Pernambuco. A intenção da iniciativa é ser mais sustentável e agregar valor aos resíduos que poderiam ter uma destinação menos nobre.

"O nosso conceito é fazer um projeto de economia circular, utilizando resíduos que sobraram da produção dos veículos e dar novas utilidades a esse material. Quando uma pessoa compra um desses produtos, deixou de usar matéria-prima que vem da natureza e o resíduo passa a ser usado para um fim com maior valor, agregando qualidade", resume a co-fundadora da Roda, Mariana Amazonas. 

A parceria entre Roda e Stellantis foi iniciada com uma oficina colaborativa entre as costureiras e cinco designers: Jailson Marcos, que é sapateiro; Bete Paes, com habilidade de tingimentos naturais e estampas manuais; os designers de moda Rodrigo Evangelista e Mirella Bresani;  e Bôsco Santana, mestre artesão em bolsas, que já realiza um trabalho social há vários anos formando pessoas de alta vulnerabilidade no ofício da modelagem e costura. Ele é reconhecido internacionalmente pelo trabalho que realiza e já foi convidado pela Chanel, marca de alta costura, para fazer uma formação na Itália. Veja abaixo uma roupa feita a partir da lona de air bag.

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DURÁVEL Produtos são feitos com materiais planejados para um carro - DIVULGAÇÃO
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SOBRAS Pelo menos 50 tipos de resíduos são descartados no processo de construção de um carro na Jeep - DIVULGAÇÃO
ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DA JEEP/DIVULGAÇÃO
SUSTENTABILIDADE Vestido feito a partir da lona de airbag faz parte do inventário do projeto Roda - ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DA JEEP/DIVULGAÇÃO

A fábrica da Jeep, de Goiana, já nasceu, em 2015, fazendo parte de um projeto de aterro zero. Ou seja, todos os resíduos que chegam à fábrica são todos destinados a algum tipo de reciclagem e não são enterrados em aterros sanitários. Num princípio ambientalmente correto, só deveria ser enterrado o resíduo que não pode ser reciclado, como restos de comida. 

Para o leitor ter ideia, na montagem de cada carro são usados 3,1 mil componentes e muitos chegam à fábrica em embalagens. Em 2019, a fábrica da Jeep de Goiana chegava a ter 50 tipos de resíduos diferentes que totalizavam um volume de 14 mil toneladas por mês. A quantidade de resíduos existente na planta industrial varia de acordo com o volume de produção. Uma parte muito pequena disto vai parar no projeto Roda, mas a Stellantis não informou os volumes doados. 

O coordenador de Projetos Sociais da Stellantis, Fernando Elias, afirma que a parceria da companhia com a Roda dá uma nova destinação aos resíduos, que poderiam ser usados com fins menos nobre. Ele cita que, por exemplo, um resíduo de plástico poderia ser queimado num processo de co-geração para fabricar energia. "No projeto da Roda, o resíduo se transforma em renda, gera mais valor, incluindo os saberes que os designers e outros profissionais passaram para os integrantes deste grupo", complementa. "Na economia circular, o projeto tem que fazer sentido para todos. A peça tem que ser bonita, de qualidade. As pessoas desejarem comprá-la e a remuneração ser justa", diz Fernando, acrescentando também que a companhia "tem uma política/ missão de pensar a sustentabilidade em toda a cadeia". Os resíduos usados no projeto Roda são 100% doados pela fábrica da Jeep. 

Oito pessoas trabalham integralmente para o projeto da Roda, incluindo duas costureiras fixas - que tem carteira assinada - e mais três costureiras que colaboram, quando necessário. "O grupo inclui um ex-morador de rua e dois venezuelanos que estavam em situação de vulnerabilidade para que as pessoas tenham uma chance de melhorar", diz a co-fundadora da Roda, Mariana Amazonas. Todo produto que é vendido pelo projeto, destina 50% do valor pago para quem faz a produção das peças, que são as costureiras e artesãos.  

E acrescenta: "a economia circular também faz coisas pra durar. Estamos usando materiais que foram feitos pra ter mais de uma década de vida dentro de um carro". Mariana também fala que menos resíduos resultam em menos emissão de carbono e utilizá-los como fonte de matérias-primas reduz, em essência, a necessidade de exploração de novos recursos naturais". As peças estão disponíveis para a comercialização em todo o país pelo e-commerce: https://www.roda.eco.br/

A Roda é uma empresa criada há um ano, com foco no impacto social. Antes da parceria com a Stellantis, já produzia roupas no mesmo sistema de economia circular e com o propósito de criar uma via sustentável para moda, uma das maiores indústrias geradoras de impacto ambiental. “A economia circular é exatamente a resposta que encontramos. Melhor do que comprar uma roupa de algodão orgânico, é utilizar um tecido que já iria virar lixo e transformar com técnicas de upcycling, criando um processo positivo de reciclagem e não demandando a extração de mais recursos naturais. Criamos uma cadeia de circularidade com aquela matéria prima”, resume Mariana. Upcycling consiste basicamente em dar um novo uso a materiais que seriam descartados.  

As duas sócias da Roda já fizeram um investimento de cerca de R$ 150 mil na empresa. Segundo Fernando Elias, o valor que a Stellantis investiu até agora no projeto foi "simbólico", bancando iniciativas como o workshops, lanches etc.  De acordo com Mariana, a expectativa é que a Roda consiga ter um fatuamento de cerca de R$ 500 mil em 2022. E o meio ambiente agradece muito. 

 

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