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Suspensão de aulas impôs aos pais desafio de alfabetizar crianças em casa

Famílias se mostram preocupadas com progresso de pequenos estudantes; especialistas sugerem cautela.

Gabriel Dias
Gabriel Dias
Publicado em 31/10/2020 às 7:00
Especial
LUISI MARQUES/JC IMAGEM
MISTURA Desde o início da pandemia, Hesíodo Góes se divide entre orgulho e angústia ao acompanhar, diariamente, o desenvolvimento escolar do filho Otto, 6 anos, durante aulas remotas - FOTO: LUISI MARQUES/JC IMAGEM
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Aos 6 anos e estudante do primeiro ano do Ensino Fundamental, Otto estava num momento importante do processo de alfabetização quando ele e a família foram surpreendidos pela suspensão de aulas presenciais, provocada pela pandemia da covid-19. Desde março com o filho em casa, o fotógrafo Hesíodo Góes, 35, já experimentou uma roda gigante de emoções que tem como motor a difícil missão de ajudar o pequeno a aprender a ler e escrever. "É bom acompanhar de perto o desenvolvimento do meu filho, mas é muito angustiante e desgastante tentar ensinar algo tão importante para uma criança e perceber que ela não entendeu", reflete o pai, que confessa já ter chorado pela preocupação com o desenvolvimento do filho. Tantos meses depois do início das aulas remotas, assim como Góes, muitos pais estão preocupados. De um lado, por sentirem o que chamam de "pouco avanço" ou "avanço menor do que o esperado" na alfabetização. De outro, por se cobrarem por uma missão para a qual não estavam preparados. "Busco entender o tempo do meu filho, sem muita pressão. Não tenho o conhecimento didático que as professoras têm. Ele já conhece as letras do alfabeto, mas ainda se confunde com algumas. O que ele aprendeu em 6 meses teria aprendido em um ou dois com a professora", calcula o pai, que acompanha as aulas e atividades de Otto diariamente.

Mãe da Cecília, 5 anos, a funcionária pública Thiara Lustosa, 30, também está preocupada com a educação da filha, que está no Jardim III. "No início da pandemia, enquanto eu estava trabalhando em casa, comprei lousa e algumas atividades e criei uma rotina de estudos. Mas, com a flexibilização do isolamento social, voltei a trabalhar presencialmente e não estou conseguindo fazer o acompanhamento como gostaria. Estou muito preocupada, porque vejo que o conteúdo enviado pelo colégio não é suficiente para alfabetizar uma criança. Minha intenção é que ela mantenha um ritmo regular de aprendizado. Hoje, infelizmente, o acompanhamento está muito incipiente. Leio para ela na hora de dormir ou faço algumas brincadeiras, mas nada que consiga suprir as necessidades", lamenta.

Especialistas ouvidos pela reportagem concordam que, apesar da natural preocupação das famílias, os pais precisam ter calma. "A alfabetização é um processo que leva anos. Os pais devem entender que todas as crianças estão passando pela mesma situação e, quando as aulas forem retomadas, as escolas vão precisar adaptar suas grades para receber esses alunos que ficaram tanto tempo longe", afirma Ana Carolina Perrusi, especialista em Educação Infantil do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Segundo ela, a alfabetização durante a quarentena tem características especiais. "Naturalmente, mesmo sem pandemia, este já é um período de muitas expectativas, afinal de contas, ver a criança lendo e escrevendo é um resultado concreto muito aguardado. No entanto, com a pandemia, há um distanciamento físico que dificulta o acompanhamento individualizado da professora para com a criança, tão necessário no processo de alfabetização. Então, os pais precisam ter muita calma neste momento e buscar estimular os filhos sem pressão", comenta.

Doutora em Educação e professora da UFPE, Catarina Gonçalves alerta para um outro aspecto relevante da educação. "Mais importante do que colocar a criança sentada e fazê-la copiar letras e juntar sílabas é o processo de estimulação. É preciso estimular nas brincadeiras, no reconhecimento de palavras, lendo poesias para essas crianças, livros de histórias e apontando para ela algumas palavras do dia a dia ou em torno de assuntos que a própria criança já gosta. Mas, definitivamente, não dá para querer que os alunos saiam escrevendo ortograficamente tudo correto. Até a criança aprender a ler e escrever, ela passa por uma série de processos cognitivos que a levam a compreender a norma de escrita". 

A psicopedagoga Michelle Feitosa lembra que as crianças precisam se sentir seguras. "É necessário deixá-las felizes. Não é bom ficar sempre corrigindo a criança, muito menos gritar com elas ou bater na mesa sempre que errarem. Mesmo que, eventualmente, elas errem uma letrinha, é necessário parabenizar e incentivar para que elas se sintam felizes. As correções vão sendo feitas aos poucos. Parabenizar a criança, dizer que ela está melhorando também ajuda", diz, lembrando que crianças com até cinco anos devem ficar no máximo uma hora por dia na frente de uma tela. Até os 12 anos, devem ficar por duas horas, no máximo. "A pandemia já está sendo muito cruel com as crianças. É importante estimular, mas entender que a escola vai fazer os complementos que forem necessários", finaliza.

Aos quatro anos, Benício estuda com a mãe, com a irmã mais velha e, mais recentemente, conta com uma professora particular duas vezes por semana. "Aqui a gente faz de tudo para estimular o Benício, imprimimos atividades com personagens fictícios que ele gosta. É difícil, mas a estimulação é importante", afirma a mãe, a consultora médica Maria Rhuanna Albuquerque.

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