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Explosão em Beirute: mais de 250 mil desabrigados e risco de crise de abastecimento alimentar

Nova contagem mostra mais de 100 mortos e desaparecidos, além de 4.000 pessoas feridas; ainda há fumaça saindo do local da explosão

Manuela Figuerêdo AFP
Manuela Figuerêdo
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Publicado em 05/08/2020 às 8:54
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Nas proximidades do distrito portuário, os danos e a destruição são enormes. - FOTO: STR / AFP
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O Líbano decretou luto nacional nesta quarta-feira (5). Em novo balanço feito pela Cruz Vermelha Libanesa da contagem de vítimas das explosões que aconteceram na última terça-feira (4) na área portuária de Beirute, capital do País, a quantidade de mortos já ultrapassou de 100 pessoas, além de mais de 4.000 feridas. "O que estamos testemunhando é uma enorme catástrofe", disse o chefe da Cruz Vermelha do Líbano, George Kettani. 

A estimativa feita pelo governador de Beirute, Marwan Abboud, é de que mais de uma centena de pessoas continuam desaparecidas, inclusive bombeiros, e que os danos para a cidade podem chegar a 5 bilhões de dólares."Dei uma volta por Beirute. Os danos podem chegar a entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões", disse o governador Marwan Abbud, acrescentando que está à espera da avaliação de especialistas e engenheiros. De acordo com o governo, mais de 250 mil pessoas estão desabrigadas.

Segundo a Associated Press, ainda há fumaça saindo do local da explosão. As principais ruas do centro da cidade amanheceram cheias de escombros, com as fachadas dos edifícios destruídas e veículos danificados. Imagens de drones mostram que a explosão atingiu silos de trigo que ficavam no porto. O porto armazenava 85% dos estoques de cereais do país e principalmente o trigo, essencial para a base da alimentação da população.

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PORTO Helicópteros com água do mar tentavam conter as chamas no final da tarde de ontem em Beirute - AFP

Explosões

Por volta das 18h locais (12h, horário de Brasília), uma primeira explosão foi ouvida em Beirute, seguida de outra mais potente. Os edifícios tremeram, e os vidros das janelas quebraram em um raio de vários quilômetros. Em vídeos postados nas redes sociais, foi possível ver uma enorme nuvem de fogo provocada pelas explosões, em cenas parecida com o de uma bomba nuclear. A potência foi tão intensa que os sensores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) as registraram como um terremoto de 3,3 pontos na escala Richter. A onda de choque dessas deflagrações foi sentida até na ilha do Chipre, a mais de 200 quilômetros de distância.

De acordo com o primeiro ministro Hassan Diab, as explosões foram causadas pela detonação de 2.750 toneladas de nitrato de amônia. A substância é um sal branco e inodoro, usado na composição de certos tipos de fertilizantes na forma de grãos, altamente solúveis em água. Ainda, é usada na fabricação de explosivos e já causou vários acidentes industriais."É inadmissível que um carregamento de nitrato de amônia, estimado em 2.750 toneladas, esteja há seis anos em um armazém, sem medidas preventivas. Isso é inaceitável e não podemos permanecer em silêncio sobre o tema", declarou o primeiro-ministro durante a reunião do Conselho Superior de Defesa. Não há evidência de que se trate de um atentado terrorista.

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NAS RUAS População à procura de atendimento - IBRAHIM AMRO/AFP
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Os jornalistas foram proibidos de acessar a zona, segundo um correspondente da AFP. - ANWAR AMRO / AFP
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Os jornalistas foram proibidos de acessar a zona, segundo um correspondente da AFP. - STR / AFP

Cenário devastador

Os hospitais da capital, que já lidam com a pandemia do coronavírus, estão saturados. A ONU afirmou que vários capacetes azuis ficaram gravemente feridos a bordo de um barco atingido pelas explosões. Membros da embaixada da Alemanha também ficaram feridos, segundo Berlim. Nas ruas de Beirute, soldados evacuavam moradores atordoados, muitos ensanguentados, com camisas atadas ao redor da cabeça para conter os ferimentos.

Vários carros e ônibus foram abandonados no meio das estradas. Diversas lojas nos arredores do porto ficaram destruídas."É uma catástrofe. Existem corpos no chão. Ambulâncias estão pegando os corpos", disse à AFP um soldado próximo ao porto. Um homem chorava enquanto perguntava a um militar pelo paradeiro do filho, que estava no porto no momento das explosões. Várias horas após a tragédia, helicópteros seguiam despejando água do mar para tentar conter as chamas.

As forças de segurança isolaram a região portuária. O acesso está autorizado apenas para os serviços de Defesa Civil, as ambulâncias e os bombeiros. "Foi como uma bomba atômica. Já vi de tudo [na vida], mas nada igual a isso", declarou à AFP Makruhie Yerganian, um professor aposentado que vive há mais de 60 anos na região portuária.

 

Abastecimento de alimentos

O abastecimento de alimentos também é uma preocupação. O porto armazenava 85% dos estoques de cereais do país e principalmente o trigo, essencial para a base da alimentação da população."O porto de Beirute, agora totalmente afetado, é vital para o abastecimento de alimentos, grãos e combustível que o Líbano importa", disse Jad Sakr, diretor da ONG Seve The Children. "Famílias poderão sentir imediatamente a falta de itens básicos", alertou. Antes da explosão, os preços de alimentos já tinham sofrido uma alta de mais de 160% desde setembro e uma em cada cinco famílias foi obrigada a abandonar uma das refeições no dia. O desemprego também subiu em 45% no período.

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A explosão aconteceu nesta terça-feira (4), na região portuária de Beirute. - STR / AFP

De acordo com a empresa de trading Mena Commodities, existem chances dos armazéns não estarem com a capacidade máxima, em razão do governo já estar enfrentando uma penúria de alimentos no mercado. A destruição, no entanto, será um grande desafio para os libaneses, que produzem apenas 10% de seus alimentos e dependem de importação. Com terminais de cargas afetados, o temor é de que mesmo a decisão das autoridades de acelerar a compra de alimentos não seja suficiente para impedir uma crise maior. Ainda, nesta quarta-feira, o governo anunciou que os estoques de trigo do porto não poderiam ser consumidos. Mas que haveria fornecimento até que novas importações fossem realizadas.

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