MEIO AMBIENTE

Entre 1970 e 2016, 68% da vida selvagem desapareceu

Para a ONU, Estados fracassaram em preservar biodiversidade na década passada

AFP
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Publicado em 15/09/2020 às 11:13
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MAYKE TOSCANO/SECOM
Queimadas têm matado biodiversidade do planeta - FOTO: MAYKE TOSCANO/SECOM
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Os Estados não cumpriram os compromissos da última década de preservação da biodiversidade, alertou a ONU em relatório divulgado nesta terça-feira (15), em meio às negociações para definir um novo plano para 2020-2030 e tentar conter a brutal perda de espécies.

O World Wide Fund for Nature (WWF) confirmou isso na semana passada: entre 1970 e 2016, 68% da vida selvagem desapareceu, principalmente devido à atividade humana. Essa erosão está-se voltando cada vez mais violentamente contra o homem, que depende dos recursos do planeta para sobreviver.

Em 2010, cerca de 190 Estados-membros da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB) adotaram um plano estratégico de dez anos, com 20 metas chamadas de Aichi, para deter essa degradação.

O balanço deixa muito a desejar, segundo o relatório "Global Biodiversity Outlook 5": "Em nível global, nenhuma das 20 metas foi totalmente cumprida, embora seis tenham sido parcialmente alcançadas".

Esses desafios visavam, principalmente, a prevenir a extinção de espécies ameaçadas, reduzir e se possível eliminar os subsídios públicos que contribuem para a destruição da biodiversidade, gerenciar de forma sustentável os estoques de peixes e reduzir a poluição por plásticos.

"Houve algum progresso (...) Por exemplo, o desmatamento caiu um terço, a gestão da pesca melhorou, a superfície de áreas protegidas aumentou (...) o que reduziu a extinção de espécies", disse à AFP Elizabeth Maruma Mrema, secretária executiva da CDB.

Mas, ao mesmo tempo, a ONU nota ameaças a essas conquistas, como o fato de que a tendência se inverteu recentemente na Amazônia brasileira em termos de desmatamento e que a proteção em algumas áreas ainda não se tornou efetiva.

Além disso, embora o financiamento para a biodiversidade tenha dobrado, os subsídios aos setores prejudiciais, estimados em US$ 500 bilhões - incluindo US$ 100 bilhões para a agricultura - são muito maiores.

O relatório recomenda mudanças profundas em oito áreas para os próximos anos: uso da terra e de florestas, agricultura, sistema alimentar, pesca e oceanos, cidades, água potável, luta contra as mudanças climáticas e saúde.

Especificamente, recomenda conservar, ou restaurar, ecossistemas terrestres e marítimos; desenvolver a agroecologia; reduzir o desperdício de alimentos; consumir carne e peixe com moderação; acomodar a natureza nas cidades, inspirar-se na natureza para combater as alterações climáticas; e promover ecossistemas sustentáveis para a saúde humana.

"Estamos exterminando sistematicamente todos os seres vivos não humanos", alerta Anne Larigauderie, secretária-executiva do IPBES, painel de especialistas da ONU em biodiversidade.

Mas ainda não é tarde, ela garante, já que "a biodiversidade pode se recuperar rapidamente", se comparado, por exemplo, com o tempo necessário para reverter os efeitos da mudança climática.

Este relatório coincide com as negociações em curso para estabelecer um novo plano de ação até 2030.

O calendário foi alterado pela crise da covid-19. A 15ª reunião da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP15), que seria realizada em outubro na China, foi adiada para 2021.

O congresso mundial da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) em Marselha (França), adiado de junho de 2020 para janeiro de 2021, pode sofrer novo adiamento.

Embora a pandemia tenha causado essa desaceleração, também levou "muitas pessoas a se conscientizarem de que algo está errado na relação entre nós e o resto da natureza", disse o principal autor do relatório, David Cooper.

"Teremos novos objetivos", acrescenta Cooper em relação às negociações, não sem antes ressaltar: "Mas esses nunca foram um problema, e sim seu cumprimento".

"Com certeza, mais recursos serão necessários", completa.

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