Futuro americano

Eleições presidenciais nos Estados Unidos: covid-19 e Black Lives Matter trazem dúvidas a duelo Trump x Biden

Dia oficial de votação é 3 de novembro, mas alguns estados já estão recebendo votos pelos correios

Thiago Wagner
Thiago Wagner
Publicado em 16/10/2020 às 13:04
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JIM WATSON, SAUL LOEB / AFP
Democrata Joe Biden (esquerda) tenta impedir a reeleição do republicano Donald Trump - FOTO: JIM WATSON, SAUL LOEB / AFP
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Dizer que a eleição presidencial dos Estados Unidos deste ano é uma daquelas com o resultado mais improvável dos últimos tempos não é apenas um clichê para afagar os egos de democratas ou republicanos. Por mais que as pesquisas de opinião apontem certo favoritismo para o democrata Joe Biden em relação ao republicano, e atual presidente, Donald Trump, é praticamente impossível cravar que ele vá ser o vencedor após o encerramento da votação no dia 3 de novembro deste ano. Em 2020, a pandemia do coronavírus, o futuro da economia e até mesmo o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) podem interferir na escolha do eleitor, criando um grande ponto de interrogação para qualquer prognóstico mais preciso.

"Vivemos um território desconhecido por conta da covid-19, que criou um mundo novo. É difícil prever por conta disso. Cada estado tenta lidar de uma maneira diferente. Mas quem de fato vai votar?", comentou o fundador e presidente do Capital Communications Group, Akran Elias, durante evento com jornalistas brasileiros nesta sexta-feira (16). A empresa é focada em diplomacia pública e relações políticas.

A pandemia de coronavírus já atingiu mais de 8 milhões de pessoas nos Estados Unidos, provocando mais de 200 mil óbitos. É o país com mais casos e mortes no mundo segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). O próprio presidente Donald Trump contraiu a doença no começo de outubro. Por conta da covid-19, vários estados estão recebendo mais votos pelos correios. Segundo o jornal The New York Times, mais de 80 milhões de cédulas já foram expedidas pelo sistema postal norte-americano e mais de 10 milhões de votos já foram oficialmente computados. Cada estado tem regras específicas para o voto pelo correio, o que torna a eleição nos Estados Unidos ainda mais confusa para quem enxerga de fora.

De maneira geral, o eleitor, apesar de escolher o nome do candidato democrata ou republicano na cédula, não escolhe diretamente o presidente, a eleição é indireta e não tem segundo turno. Os candidatos na verdade competem pelo colégio eleitoral de cada um dos 50 estados norte-americanos. Cada estado tem direito a uma quantidade de delegados do colégio eleitoral com base na população. Assim, o candidato mais votado na Flórida, por exemplo, leva o direito de ter todos os delegados desse estado. O mesmo vale para o restante do país. No total, são 538 delegados, sendo necessário um total de 270 para ser vencedor. O voto nos Estados Unidos não é obrigatório como no Brasil.

A ideia desse sistema é dar peso mais justo para os estados e impedir que estados com grande população "emudeçam a opinião" de outros menores. "Se não fosse esse sistema, alguns votos seriam 'mutados'. A Califórnia que tem uma grande população, por exemplo, faria diferença e iria apagar a forma como pessoas de outros estados votam. Nesse sistema cada estado conta. A eleição é dos Estados Unidos", explica Akran Elias.

Apesar do peso relativamente igual para os estados, há aqueles que historicamente já pendem para democratas ou republicanos, ou seja, não irão mudar o voto. É o caso da Califórnia para os democratas e Texas para os republicanos. Contudo, há aquelas que são considerados "estados chaves" por mudarem de eleição para eleição. Alguns deles são Flórida, Ohio, Wiscosin e Pensilvânia. Trump ganhou em todos eles em 2016, por exemplo e levou a melhor sobre Hillary Clinton. Assim, a briga fica normalmente sobre esses locais.

Sobre todo esse caldeirão já fervente das eleições, há ainda o ingrediente do movimento Black Lives Matter, que tomou as ruas de vários estados norte-americanos pedindo maior igualdade racial entre os cidadãos. Akran avalia que esse debate social pode trazer uma mudança no tipo de voto nos Estados Unidos. Segundo ele, normalmente os americanos votam pensando na economia do país, mas o levante social pode gerar novas reflexões no jogo eleitoral. "Americanos votam pela economia historicamente. Eles pensam no bolso. É tipicamente uma razão para votar. Só que essas questões de justiça social se elevaram no país e as pessoas também podem levar na hora de votar. Irão decidir se votam com o bolso ou pela justiça social. É mais um território desconhecido. Em 2016 disseram que Trump iria perder votos dos latinos, mas foi o contrário. O que explica? A economia é a resposta", afirmou.

Um último fator que pode entrar nas eleições dos Estados Unidos é a questão da Suprema Côrte. Como ambos os lados acusam o outro de suspeita de fraude, devido ao voto pelos correios e as dificuldades de acompanhamento presencial provocadas pelo coronavírus, as eleições podem ser levadas para a Suprema Côrte. A questão é que uma das juízas, Ruth Bader Ginsburg, faleceu agora em setembro. Com isso, Trump se apressou para indicar Amy Coney Barrett para a vaga de Ginsburg. A indicação ainda precisa passar pelo Senado, de maioria Republicana, mas caso ocorra, levará a balança da Côrte a favor de Trump caso haja uma disputa judicial. Por conta disso, os democratas lutam para evitar que o nome de Coney seja aprovado. Independente da aprovação de Coney, se a eleição for para a Suprema Côrte, o resultado poderá ser atrasado.

"Não sei se vai se estender, mas há uma possibilidade de não termos declaração de eleição. Assim, uma das campanhas deve levar a questão ao Supremo. Por isso a batalha pela indicação lá", pontuou Akron Elias. Há ainda uma possibilidade de uma eleição mais conturbada com nenhum dos candidatos obtendo os 270 delegados. Assim, a eleição iria para o Congresso, com cada estado escolhendo o candidato. A Câmara dos Deputados elegeriam o presidente e o Senado o vice. Nesse caso, os Estados possuem pesos iguais nas escolhas.

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