Unidade e cura para os EUA

ELEIÇÃO Projetado pela mídia americana como presidente, Joe Biden acena para pacificação de um país fraturado

Felipe Vieira
Felipe Vieira
Publicado em 08/11/2020 às 2:00
AFP
Há dias, Biden já é apontado como vitorioso nas eleições dos Estados Unidos - FOTO: AFP
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Há duas claras obras de reconstrução no horizonte de Joseph Robinette Biden Jr, 77 anos, projetado pela mídia americana como o 46º presidente dos Estados Unidos após a eleição de 3 de novembro. A  primeira é  recuperar uma economia que foi devastada pela pandemia de covid-19. A segunda é refazer pontes e estimular o diálogo em um país que, salvo durante a sangrenta Guerra Civil,  nunca esteve tão dividido.

E foi justamente esse recado de união que veio na forma de um poderoso discurso realizado na noite de sábado em Wilmington, Delaware, para uma plateia ávida por uma mensagem positiva. "A Bíblia diz que há tempo para tudo. Para plantar, para colher e para curar. Essa é a hora da cura na América. Não vim para dividir, mas para unificar". "Entendo o que o presidente (Donald) Trump deve estar passando agora. Perdi algumas vezes na minha vida, mas vamos dar uma chance a nós mesmos, vamos nos escutar mais. Vamos parar de tratar os oponentes como inimigos. Somos todos americanos".

"Temos uma luta contra o vírus, contra o racismo, colocar o clima sob controle. O mundo inteiro está nos vendo. Os EUA são um raio para o mundo. Sempre acreditei que a América se define em uma palavra: oportunidades". A plateia presente foi ao delírio em várias partes do discurso.

PROJEÇÃO

A projeção de vitória do democrata veio neste sábado (7), quando o triunfo no Estado da Pensilvânia garantiu 273 delegados no colégio eleitoral ao ex-vice de Barack Obama - mais do que os 270 necessários para que ele assuma presidência. A projeção da mídia é uma tradição americana para anunciar vencedores, uma vez que Biden só será formalmente eleito no dia 14 de dezembro, data em que os delegados do Colégio Eleitoral se reunirão.

Mas o clima de festa tomou conta de várias partes do país com o anúncio de que o democrata fez o número mínimo de delegados para garantir o cargo. Joe Biden prometeu restaurar a "alma" dos Estados Unidos, atingido por uma pandemia que deixou 236 mil mortos e detonou a pior crise econômica em um século.

Além disso, o país está profundamente dividido em questões como raça, imigração, porte de armas e vínculo com o resto do mundo após o governo Trump, sob o lema "América primeiro". E embora Biden tenha vencido, metade do eleitorado apoiou Trump, que acumulou um fluxo impressionante de mais de 70 milhões de votos. Essa divisão certamente continuará a impactar o Congresso, onde os republicanos devem manter sua maioria no Senado e os democratas, embora ainda controlem a Câmara, perderam cadeiras.

IDADE

Há quem aposte que a avançada idade de Biden é um obstáculo para sua gestão. Aos 77 anos (vai completar 78 no próximo dia 20), ele será o mais velho a ocupar o Salão Oval da Casa Branca. Ao final do mandato, terá inapeláveis 82 anos. O jeito errático, que lhe valeu o jocoso apelido de "Sleepy Joe" (Joe Dorminhoco) dado por Trump, também é um chamado à desconfiança em uma nação que produziu líderes carismáticos como John Kennedy, Ronald Reagan e Barack Obama. Pelo menos no discurso de ontem não foi o que se viu: Biden estava focado e elétrico.

A seu favor está a manifesta disposição de tentar amenizar a divisão do país. "O trabalho que temos pela frente será difícil, mas eu prometo a você: serei um presidente para todos os americanos, quer eles votem em mim ou não", disse em um tuíte. "É hora da América se unir e é hora da cura", disse, antes do discurso, através do Twitter. 

De perfil moderado e com uma carreira de mais de 40 anos na política, Joe Biden foi uma espécie de azarão dentro das hostes democratas, uma vez que muitos acreditavam em um maior apelo dos senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren junto aos jovens. Agora está nas mãos dele o destino da maior potência mundial.

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