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Impeachment de Bolsonaro, salvo a ocorrência de um "cisne negro," está conjurado

"A conquista das presidências das casas do Congresso, um PGR amigável e um pé no STF (em junho serão dois), além da impossibilidade de manifestações dada a pandemia", praticamente enterram possibilidade. Leia a opinião do ex-ministro Raul Jungmann

Raul Jungmann
Raul Jungmann
Publicado em 04/02/2021 às 9:00
MARCOS CORREA/PR
Jair Bolsonaro (sem partido), presidente do Brasil - FOTO: MARCOS CORREA/PR
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Iniciado o governo do atual Presidente, com elevada participação de militares, um sobressalto tomou conta da mídia, formadores de opinião, organizações da sociedade civil e órgãos de controle: estaria em marcha um golpe? As falas do Presidente, seus apoiadores e algumas declarações de ministros de origem militar despertavam suspeitas.

Sempre que pude divergi dessa possibilidade. Primeiro, porque generais da reserva em postos do executivo, não falam pelas forças armadas e, imaginar o contrário revela ignorância dos códigos e conduta das FFAAs na atualidade. Em segundo lugar, porque sabíamos por experiência e conhecimento dos atuais e ex-comandantes das Forças e respectivos Altos Comandos, que a possibilidade de descumprir a Constituição era algo fora de cogitação.

Certamente, o "presidencialismo de colisão" adotado pelo Presidente, constrangendo e pressionando o Congresso e Supremo com a ameaça da invocação das massas e o poder da espada, que estariam ao seu lado, dava corda as interpretações que um projeto autoritário estaria em curso. Ao cabo de um ano e meio de governo, restou cabalmente comprovado que o modus operandi da "colisão" não dobraria o parlamento, nem a suprema corte. Processos rondavam a família presidencial, o inquérito do "fim do mundo" apontava conexões entre o bolsonarismo raiz e as fake News, e a pandemia, com suas repercussões imprevisíveis e a sombra de um impeachment, ainda que distante, rondavam o planalto.

Em 17 de junho de 2020, Fabrício Queiroz é preso na casa de Fred Wassef e o governo de "colisão" principia rapidamente a mudar, sendo o seu símbolo o acordo com o Centrão na Câmara dos Deputados. Daí em diante, o governo irá se assemelhar mais e mais a governos anteriores, até certo ponto. Militares no executivo silenciam e um presidencialismo de coalisão progressivamente vai tomando as rédeas políticas. Com a conquista das presidências das casas do Congresso, um PGR amigável e um pé no STF (em junho serão dois), além da impossibilidade de manifestações dada a pandemia, o impeachment, salvo a ocorrência de um "cisne negro," está conjurado.

O presidente Jair Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes tem uma chance real de tocarem as reformas e manterem o auxílio emergencial, em que pese a conjuntura econômica e social complexa e difícil pela frente.

Raul Jungmann, Ex-Ministro da Reforma Agrária, Defesa e Segurança Pública

 *Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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