OPINIÃO | Notícia

Temos que dar jeito

Os parcos recursos do país estão sendo diariamente drenados para os bolsos de parte substancial da classe política. São R$ 59 bi de emendas.

Por JOÃO HUMBERTO MARTORELLI Publicado em 13/06/2024 às 0:00 | Atualizado em 13/06/2024 às 15:15

No Rio Grande do Sul. Nas estradas, o cenário ainda é devastador, casas arruinadas, plantações destruídas, a imaginação reproduz em câmara lenta os dias de chuva. As imagens confirmam a verdade absoluta - embora no assunto existam os negacionistas - de que o planeta está reagindo às agressões. No carro, vou lendo as notícias não somente daqui (o número de mortos subiu para 173), mas de todas as tragédias similares, que já invadiram o cotidiano: a de hoje, moradores de ilha do Caribe são expulsos após o mar subir. Tem outras. Os incêndios disparam no Pantanal. Vírus enormes são encontrados na camada de gelo da Groenlândia, que está descongelando. A chamada PEC das praias, a propósito, é uma excrescência forjada por aqueles que nos têm como imbecis. E aqui se entrelaçam os desastres climáticos com a organização política.

O motorista me conta duas histórias de mesmo conteúdo. Nas enchentes de setembro de 2023, uma ponte de ferro, que consistia no acesso principal do município de Feliz, uma cidadezinha de 12.000 habitantes aqui no Rio Grande, foi destruída. Os cidadãos não quiseram esperar a reposição pelo poder público, fizeram uma arrecadação ("vaquinha") e, em três meses, refizeram a ponte com 6 milhões de reais. As indicações do poder público tinham prazo indefinido e orçamento de 19 milhões. Apesar do descrédito do poder público, a ponte feita pelo povo resistiu bravamente nas enchentes de maio passado.

Igual procedimento tiveram os empresários de Caxias do Sul, que reconstruíram a estrada destruída pelas águas, com recursos próprios, em seis dias. Vem logo à mente a matéria que li em Veja durante o voo, relativa à cidade de São Luiz, em Roraima: 109 milhões de reais foram enviados para lá por meio das chamadas emendas Pix, mas não existe uma obra em andamento, ninguém sabe dizer ao certo onde os recursos foram aplicados. Podemos dizer, de uma tirada: no bolso dos autores das emendas e do prefeito.

Não defendo que a população se tome em armas e execute os serviços da responsabilidade do poder público. As duas histórias das cidades gaúchas dizem muito de iniciativas heroicas, de organização popular, de solidariedade, mas dizem muito também da completa ausência e, quando presente, da ineficiência, do Estado brasileiro, cujos parcos recursos estão sendo diariamente drenados para os bolsos de parte substancial da classe política. É inaceitável termos 59 bilhões de reais de emendas parlamentares sob essa circunstância.

Quanto mais reflito, contudo, mais me abate o pensamento de que essa mesma classe política tem que ser respeitada, porque foi eleita pelo povo, e assim é a democracia representativa. Mas isso é na forma. No conteúdo, não existe democracia em que o povo elege quem vai roubar: pior, sabendo disso, ao menos em tese. Então, a democracia reclama resgate.

Entre os negacionistas das mudanças climáticas e os assaltantes da república, caminhamos para o desespero. Ele vai chegar. O nível de indecência em que se encontram todos os aparelhos de Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) é intolerável. Não são pessoas, e muito menos agentes públicos, são cargos pensando em cargos, que pensam em poder, que pensam em dinheiro. A sociedade precisa acordar. Temos que dar jeito.

João Humberto Martorelli, advogado

 

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