O absurdo
...Imagine uma escola em que os alunos não precisam nem pensar, nem escrever, nem ler, nem aprender, nem conhecer nadda....A tal IA faz tudo.....

Se eu entendi bem aquele conceito de "contemporaneidade" proposto por G. Agamben, o "ser contemporâneo" não é o pertencer a uma época e partilhá-la com outras pessoas - minhas "contemporâneas"-, mas uma determinada atitude: a de não se deixar imergir em seu tempo e guardar a distância necessária para poder criticá-lo: o contemporâneo É de seu tempo e vai CONTRA seu tempo!
Fico imaginando, diante das mudanças tão vertiginosas e radicais que caracterizam nossa época histórica, o que aqueles homens, que viveram períodos de crise e de decadência de uma idade histórica e viram um "novo tempo" começar, sentiram e experimentaram com todas as suas incompreensões, absurdos, desorientações, desmantelamentos...
Quem leu "O mundo de ontem: memórias de um europeu" de S. Zweig, percebe a profunda melancolia de um escritor que viveu numa Viena finissecular que produzira elevados padrões de cultura (Musil, Löwith, Hofmannsthal, Freud, Schönberg, Mahler, Klimt, Wittgenstein, Kraus...), quando se acreditava que a vida do espírito, nos afastaria definitivamente da barbárie. Não demorou muito e a Primeira Grande Guerra mostrou, definitivamente, a ilusão que a Belle Époque vienense (e europeia) depositara no progresso do espírito humano! E a Guerra de 14-18 era a penas o "começo": algo muito pior esperava a "civilização" europeia e, sobretudo, a tradição humanista: o genocídio judeu. Convencido de que suas esperanças culturais tinham fracassado, Zweig e sua esposa Lott tiraram a vida em Petrópolis, em 1941.
Fico também imaginando aqueles homens formados numa sensibilidade medieval (religiosa, hierárquica, sob domínio do medo, num mundo em que um Destino implacável determinava, in limine, a vida individual e coletiva): um mundo constantemente ameaçado pela "condenação", e viram chegar aquele novo tempo que denominamos "Renascimento" e tudo o que se seguiu: antropocentrismo, crítica da autoridade religiosa e política, revoluções (inglesa, americana, francesa), afirmação de liberdades (negativas, reflexivas e políticas) que nunca haviam sido pensadas antes, um modelo de subjetividade solipsista (Descartes), a descoberta de um Mundo Novo com povos e civilizações que não cabiam na imaginação europeia, e uma forma de se relacionar com a Natureza não mais entendida como CRIAÇÃO, mas como OBJETO de conhecimento (ciência) e domínio (técnica). Penso no transtorno provocado por um tal de Gutemberg e sua prensa de tipos móveis- num ambiente de ruptura com a papado -, e num tal de Lutero, seu amigo, atribuindo ao indivíduo a responsabilidade de sua salvação e o direito de interpretar o Sagrado com sua própria consciência- e, no mesmo momento, e pour cause, estimulando as pessoas a cometer o crime de aprenderem a ler e a pensar por si mesmas. Que absurdo!
Penso também no choque provocado pela Ciência e pelo uso da Razão com suas pretensões universais de conhecer a Verdade: imaginem o que se passava na cabeça de uma pessoa que ouviu um tal de Isaak Newton, que levou uma maçansada na cabeça, dizer que aquele "fenômeno" era um caso particular de uma Lei válida para todo o Universo! Imaginem certos "Philosophes" franceses afirmando que o Homem - com maiúscula- era dotado de direitos também "universais" e que todos nasciam iguais em liberdade, dignidade e direito à propriedade, inclusive do próprio corpo. Que absurdo!
Pensem, agora, uma outra época em que o Universal deixou de ter valor em detrimento do particular e identitário: imaginem um lugar em que existe uma Lei Negra, Um Ordenamento Jurídico Quilombola, uma Declaração dos Direitos Particulares LGBT..., formados por tribunais especiais e também constituídos por negros, quilombolas, homoafetivos, trans... Imaginem uma época em que a mentira passou a ter valor político e quanto menos se contar com a inteligência e a razão dos homens, mais sucesso se terá na rápida acumulação de dinheiro e de influência moral. Pensem também numa época em que a figura do SUJEITO (aquele que praticava ações livres e conscientes) foi desmoralizada: ele não passaria de uma invenção de um poder instransparente e difuso, espalhado em instituições como a linguagem. Imaginem uma sociedade dominada por um aparelhinho digital em que toda sua vida, gosto, inclinações, posições políticas, lugares que frequenta, amigos, roupas, sapatos que usa, livros que lê... são do conhecimento de uma entidade impessoal, virtual e invisível, expressa num "algoritmo" (que eu nem sei o que é!
O totalitarismo hitleriano era apenas uma pantomima diante de nosso "totalitarismo digital"). Imagine, pra terminar, uma escola em que os alunos não precisam nem pensar, nem escrever, nem ler, nem aprender, nem conhecer, e que um negocinho chamado Inteligência Artificial pode fazer tudo isso em poucos segundos (aliás ele também redige sentenças judiciais, diagnósticos médicos e decisões militares contra populações indefesas!). Que absurdo!
Camus tinha razão: o absurdo é a condição fundamental da existência humana, condenada a correr atrás da realidade pra tentar compreendê-la com nossas vãs teorias. E eu acho que não sou mais "contemporâneo" de mim mesmo!
Flávio Brayner , professor da UFPE e UFRPE