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Uma coincidência metódica

.Não me surpreende que os judeus possam repetir, com seus "inimigos antissionistas", os mesmíssimos métodos que os nazistas impuseram.

Publicado em 29/10/2024 às 0:00 | Atualizado em 29/10/2024 às 16:18

No dia 2 de Dezembro de 1948, um grupo de 21 intelectuais americanos, liderados por ninguém menos do que Albert Einstein, enviou uma carta à redação do The New York Times (Hannah Arendt e o filósofo Sidney Hook também assinaram) cujo conteúdo, perturbador, vou tentar resumir a seguir "ipsis litteris":

"Entre os fenômenos políticos mais perturbadores de nosso tempo está o surgimento, no recém-criado estado Israel, do Partido da Liberdade (Tnuat Haherut), um partido político parente próximo em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social dos partidos nazifascistas(...)" - liderado por Menachem Begin (depois Primeiro Ministro de Israel) que estava de visita aos Estados Unidos naquele momento! A carta continua: "(...)As declarações públicas do partido de Begin não são, de forma alguma, um guia para seu caráter verdadeiro. Hoje, eles falam de liberdade, democracia e anti-imperialismo, considerando que até há pouco professavam abertamente a doutrina fascista". (...).

(...) "Um exemplo chocante foi o comportamento deles na aldeia de Deir Yassin. Essa aldeia, fora das estradas principais e cercada de terras judias, não havia tomado parte alguma na guerra e havia mesmo expulsado árabes que a quiseram usar como sua base. No dia 9 de Abril, bandos terroristas atacaram essa pacífica aldeia, que não era um objetivo militar na luta, mataram a maioria dos habitantes, 240 homens, mulheres e crianças, e mantiveram alguns deles vivos para desfilarem como cativos pelas ruas de Jerusalém. A maioria da comunidade judaica ficou horrorizada pela ação (...). Mas os terroristas, longe de estarem envergonhados de seu ato, estavam orgulhosos desse massacre, deram-lhe ampla publicidade e convidaram todos os correspondentes estrangeiros presentes no país para ver os corpos amontoados e a destruição total de Deir Yassin".

(...) "Dentro da comunidade judaica eles proclamaram uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial. Como outros partidos fascistas, foram usados para quebrar greves e se apressaram na destruição das associações de livre-comércio. No lugar delas propuseram uniões corporativas no modelo fascista italiano(...).

(...) "As pessoas do Partido da Liberdade não tomaram nenhuma parte nas realizações construtivas da Palestina. Seus tão divulgados empreendimentos de imigração foram insignificantes e se dedicaram principalmente a trazer compatriotas fascistas".

(...) "Esse é o selo inconfundível de um partido fascista, para quem o terrorismo (igualmente contra judeus, árabes e britânicos) e a dissimulação são meios, e um Estado Líder é a meta".

(...) "À luz das considerações precedentes, é imperativo que a verdade sobre o Sr. Begin e seu movimento se torne conhecida neste país. Ainda mais trágico é que a principal liderança do sionismo americano se recusou a fazer campanha contra os esforços de Begin, ou mesmo a expor a seus próprios componentes os perigos para Israel de apoio a Begin".

(...) "Os abaixo assinados usam, então, deste meio de publicidade para apresentar alguns fatos salientes relativos a Begin e seu partido; e para urgir a todos os interessados a não apoiar essa mais recente manifestação do fascismo".

* * *

Acho, leitores desse JC, que não é necessário nenhum exercício mais longo de história comparada para concluir que os métodos atuais do Sr. Benjamin Nethanyahu são apenas repetitivos, iniciados já na origem do estado de Israel, e que prolongou-se na colonização ilegal da Faixa de Gaza, das Colinas do Golan, da Cisjordânia, nos massacres de Sabra e Chatila (1982) e, sinceramente, não me surpreende que os judeus possam repetir, com seus "inimigos antissionistas", os mesmíssimos métodos que os Nazistas lhes impuseram, com a vantagem suplementar do uso de uma tecnologia de vigilância, de reconhecimento e de extermínio que os Nazistas adorariam possuir! Tudo com a cumplicidade cínica das "democracias" ocidentais!

Aliás, assassinar ou sequestrar lideranças em outros países de forma clandestina, ilegal e genocida (para cada liderança do Hamas ou do Hezbollah assassinados, morre um número absurdo de civis inocentes, sobretudo mulheres e crianças, em completo desrespeito aos acordos internacionais!) e, já em 1961 -apenas para lembrar um exemplo de sequestro clandestino, embora "justificável" em função da recusa de certos países latino-americanos em extraditar criminosos nazistas !-, no caso Eichmann, o avião que o transportava, após seu sequestro em Buenos Aires, fez escala no... Recife, onde o esperavam agentes do Mossad disfarçados de "grupo de dança" que se apresentara numa solenidade judaica na cidade! O que provocou o chamado "Incidente Guararapes" (1961) sob o Governo de Cid Sampaio (Cf. Urariano Mota).

O que está acontecendo com a população da Palestina é apenas a repetição coincidente de um método, criado pelos alemães (durante a Segunda Guerra) e aperfeiçoado pelo franceses na Guerra da Argélia. Marx, em sua judaica ironia, achava que a História se repetia duas vezes: a primeira como TRAGÉDIA, a segunda como FARSA! Isso pode até ser válido para a história da França pós-napoleônica. PARA OS PALESTINOS A HISTÓRIA SEMPRE SE REPETE MUITAS VEZES: COMO TRAGÉDIA E GENOCÍDIO. Os Nazistas inventaram a Câmara de Gás; Nethanyahu inventou a Câmara de Gaza: os primeiros tentaram esconder o genocídio até o final da Guerra; o segundo expõe o massacre nas redes sociais!

Assim, qualquer semelhança entre o que está descrito naquela carta com o que está ocorrendo no Líbano e na Faixa de Gaza... não é simples coincidência: é método!

PS. A carta endereçada ao New York Times está publicada em português no livro "CARTAS DA HUMANIDADE. CIVILIZAÇÃO ESCRITA À MÃO" de Márcio Borges. (Geração Editorial. SP, 2014. Pp. 377-379)

Flávio Brayner (UFPE/UFRPE)

 

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