OPINIÃO | Notícia

Literatura e turismo

Cultura e turismo estão imbricados num binômio de várias facetas. Primeiro, porque a cultura é um painel de muitos azulejos.........

Por ROBERTO PEREIRA Publicado em 09/11/2024 às 0:00 | Atualizado em 10/11/2024 às 18:14

...Depois, o viajante, além do fascínio que a natureza suscita, desperta o seu sentimento para a cultura, inclusive como interação com os costumes do lugar visitado, um interesse àqueles que andam os quadrantes do mundo.

Também se viaja através do pensamento. Mais e mais através de textos que conduzem o leitor a se imaginar fora da sua morada, idealizando paisagens, arte e cultura como apetrechos ao cometimento espiritual.

Vem de tempos remotos publicações cujas viagens fantásticas são narradas, por exemplo, por Gulliver, por Marco Polo, e depois, n'Os Lusiadas, por Camões, além de outros poemas épicos, como é o caso de Odisséia, de Homero.

Não há quem, chegando a Portugal, não ligue aquele país a Camões. A Fernando Pessoa e a Eça de Queiroz, para citar somente estes. No Brasil, dentre tantos, podemos mencionar Machado de Assis, Gilberto Freyre e Jorge Amado, para nos restringirmos apenas a esta tríade, quando ainda teríamos um ativo muito grande de ficcionistas, mas também de poetas. No poema Pregão Turístico do Recife, de João Cabral de Melo Neto, pode-se ler numa de suas estrofes: "Na cidade propriamente/ velhos sobrados esguios / apertam ombros calcários / de cada lado de um rio".

O Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Gilberto Freyre, é um passeio pela capital pernambucana. Nesta admirável obra, o leitor vagueia pelas ruas do Recife, quem sabe, à Edson Régis, quando exclamou: "Foi perdido no Recife que me achei." Tem-se assim o que se pode chamar de leitor-turista, porque, pelas páginas desse livro instigante, sentamo-nos, a esmo, nas praças, andamos os bons caminhos do Recife, cujas ruas muitas delas são poéticas, bastando citar a Rua da Amizade, da Saudade, do Sossego, da Aurora, da Harmonia etc.

E ainda, de Gilberto Freyre está o Assombrações do Recife Velho, livro que traz as aparições que pairavam sobre o Recife de antigamente, onde se dizia existirem assombrações no secular Teatro de Santa Isabel e até no Palácio do Campo das Princesas, além das lendas da Perna Cabeluda, do Papa-Figo e a do Boca-de-Ouro - e outros do imaginário popular, livro que ensejou a Secretaria de Turismo do Recife a promover roteiros por esses pontos ligados às assombrações contidas no texto de Freyre.

Quem não faz a interface entre Ilhéus e Jorge Amado? Este grande escritor baiano, nascido em Itabuna, passou grande parte da sua vida em Ilhéus, que foi cenário do livro Gabriela, Cravo e Canela, enfaticamente do romance vivenciado pelos personagens Gabriela e Nacib. Lá existe o Bataclan, antigo cabaré, mas muito frequentado pelos protagonistas do seu livro, cuja proprietária, Antônia Machado, aparece na sua ficção com o nome de "Maria Machadão." Hoje, restaurado, está aberto à visitação de turistas que têm a curiosidade de conhecer os costumes, o luxo, enfim, o glamour da época. Aqui, o turista-leitor, que visita os pontos dos romances e depois vai ler para se identificar com o que viu. O ver e o ler na interação dos que viajam.

Roberto Pereira foi Secretário de Educação e Cultura do Estado e é membro da Academia Brasileira de eventos e turismo.

 

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