O tempo e a poesia
...Chegam as festas, Natal, Ano Novo. E parece que o tempo correu mais do que a capacidade que tivemos de vivê-lo....O que é esse tempo?

Quando lembramos os acontecimentos recentes, a pandemia, tanto tempo em casa, sem ver amigos e familiares, o discurso irracional e embrutecido contra a vacina, as mortes de tantas pessoas queridas, o transcurso de quatro anos de escuridão, o renascimento, e o presidente depois a correr contra o tempo, dando-nos a impressão de que nada fez ainda, é claro, o tempo corre mais do que ele, e ainda se dá ao luxo de ficar doente, Braga Netto na cadeia, uma festa de sábado ao amanhecer, em breve será Bolsonaro, e tudo estampado nos livros de história a serem lidos aos nossos netos e bisnetos, não sei, a ditadura foi excluída, durante aquele terror dos quatro anos, dos livros atuais, é tanta coisa, são tantos acontecimentos, nossa vidinha a atravessá-los por vezes incólume, por vezes virada e revirada de cabeça para baixo, assim como sucedeu com a família de Rubens Paiva, não estranhem, muitos de nós, no passado recente, somos Eunices, ou a memória dela, que já não sabemos ao certo onde estamos, e duvidamos que Trump já tenha voltado. Pelo menos, a manter o tempo seu curso alucinante, vai passar logo.
Mas o que é esse tempo que estamos a perceber tão rápido?
Em interessante artigo publicado no portal G1 de 13/6/24, Alberto Casas González, professor de investigação no Instituto de Física Teórica da Universidade Autônoma de Madri, nos dá a percepção científica, a partir da percepção psicológica, que é a que nos interessa aqui. Segundo ele, a percepção psicológica mais poderosa sobre o tempo é que, ao contrário do espaço, ele flui. Os eventos passados já aconteceram. Eles existiram, mas não existem mais. E os futuros ainda não aconteceram. Somente o presente tem existência real. A verdade é que ainda não conhecemos a natureza do tempo em toda a sua profundidade. E não saberemos até que a Teoria da Relatividade Geral e a Mecânica Quântica, os dois pilares da física moderna, sejam reconciliadas. Por enquanto, podemos aproveitar a ideia de que a passagem do tempo (desejada ou indesejada) é apenas uma ilusão.
É a clássica pergunta de Thomas Mann que, em A Montanha Mágica, lança a grande questão sobre o tempo: pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si?
É extasiante ver que a resposta, mesmo sob a perspectiva científica, propõe que o tempo é uma ilusão. Porque os poetas gostamos de saber que ela, a poesia, tu, poesia, como a apelida Vinícius em sua Elegia quase uma ode, tu desgraçadamente Poesia, tu iluminaste, jovem dançarina, a lâmpada mais triste da memória, e sempre nos deixaste eternamente iludidos. Essa lâmpada da memória traz o tempo em seu bojo, e o desvenda mais que a ciência.
E tem Eliot, em seus Quatro Quartetos: o tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro. E o tempo futuro contido no tempo passado. Se todo tempo é eternamente presente, todo tempo é irredimível.
Ou o tempo redescoberto de Proust, em que as lâminas dos acontecimentos se acomodam umas sobre as outras e, metáfora após metáfora, recompõem o tempo perdido. E o estilo é o universo a deixar passar na alma o tempo que passa.
Tem o tempo escoando em Pessoa, como um rio, ao pé do qual devemos sentar e fitar o seu curso, sossegadamente, para constatar que não estamos de mãos enlaçadas, assim devemos permanecer, pois a vida passa, e passamos como o rio, mais vale saber passar silenciosamente e sem desassossegos grandes.
Tem meu tempo, nosso tempo, em que nos perdemos e nos reencontramos, e que não sabemos explicar. Aqui a flecha ultrapassou a corda, e foi no voo mais do que ela mesma. Em parte alguma se deteve. Rilke já nos adivinhara.
De qualquer forma, deixemos de lado a sensação de final de ano de que temos que resolver tudo, porque o tempo passou voando. A vida é assim. O tempo escoa, em breve seremos memória, e o melhor é amar e se deixar levar. Neste fim de ano, não corra contra o tempo. Como diz Drummond, o último dia do ano não é o último dia do tempo. O último dia do tempo não é o último dia de tudo.
Feliz Natal, leitor. E um Ano Novo repleto de paz.
João Humberto Martorelli, advogado