Gustavo Krause: XIPUTRUMP
Junção das letras está menos para uma linguagem cifrada e muito claramente para simplificar uma forma de governo: triarquia, triunvirato ou uma troica

O que significa o ajuntamento de letras que dá título ao artigo? Uma variação dos hieróglifos que escapou a Jean-François Champollion, o pai da egiptologia? A denominação de um código capaz fortalecer a espionagem entre potências mundiais? Ou, quem sabe, o ponto de partida de um idioma cósmico para facilitar o turismo interplanetário?
É esquisito, mas não é difícil perceber que a junção das letras está menos para uma linguagem cifrada e muito claramente para simplificar uma forma de governo: triarquia, triunvirato ou uma troica exercida por três governantes. A experiência política revela que este formato dificilmente dá certo. É fonte permanente de atritos, crises e tiranicídios.
O Xiputrump não é um arranjo formal de poder: é a soma de poderes reais de nações soberanas, com fortes traços culturais na origem e distintos objetivos estratégicos. Estão identificadas por uma associação eufônica de substantivos próprios da nossa língua-mãe
Xi Jinping (1953) é o atual Secretário-Geral do Partido Comunista da China (2012) e Presidente da República Popular da China (2013).
Vladimir Putin (1952) foi nomeado por Boris Yeltsin, primeiro-ministro em dezembro de 1999, ano em que ocupou a presidência interina da Rússia e, no ano seguinte, venceu as eleições, e assumiu, em definitivo a Presidência, reeleito em 2004, por força da limitação constitucional a dois mandatos consecutivos, voltou ao cargo de primeiro-ministro no governo de Dmitry Medvedev (2008-2012); retornou à presidência numa eleição, sob a suspeita de fraude; reeleito em 2018 e após um referendo, em 2021, sancionou emendas constitucionais que podem estender seu mandato até 2036.
Donald Trump (1946), Presidente dos Estados Unidos (2017-2021), derrotado por Biden na disputa pela reeleição, denunciou fraude, retórica que culminou com o assalto ao Capitólio (06/01/21). Sob diversas acusações em dezenas de processos judiciais, Trump concorreu e venceu, democraticamente, as eleições de 2024. .
Embora sejam diferentes na origem e na formação, as personalidades têm um traço em comum: a ambição desmedida do poder pelo poder. No caso de Xi Jinping, sua infância e adolescência deixaram marcas profundas que o exercício do poder (ou a falta dele) é capaz de privilegiar ou maltratar as pessoas. O expurgo do seu pai do PCC, a interrupção dos seus estudos secundários, o sofrimento causado pela “Revolução Cultural”, o suicídio de uma irmã, a mãe, forçada a delatar publicamente o próprio marido, culminou com a prisão de Xi durante sete anos em um campo de trabalho.
As adversidades moldam uma visão de mundo em que a capacidade de adaptação e a paciente resistência inspiram a ação determinada e, sobretudo, pragmática. No ápice da carreira política, o Presidente Xi incorporou a grandeza estratégica com a ideia do “sonho chinês” combinando a centralização do poder, arraigado nacionalismo, de forma calculista difunde um sutil culto à personalidade e enfrenta os opositores com repressão e rigorosa censura. Seguindo a fórmula de Deng Xiaoping, Xi maneja a incrível engenharia social que funciona com a ditatura do PC chinês no comando de uma economia capitalista.
“Maria, como seu marido, tinha uma educação limitada. Faltavam dez dias para ela completar 41 anos quando Vladimir nasceu. Depois de tanta perda e sofrimento, ela tratou o filho como o milagre que parecia ser”. Esta é a descrição feita por Steven Lee Myers no livro “O Novo Czar – Ascensão e Reinado de Vladimir Putin” (Santana de Parnaíba [SP]: Amarilys, 2018). Mais adiante registra: “As artes marciais transformaram a vida dele, dando-lhe os meios de se afirmar contra meninos maiores e mais durões”.
De fato, a Segunda Guerra Mundial teve um efeito devastador sobre a família Putin (dois irmãos mortos, o pai com sequelas nas pernas e a penúria). O futuro não era nada animador para o filho temporão de baixa estatura e uma acentuada magreza.
No entanto, mais do que o diploma de direito, a faixa preta do judô e a experiência de ex-agente da KGB foram fatores para superação dos limites físicos e na formação de um líder frio, calculista, pragmático, inconformado com a tragédia geopolítica que foi a queda da União Soviética. Circunstância histórica que nutre seu fervor nacionalista e a ambição imperialista na restauração da “Mãe Rússia”. O autoritarismo e o poder centralizados fazem de Putin um chefe implacável, utilizando, segundo relatos, métodos cruéis na eliminação dos inimigos.
Ao lado de dois ditadores, compõe o cenário internacional, a improvável emergência do outsider, visceralmente populista e autoritário, Donald Trump que foi ratificada por uma livre e soberana decisão democrática dos eleitores americanos. Nos primeiros dias de mandato, ratificou o mandonismo cevado no berço de ouro em que nasceu e o estilo megalômano que enxerga o mundo, na precisa definição de Elio Gaspari, com a “visão expansionista e, ao mesmo tempo, isolacionista”. As bravatas midiáticas do candidato transformam-se em escolhas do Presidente da maior potência mundial. As escolhas têm consequências. O horror ao multilateralismo inspira Trump a detonar com os mísseis da guerra tarifária a ordem do livre comércio. Por enquanto. arma é uma caneta. No delírio de uma monarquia absoluta, ele, o Rei, é o próprio dilúvio.
Porém, o jargão do coronelismo brasileiro o “quero, mando e posso” de Trump não se aplica à entidade Xiputrump, potências nucleares que nada têm de amigáveis, senão, atraentes e gigantescos interesses, assim, traduzidos em números, segundo relatório do FMI, 2023: PIB mundial de US$ 105 trilhões, US$ 48 trilhões na soma dos PIBs dos EUA (US$ 29,1 trilhões), China (US$ 19 trilhões), Rússia (US$ 2,1 trilhões) o que representa 46% do PIB mundial.
Por enquanto, as incertezas, a beligerância e o risco do caos são um jogo de perde, perde. Confirmado, vale revisitar a regra de ouro da estupidez: “É uma pessoa que provoca perdas para outra pessoa ou um grupo de pessoas enquanto não obtém nenhum ganho e ainda pode incorrer em perdas” (As Leis Fundamentais da Estupidez Humana Carlo M. Cipolla - SP: Planeta, 2020).
Gustavo Krause é ex-governador de Pernambuco