FACE SHIELDS

No Recife, voluntários produzem protetores faciais para profissionais de saúde que trabalham no combate ao coronavírus

A iniciativa que nasceu no grupo Hardware PE articula uma ação para produzir equipamentos de proteção individual para todos os profissionais que atuam nos hospitais do Recife

Carolina Fonsêca
Carolina Fonsêca
Publicado em 25/03/2020 às 20:38
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Os protótipos do escudo facial foram criados utilizando impressoras 3D - FOTO: HARDWARE/PE
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A pandemia de coronavírus fez máscaras cirúrgicas descartáveis se tornarem itens raros no mundo. Consequentemente, a proteção de profissionais de saúde que estão na linha de frente dessa batalha ficou comprometida, se tornando mais um dos muitos problemas que o mundo enfrenta diante desse inimigo invisível, que é letal e se espalha com grande facilidade. As soluções, porém, começam a surgir. A partir da união de forças de profissionais de saúde e profissionais de tecnologia há pouco menos de uma semana, um equipamento de proteção individual (EPI) para médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas que têm contato com casos suspeitos ou confirmados da covid-19 começou a ser produzido no Recife.

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Trata-se do face shield, uma espécie de máscara, ou na tradução literal, um escudo facial. O equipamento protege completamente o rosto, evitando que gotículas de saliva de pacientes contaminados tenham contato com áreas expostas do rosto e até mesmo com as máscaras descartáveis. O face shield pode ser higienizado e reutilizado, se tornando um aliado ainda mais eficaz em tempos de escassez de material.

O primeiro passo para a produção deste EPI foi a união de forças. O fisioterapeuta do Hospital Getúlio Vargas e professor da Universidade Católica de Pernambuco, Nelson Moraes, foi colocado em contato com o grupo Hardware PE, formado por engenheiros, empresários, estudantes e pesquisadores da área de tecnologia, que trabalham com a criação de materiais utilizando impressoras 3D.

“Eu vinha conversando com um amigo sobre soluções e formas de ajudar e, domingo (22), ele me colocou em um grupo do WhatsApp com vários engenheiros e empresários que estavam se disponibilizando para ajudar os hospitais. Ao entrar no grupo, me apresentei, coloquei as necessidades que tínhamos, principalmente as de EPI, e a primeira ideia que eles compraram foi essa do protetor facial”, contou Nelson Moraes, em entrevista por telefone ao Jornal do Commercio.

Normalmente, os profissionais de saúde utilizam máscaras descartáveis, óculos e toucas, além de luvas. “Mas parte do rosto fica descoberta, como a testa, parte da bochecha, embaixo dos olhos e essas regiões também podem ser contaminadas”, disse. Nelson ainda destacou que o face shield pode aumentar a durabilidade das máscaras descartáveis.

“Tem também outra vantagem. A gente está com dificuldade, principalmente, para comprar máscaras com os nossos fornecedores. Boa parte deles é de fora do país e este é um problema mundial, então o material ficou escasso no mercado. Não tem. A gente utilizando o protetor facial - que não deve ser utilizado sozinho, mas associado aos outros EPIs - a máscara, por exemplo, também fica protegida e a durabilidade dela aumenta. Ou seja, em situação de escassez, além de proteger o profissional, reduz a necessidade de troca de máscaras”, detalhou.

Até o momento, apenas 12 equipamentos destes foram entregues a profissionais do Hospital Getúlio Vargas (HGV). Para atender todo o quadro de funcionários do HGV, por exemplo, que necessitam desse EPI são necessários 540. Por enquanto, a produção é lenta, mas o grupo já se articula para conseguir produzir em escala industrial e chegar também a outros hospitais da capital pernambucana. “Estamos antenados na produção para pegar mais. Quem vai lidar com paciente suspeito ou confirmado da covid-19 é quem vai usar”, disse.

Colocando a mão na massa

“Eles compraram a ideia de uma maneira generosa e com solidariedade, que é algo importantíssimo”, destacou Nelson sobre a recepção do grupo Hardware PE. Victor Cabral, aluno do último período do curso de Controle e Automação da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco, é um dos voluntários que está desenvolvendo os equipamentos.

“Eu consegui fazer cerca de 20 (protetores) - a média é de 15 a 20 por dia. Ontem (terça-feira, 24), o grupo conseguiu entregar 12 peças ao Hospital Getúlio Vargas para teste e validação. Acredito que hoje (quarta-feira, 25) já tem mais, pelo menos, 30 para entregarmos”, disse.

Para construir os face shields, os voluntários utilizam impressoras 3D, folhas de acetato e elástico. O protetor é composto por três partes: uma sustentação impressa na impressora 3D, a parte que protege o rosto, que é feita com as folhas de acetato e o elástico que fixa o EPI na cabeça. A parte impressa é feita de um material chamado ABS, um plástico derivado do petróleo, bastante utilizado não só em equipamentos do dia a dia, mas largamente utilizado por quem trabalha com impressões 3D. “É um plástico resistente e que tem um custo-benefício bacana”, pontuou Victor.

A produção dos face shields utilizando as impressoras 3D, no entanto, tem a função de criar e testar o protótipo, além de atender a demanda emergencial. Mas o grupo se articula para a criação de um molde e a produção dos escudos em escala industrial.

Segundo Victor Cabral, há cerca de 20 pessoas do grupo colocando a mão na massa - imprimindo, montando, entregando e gerenciando. “O desafio está sendo produzir em uma velocidade maior. A impressora 3D é uma ferramenta fantástica para protótipos, mas em larga escala acaba sendo um gargalo. É por isso que temos outras pessoas envolvidas na fabricação deste mesmo EPI por outro processo de fabricação, utilizando um molde como se fosse forma, que reduz de horas para a minutos a produção de um escudo”, contou.

Expandindo a iniciativa

Fazer os escudos faciais chegarem a todos os profissionais de saúde de Pernambuco é um desafio dos grandes. Mas os primeiros passos já foram dados e é possível que em breve mais este equipamento de proteção individual esteja somando forças nessa linha de frente.

A partir dos protótipos criados pelos voluntários do Hardware PE, máquinas do Parque Tecnológico de Eletroeletrônicos e Tecnologias Associadas de Pernambuco (Parqtel), uma iniciativa do Governo de Pernambuco, ligado à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, localizado na Várzea, na Zona Oeste do Recife, vão produzir os moldes para que os equipamentos sejam feitos em larga escala.

“O projeto foi feito por um ferramenteiro do Parqtel e a TRON (uma empresa pernambucana de soluções tecnológicas) está doando os materiais para viabilizar essa produção”, contou Carmelo Bastos Filho, professor da Universidade de Pernambuco e cientista-chefe do Parqtel.

“A gente está articulando com uma rede do bem. Os makers estão fazendo uma produção para atender a parte emergencial. Estamos tentando colocar a produção para escala industrial, a expectativa é conseguir, daqui umas duas semanas, distribuir para os hospitais. As coisas estão dando certo”, disse.

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O que é coronavírus?

Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus foi descoberto em 31/12/19 após casos registrados na China.Os primeiros coronavírus humanos foram isolados pela primeira vez em 1937. No entanto, foi em 1965 que o vírus foi descrito como coronavírus, em decorrência do perfil na microscopia, parecendo uma coroa.

A maioria das pessoas se infecta com os coronavírus comuns ao longo da vida, sendo as crianças pequenas mais propensas a se infectarem com o tipo mais comum do vírus. Os coronavírus mais comuns que infectam humanos são o alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43, HKU1.

Como prevenir o coronavírus?

O Ministério da Saúde orienta cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o coronavírus. Entre as medidas estão:

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabonete por pelo menos 20 segundos, respeitando os 5 momentos de higienização. Se não houver água e sabonete, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool.
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas.
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes.
  • Ficar em casa quando estiver doente.
  • Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo.
  • Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com freqüência.
  • Profissionais de saúde devem utilizar medidas de precaução padrão, de contato e de gotículas (mascára cirúrgica, luvas, avental não estéril e óculos de proteção).

Para a realização de procedimentos que gerem aerossolização de secreções respiratórias como intubação, aspiração de vias aéreas ou indução de escarro, deverá ser utilizado precaução por aerossóis, com uso de máscara N95.

Confira o passo a passo de como lavar as mãos de forma adequada

 

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A parte de sustentação do escudo facial é impressa em impressoras 3D - FOTO:HARDWARE/PE
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Com os protetores faciais, as máscaras descartáveis, por exemplo, passam a ter mais durabilidade - FOTO:CORTESIA
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Com os protetores faciais, as máscaras descartáveis, por exemplo, passam a ter mais durabilidade - FOTO:HARDWARE/PE
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O grupo Hardware PE também está articulando, junto com iniciativas do Governo de Pernambuco, uma maneira de produzir o EPI em larga escala - FOTO:HARDWARE/PE
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Utilizando este EPI, os profissionais da área de saúde ficam ainda mais protegidos contra o coronavírus - FOTO:HARDWARE/PE
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O face shield é um equipamento de proteção individual para os profissionais da área de saúde - FOTO:HARDWARE/PE
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Boa notícia - coronavírus - FOTO:JC
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