CORONAVÍRUS

Sem assistência, morador das favelas e periferias é quem mais vai sofrer com pandemia

A pobreza extrema vigia a chegada da covid-19 sem direito a isolamento social. É urgente fazer o dinheiro prometido pelo governo chegar no bolso de quem precisa matar a fome hoje

Ciara Carvalho
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Ciara Carvalho
Publicado em 29/03/2020 às 8:28 | Atualizado em 29/03/2020 às 10:06
ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Maxswel Augusto de Melo, Josinete Barbosa da Silva, Matheus e Miguel. Associação dos moradores de Três Carneiros, no Ibura estão informando a comunidade sobre os cuidados na prevenção contra o novo coronavíris, Covid-19, com sistema de som em motocicleta e faixa informativa no terminal de ônibus.Recife. - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

No fim da manhã da última quinta-feira (26), na casa de paredes sem reboco de Josinete Barbosa da Silva, 24 anos, não havia água na torneira, álcool em gel, não havia sequer água sanitária. Só uma barra de sabão amarelo. Nas panelas, macarrão e salsicha. O feijão tinha acabado. Josinete, o marido desempregado e os dois filhos pequenos moram em Três Carneiros, no Ibura, periferia da Zona Sul do Recife. Lá, a pobreza extrema espreita a chegada do coronavírus sem isolamento social, sem equipamentos de segurança, com fome e medo de morrer. Não só lá. Sem poder parar, as favelas e comunidades pobres do País são a face mais exposta e vulnerável da pandemia. Quase 14 milhões de pessoas que, na luta necessária pela sobrevivência, podem estar se contaminando silenciosamente. Uma bomba-relógio prestes a explodir.

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No mesmo dia em que a reportagem esteve no Ibura veio de Brasília, finalmente, a primeira resposta concreta para essa legião de milhões de desassistidos. Diante da lentidão do governo federal, a Câmara dos Deputados aprovou, no início da noite da quinta-feira, uma renda de R$ 600 para os trabalhadores informais. A ajuda se estende aos que já recebem o Bolsa Família (como Josinete), autônomos, desempregados (como Maxuell, o marido de Josinete) e microempreendedores individuais. A medida ainda depende de aprovação no Senado (o que está previsto para ocorrer amanhã) e o que é mais desafiador: precisa ter uma logística rápida e eficiente de execução na ponta. É urgente fazer esse dinheiro chegar ao bolso de quem precisa matar a fome hoje. Não daqui a um mês, quando a pandemia já estiver no auge de sua curva devastadora, como projeta o Ministério da Saúde.

Sem poder esperar, a periferia precisou se organizar por conta própria para reduzir o impacto do vírus em suas comunidades. Numa operação de guerra, a Central Única das Favelas (Cufa), movimento nascido no Rio de Janeiro há 20 anos, lançou a campanha Favela contra o Vírus, que está mobilizando cerca de 200 comunidades pobres em cada um dos Estados brasileiros. A ofensiva produziu uma lista de reivindicações, com 14 pontos, que está sendo negociada com o governo federal e, de forma mais direta, com os governos estaduais. Pernambuco tem urgência nesse tema. No Estado, são mais de 240 mil famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza que não recebem o Bolsa Família.

No cenário nacional, o Estado tem um dos maiores percentuais de moradores vivendo em favelas e periferias. Levantamento feito pelo Data Favela, um instituto de pesquisa do Rio de Janeiro voltado para traçar o perfil de comunidades carentes no Brasil, coloca Pernambuco como o quinto Estado da Federação com o maior contingente proporcional de pessoas vivendo nesses territórios. Segundo o levantamento, 10% da população de Pernambuco moram nessas áreas. O Estado fica atrás apenas do Pará (17%), Amapá (16%), Rio de Janeiro (13%) e Amazonas (11%).

A pesquisa mostra que quase metade dos moradores dessas comunidades no Brasil é autônoma. Só 19% têm carteira assinada. Ou seja, é na informalidade que essas pessoas buscam o sustento de suas famílias. “Por mais que isso soe alarmista, esse quadro pode indicar uma situação de convulsão social num futuro próximo”, alerta Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, um dos idealizadores do Data Favela. O sociólogo econômico Sidartha Sória e Silva, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, reforça a tese. “A anatomia da desigualdade brasileira exige um plano social específico para os extratos sociais mais desfavorecidos. Sem a reposta econômica, o enfrentamento epidemiológico fica extremamente limitado em seus efeitos nas periferias do País.”

MOBILIZAÇÃO

Enquanto o dinheiro não chega, associações de moradores estão à frente de campanhas de conscientização, usando rádios comunitárias, carros e motos de som, faixa e visitas domiciliares. Uma das articuladoras desse movimento, Anna Karla Pereira, da Frente Favela Brasil, diz que a mobilização tem sido fundamental para alertar as pessoas sobre os riscos da doença. “Estamos apoiando ações no Ibura, no Coque, na Comunidade Caranguejo Tabaiares. O objetivo é levar informação para que as pessoas possam se proteger da contaminação. O movimento das ruas e do comércio nesses locais ainda é muito intenso, contribuindo para a proliferação do vírus.”

Coordenadora da Central Única das Favelas em Pernambuco, Altamiza Melo diz que as reivindicações do movimento aqui no Estado estão sendo negociadas com a Secretaria de Políticas de Prevenção à Violência e às Drogas, além da Secretaria de Assistência Social. “Nossa estratégia é usar os jovens nessa mobilização. Eles têm um poder de convencimento muito grande junto aos mais velhos, que são o grupo de risco do covid-19”, afirmou. Na quinta-feira, o governo de Pernambuco também anunciou a liberação de R$ 1,4 milhão para atender a população mais vulnerável do Estado, com foco principal nos moradores de rua.

Sobre a pauta negociada pela Cufa, o secretário de Políticas de Prevenção à Violência e às Drogas, Cloves Benevides, explicou que a viabilidade técnica e financeira das propostas precisa ser negociada com as demais secretarias, como a da Saúde e a de Desenvolvimento Econômico. “Reconhecemos a legitimidade de todas as reivindicações. Estamos construindo essas soluções, em sintonia também com as medidas já anunciadas pelo governo federal”, afirmou.

Em meio ao turbilhão de anúncios e reuniões oficiais, o que, de fato, acalmou o coração de Josinete, na tarde da última sexta-feira, foi a cesta básica, lanche para as crianças e um kit de produtos de limpeza que ela recebeu da Prefeitura do Recife, na porta da escola onde os filhos estudam. O sentimento de urgência estava expresso na declaração da jovem mãe. “Para quem tem duas crianças dentro de casa, não tem alegria maior do que saber que vai ter comida na mesa.”

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O que é coronavírus?

Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus foi descoberto em 31/12/19 após casos registrados na China.Os primeiros coronavírus humanos foram isolados pela primeira vez em 1937. No entanto, foi em 1965 que o vírus foi descrito como coronavírus, em decorrência do perfil na microscopia, parecendo uma coroa.

A maioria das pessoas se infecta com os coronavírus comuns ao longo da vida, sendo as crianças pequenas mais propensas a se infectarem com o tipo mais comum do vírus. Os coronavírus mais comuns que infectam humanos são o alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43, HKU1.

Como prevenir o coronavírus?

O Ministério da Saúde orienta cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o coronavírus. Entre as medidas estão:

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabonete por pelo menos 20 segundos, respeitando os 5 momentos de higienização. Se não houver água e sabonete, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool.
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas.
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes.
  • Ficar em casa quando estiver doente.
  • Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo.
  • Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com freqüência.
  • Profissionais de saúde devem utilizar medidas de precaução padrão, de contato e de gotículas (mascára cirúrgica, luvas, avental não estéril e óculos de proteção).

Para a realização de procedimentos que gerem aerossolização de secreções respiratórias como intubação, aspiração de vias aéreas ou indução de escarro, deverá ser utilizado precaução por aerossóis, com uso de máscara N95.

Confira o passo a passo de como lavar as mãos de forma adequada

 

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