ENTREVISTA

"Vai ser a devastação de uma raça chamada favela", alerta Celso Athayde, fundador da Cufa, sobre coronavírus

Desde a chegada do coronavírus no Brasil, a fala de Celso Athayde bate numa só tecla: a única forma de evitar a convulsão social é levar renda para as pessoas. Não apenas cestas básicas

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 29/03/2020 às 9:13
Divulgação
Celso Athayde, fundador da Central Única de Favelas (Cufa) - FOTO: Divulgação
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JORNAL DO COMMERCIO – Há uma semana, a Cufa lançou um movimento nacional chamado Favela contra o vírus. Qual o foco principal dessa ação?

CELSO ATHAYDE – Neste momento, a gente está trocando o pneu do carro com o carro pegando fogo. Juntamos uma média de 200 líderes de favelas por Estado. São de 4 a 5 mil favelas representadas. E tem muitas empresas querendo ajudar. Acabei de fechar hoje 10 toneladas de carne de boi para uma favela aqui do Rio de Janeiro. Eles queriam fazer com Estado e prefeituras, mas a burocracia não deixa. As pessoas não vão esperar. Se a gente quiser evitar uma convulsão, tem que atacar o problema hoje.

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JC – Como fazer isso?

ATHAYDE – Só tem duas opções: correr ou morrer afogado. A favela não tem para onde correr. Não tem como fazer quarentena. O caixa do supermercado, o entregador de pizza, o vendedor da farmácia são todos favelados. É gente que não pode parar, mas que ninguém vê. É a base da pirâmide que está em todos os serviços essenciais, inclusive as enfermeiras. Se a base da pirâmide for fazer quarentena, o País para. A favela está se contaminando. E tem que escolher entre morrer de fome ou pegar o coronavírus. Só há uma forma de evitar a convulsão social. Levar renda para as pessoas. Não apenas cestas básicas. Mas colocar o dinheiro na mão do morador para que ele faça o comércio da favela girar.

JC – Quais as consequências da demora do governo federal de apresentar respostas concretas?

ATHAYDE – Não há opção. Ou faz ou não faz. E, se não fizer, podemos chegar a um nível que não vai ter como voltar. A gente nunca viveu isso. Se a gente chegar a uma convulsão, é difícil falar isso, mas as pessoas não vão morrer de sede do lado de uma caixa-d’água porque ela tem dono.

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JC – Numa situação extrema, os saques podem ocorrer?

ATHAYDE – Veja, você não vai convencer ninguém a ficar do lado de uma caixa-d’água e deixar os filhos morrerem de sede. E aí você entra numa desordem. A favela pode estar com fome, mas você pede para um vizinho, um parente, faz bico, vende um picolé, se vira. Só que hoje não tem como se virar. O teu vizinho não tem dinheiro, porque a família quebrou, o teu patrão está quebrado e você não pode circular pela cidade para não se contaminar. Então, não tem alternativa. É uma situação (os saques) que vai acontecer muito em breve. O governo não tem que fazer muita conta. A pior crise que pode existir no mundo é a crise de perspectiva. A favela não quer desordem, porque ela sabe que é ela quem vai tomar tiro de borracha. Mas se ela perde a capacidade de sonhar, porque não tem mais nada, vai fazer o quê?

JC – E quanto à parte epidemiológica, o que vai acontecer se o vírus chegar em escala na favela?

ATHAYDE – É preciso ter dinheiro até para comprar remédio, comprar água, cuidar dos velhos. No mundo capitalista, quem não tem dinheiro não é ninguém. Em relação à doença, vai ser uma devastação. Ela vai devastar os territórios. As pessoas não fizeram estoque de comida para dois, três meses. Muitas dessas pessoas já têm tuberculose. É natural que sejam diabéticas, até pelo tipo de comida que elas comem. E não há um espaço físico adequado. As casas não são arejadas, não há esgoto nem água encanada. Ou seja, aquele ambiente é um ambiente propício para todo tipo de desgraça. Esse vírus vem para potencializar o que a gente já está vendo, piorado pelo desemprego e a baixa na economia. Vai ser a devastação de uma raça chamada favela.

JC – Como você avalia a postura do presidente Jair Bolsonaro de criticar o isolamento social e relativizar os efeitos nocivos do vírus? Qual o perigo dessa fala, principalmente para o morador da favela?

ATHAYDE – O pronunciamento dele (na TV, na última terça-feira) foi infeliz. Não acho, sinceramente, que ele acredite no que diz. Ele está vendo que o Brasil economicamente segue para um caminho muito tenso e a única maneira dele se justificar, lá na frente, é dizer que o País quebrou por conta da irresponsabilidade de outras pessoas. Está muito mais preocupado em transferir a responsabilidade das consequências desse vírus do que ser uma voz de liderança. O que o País está precisando é alguém que lidere. O silêncio dele, nesse momento, já seria uma tragédia. Mas, diante do que ele fala, o silêncio vira uma tragédia menor.

JC – A maior fatura de ter um País tão desigual será paga agora com essa pandemia?

ATHAYDE – O País sempre foi desigual, a tendência é que continue sendo desigual e, nesse momento, a desigualdade está até no fato de que uma parte da sociedade está em quarentena e os menos favorecidos continuam se autocontaminando, porque precisam sobreviver. O próximo momento é que alguém que contrai o vírus pode ter uma possibilidade mais razoável de tratamento e quem contrair o vírus nesses territórios vai ficar dependendo de hospital comunitário. No caso do Rio de Janeiro, não estão sequer sendo feitos testes, porque não há equipamentos. Não há dinheiro para fazer testes. Há uma tendência dessa desigualdade ficar ainda mais violenta. No fim desse processo, a gente vai ter a informação precisa de quem foi que sofreu as maiores consequências, quem morreu mais.

JC – No pós-pandemia pode surgir uma sociedade mais solidária?

ATHAYDE – Eu tenho alguma esperança quando vejo todos os empresários querendo ajudar a favela de forma contundente. Isso me emociona. Mas é uma pena que eles nunca tenham se manifestado desse jeito. Então, fica sempre uma dúvida se eles querem salvar a pele deles ou se querem salvar a pele da favela. Não importa se é o medo da tragédia que vai nos sacudir. O fato é que, no pós-corona, a sociedade precisa repensar como é que a gente vai democratizar o acesso às oportunidades e o direto à felicidade.

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O que é coronavírus?

Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus foi descoberto em 31/12/19 após casos registrados na China.Os primeiros coronavírus humanos foram isolados pela primeira vez em 1937. No entanto, foi em 1965 que o vírus foi descrito como coronavírus, em decorrência do perfil na microscopia, parecendo uma coroa.

A maioria das pessoas se infecta com os coronavírus comuns ao longo da vida, sendo as crianças pequenas mais propensas a se infectarem com o tipo mais comum do vírus. Os coronavírus mais comuns que infectam humanos são o alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43, HKU1.

Como prevenir o coronavírus?

O Ministério da Saúde orienta cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o coronavírus. Entre as medidas estão:

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabonete por pelo menos 20 segundos, respeitando os 5 momentos de higienização. Se não houver água e sabonete, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool.
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas.
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes.
  • Ficar em casa quando estiver doente.
  • Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo.
  • Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com freqüência.
  • Profissionais de saúde devem utilizar medidas de precaução padrão, de contato e de gotículas (mascára cirúrgica, luvas, avental não estéril e óculos de proteção).

Para a realização de procedimentos que gerem aerossolização de secreções respiratórias como intubação, aspiração de vias aéreas ou indução de escarro, deverá ser utilizado precaução por aerossóis, com uso de máscara N95.

Confira o passo a passo de como lavar as mãos de forma adequada

 

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