LUCAS LUZ

"Não vamos investigar com base em especulações", diz delegado do caso de adolescente morto em Jaboatão

Delegado Marconi Lustosa afirma que mais informações só podem ser fornecidas ao final das investigações e que avaliará a situação de acordo com o que consta nos autos do processo

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 23/10/2020 às 9:39
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CORTESIA DA FAMÍLIA
Lucas Luz, adolescente de 17 anos morto no dia 17 de outubro durante abordagem da Polícia Militar - FOTO: CORTESIA DA FAMÍLIA
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No dia 17 de outubro, Lucas Luz Marques da Rocha, 17, foi baleado e morto no Alto da Colina, em Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes, durante abordagem da Polícia Militar. As versões da corporação e da família sobre o caso divergem. Enquanto a polícia diz que o adolescente trocou tiros com os agentes, pessoas próximas ao estudante afirmam que ele nunca esteve envolvido com o crime, tampouco portava arma. O delegado responsável pelo caso, Marconi Lustosa, da 13ª Delegacia de Homicídios, afirmou à reportagem do JC, no entanto, que a equipe não vai "investigar com base em especulações".

"As investigações vão caminhar, estamos em diligência. A gente não vai investigar com base em especulações, vamos levar em consideração [outras versões] para saber se isso procede ou não, mas a gente precisa avaliar a situação de acordo com aquilo que consta nos autos. Por enquanto, o que consta é que houve intervenção policial; o indivíduo foi abordado, reagiu e com ele foram apreendidas drogas, armas e munição deflagradas", afirmou, por telefone.

Por nota, a Polícia Militar de Pernambuco havia divulgado que Lucas "carregava uma sacola com 53 pedras de crack e 117 bigs de maconha, além de um revólver calibre 38, contendo três munições pinadas, uma deflagrada e duas intactas". Segundo o delegado, a apreensão consta nos autos do processo, que são o conjunto das peças de um processo judicial.

"Esse é um caso novo, que chegou para mim agora. O que eu tenho é o que está documentado nos autos e tenho consciência da repercussão que tem acontecido. Essas reportagens que eu vi veiculam um conteúdo que não está retratado nos autos. Neles constam uma apreensão de grande quantidade de droga, de uma arma de fogo com munições deflagradas, uma equipe policial que prestou depoimento e o registro de socorro da vítima", disse Lustosa.

Além disso, junto a Lucas, segundo a PM, estavam outras quatro pessoas. "Havia cerca de cinco indivíduos portando armas e praticando tráfico de entorpecentes. Ao chegar no endereço, o efetivo visualizou aproximadamente cinco pessoas em atitude suspeita que, de imediato, com exceção de um, empreenderam fuga", informou. Duas dessas foram, em seguida, capturadas, ouvidas e liberadas na DHPP.

O delegado comentou o fato. "Inclusive, eu vi uma informação de que as outras pessoas que tinham sido apreendidas pela polícia não foram ouvidas, e isso não procede. Elas foram ouvidas no dia do fato no DHPP, prestaram depoimento. Tem muita informação que não corresponde à realidade."

A família aponta que o tiro disparado contra Lucas foi de fuzil, mas a polícia não confirma a versão. "Nos autos, não há essa informação (de que foi tiro de fuzil). Essa informação eu vi agora em uma matéria jornalística. Ela depende de uma prova técnica que é feita pelo Instituto de Criminalística, o que a gente ainda não tem", disse o delegado.

Há, também, mais uma incoerência entre a posição oficial da Polícia Militar e a da família. A causa da morte na certidão de óbito diz "tronco penetrantes do tronco decorrentes, da ação de instrumento perfuro contundente”, instrumento tipicamente caracterizado por projéteis das armas de fogo, segundo o Canal de Perícia do Brasil. Já a nota da PM afirmou que a vítima foi atingida no glúteo.

REPRODUÇÃO
Certidão de Óbito de Lucas Luz - REPRODUÇÃO

"O laudo é que vai dizer onde foi essa lesão, como foi produzida, qual foi o meio, a extensão e exatamente o que causou o óbito. Eu que estou à frente do caso não tenho essa informação. Eu não estava de plantão no dia e essa prova ainda não chegou nos autos. Essas informações preliminares estão todas soltas e ninguém pode falar sobre com segurança ainda", expôs o delegado.

Por fim, o delegado Marconi Lustosa afirmou que mais informações só podem ser fornecidas ao final do procedimento policial, que tem o prazo de 30 dias desde sua instalação. A Corregedoria Geral da Secretaria de Defesa Social (SDS) também abriu uma Investigação Preliminar (IP) para apurar as circunstâncias da morte do adolescente.

Entenda o caso

No dia 17 de outubro, último sábado, o estudante Lucas Luz Marques da Rocha saiu da sua casa, no Alto da Colina, em Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife, por volta das 18h40. Ao chegar na rua da tia dele, na mesma comunidade, o adolescente de 17 anos foi abordado e alvejado com um tiro disparado por um policial militar, enquanto outros dois rapazes foram detidos por suspeita de envolvimento com tráfico de drogas. A corporação alega que ele estaria armado e que portava entorpecentes. Já a Secretaria de Defesa Social (SDS) informou que as informações são de que o jovem teria vindo a óbito após bater a cabeça no chão, durante fuga. Na manhã de terça-feira (20), familiares denunciaram violência na ação em protesto na BR-232 e negaram qualquer envolvimento do menor com crimes.

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Certidão de Óbito de Lucas Luz - FOTO:REPRODUÇÃO

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