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INDICADORES SOCIAIS Dados do IBGE mostram que população abaixo da linha de extrema pobreza avançou em Pernambuco e no Recife em 2019

Maria Lígia Barros
Maria Lígia Barros
Publicado em 14/11/2020 às 2:00
ARTES JC
JC-CID1114_DESIGUALDADE_impresso_Prancheta 1 - FOTO: ARTES JC
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No pé da ponte do Pina, que leva a um dos bairros mais luxuosos da Zona Sul do Recife, palafitas se amontoam precariamente sobre o Rio Capibaribe. Os corredores sinuosos de tábua entre uma moradia e outra levam à casa onde Leidiane da Silva, 25 anos, vive com o marido e duas filhas. Com uma recém-nascida no braço, ela mostra o interior da habitação que é feita de tábuas de madeira e papelão: "A gente não tem água, vive só pela graça de Deus. Como a maioria não tem banheiro, o esgoto é a maré", descreve. A situação dessa e de 200 famílias da comunidade contrasta com arranha-céus de luxo na paisagem e compõe o quadro de concentração de renda da cidade que era a mais desigual do País em 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A Síntese de Indicadores Sociais 2020 (SIS), divulgada quinta-feira (12) com os números do ano passado, levou em conta o índice de Gini - considerado referência para se aferir desigualdades e concentração de renda. O Recife marcou 0,612, no primeiro do ranking entre as capitais - posição que não ocupava desde 2016. Em 2018, o parâmetro era de 0,605. Já Pernambuco saiu de 0,534 para 0,573, sendo o terceiro estado com maior concentração de renda do País, atrás de Sergipe (0,580) e Roraima (0,576). A média brasileira é de 0,543.

Os dados também mostram que o contingente vivendo abaixo da linha da extrema pobreza avançou em Pernambuco e no Recife em 2019. No Estado, mais de 1,2 milhão de pessoas, ou 13% da população, viviam com renda mensal domiciliar per capita inferior a R$ 151 (US$ 1,9 por dia) - critério adotado pelo Banco Mundial para identificar a condição de extrema pobreza. A capital concentra cerca de 115 mil pessoas, ou 7% da população, nesta situação. No Brasil, a taxa é de 6,5%.

Leidiane faz parte da estatística. Na época, a renda que era dividida para toda família somava cerca de R$ 500 por mês. "Dá para comprar o alimento. Sobreviver. Hoje posso botar a carne no fogo, mas amanhã eu asso ovo", conta. Além de receber R$ 171 pelo Bolsa Família, ela fazia bico coletando material reciclável e catando sururu, mas precisou parar para cuidar da nova filha. Nos últimos meses, o casal tem contado com o auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal.

Moradora da comunidade há 10 anos, Maria José de Assis, 30 anos, ergueu uma casa com o valor do auxílio. O imóvel tem sala, banheiro, cozinha e quarto, onde dormem ela, o marido e os três filhos. O casal, que não é contemplado com outros benefícios sociais e costumava ganhar de R$ 500 a R$ 600 com a pesca de sururu, teve a renda aumentada para R$ 1.200 nos primeiros meses de pandemia. O trabalho foi interrompido porque não tinha a quem entregar o insumo.

Mesmo com o valor extra, outros desafios da pobreza persistem. Maria José se queixa do aumento dos preços da cesta básica. "Essa pandemia veio para desgraçar a vida da gente. Como é que a gente vai dar R$ 10 numa lata de óleo ou comprar um gás?", levantou.

As condições de higiene também não mudaram muito com a nova moradia. "O esgoto é a céu aberto, não tem saneamento, não tem nada. Vivendo com os ratos, com as baratas", disse. O drama foi sentida na saúde: ela e o marido tiveram coronavírus - o que ela atribui às condições de vida.

Assim como a família, 66,5% dos pernambucano que vive abaixo da linha da pobreza vive em domicílios sem saneamento básico. A pesquisa revelou que essa população tem menor acesso a outros serviços básicos: 28,6% têm ao menos uma precariedade nas condições de moradia, 38,8% têm dificuldade no acesso à educação, 47,1% não têm conexão com a internet e 9% não têm cobertura de nenhum tipo de programa de proteção social.

O panorama vem se costurando há tempos, lembrou Fernanda Estelita, gerente de planejamento e gestão do IBGE no Pernambuco. "A gente tem visto ao longo dos últimos anos uma declínio das atividades econômicas, uma redução do PIB, e, nessa situação, os mais vulneráveis ficam ainda mais prejudicado", contextualizou. Apesar de o Recife se destacar negativamente entre as cidades, não é uma particularidade local. "estava nessa mesma condição (de extrema pobreza)", pontuou.

Na análise do ano de 2020, a previsão é de que indicadores podem seguir dois caminhos. "A gente tem dois movimentos acontecendo: um impacto da pandemia que foi muito forte, reduziu emprego, trouxe um trabalho mais precário para população e, com isso, diminuiu a renda. Mas teve o impacto positivo do auxílio emergencial, deu um fôlego, deu acesso a população mais vulnerável entrasse no mercado de consumo", afirmou. "A gente vai ter que aguardar para ver qual dessas duas forças vai preponderar no balanço. Foi um ano atípico em relação ao que a gente tem nos últimos tempos."

Luiz Maia, professor de economia e finanças da UFRE, prevê um impacto significativo no aumento da faixa da pobreza, que corresponde à população com renda mensal de menos de R$ 436 reais por mês, ou US$ 5,5 por dia, pelo critério do Banco Mundial. "A gente está vendo a taxa de desemprego saltar ao longo de 2020. Já subiu mais de 3 pontos percentuais. Já está chegando a um patamar muito alto. Com aumento desemprego, o que a gente tende a ver é mais pessoas na pobreza", resumiu.

Eduardo Eugênio da Silva, 29, é uma dessas pessoas atingidas pelo desemprego. Antes da pandemia, prestava serviços informalmente como ajudante de pedreiro ou lustrador de móveis. "Dificuldade é muita. Com essa pandemia não aparece trabalho. Ficou mais difícil,", falou o homem que há 9 anos mora em uma palafita nos bairros dos Coelhos, na área central do Recife. Eduardo foi contemplado pelo auxílio de R$ 600 nos últimos meses, dos quais manda R$ 200 a R$ 300 para os dois filhos. "Ajuda, mas não muito. Dá para fazer uma compra, pagar uma dívida, compra um negócio para as crianças", contou.

A Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude de Pernambuco disse trabalhar com políticas públicas de proteção assistencial, na tentativa de reduzir as desigualdades. Entre elas, a Casa das Juventudes, o 13° Bolsa Família, articulação por meio do Comitê Intersetorial de Políticas Públicas para garantia dos direitos da pessoa em situação de rua; o assessoramento técnico às equipes da rede socioassistencial; o acesso à documentação civil para inserção dessas pessoas em programas, benefícios sociais e mercado de trabalho. A secretaria informa que também articula doações de alimentos e materiais de limpeza e higiene pessoal e acompanha e distribuição dos donativos aos municípios, a fim de atender a população em situação de vulnerabilidade. A Prefeitura do Recife também foi procurada na noite de ontem, mas não teve tempo hábil para responder.

 

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DECADÊNCIA Recife ocupou ano passado o primeiro lugar no ranking das desigualdades e concentração de renda, posição que não ocupava desde 2016 - FOTO:FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

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