Em tempos de covid-19, dor leva fiéis ao santuário de Nossa Senhora da Conceição

Aos pés da santa, antes e durante a festa, muitos passaram para agradecer as graças concedidas e também a saúde dos seus

Amanda Rainheri
Amanda Rainheri
Publicado em 07/12/2020 às 23:00
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BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
Arquidiocese de Olinda e Recife recomenda que grupo de risco fique em casa e acompanhe as celebrações através do YouTube, no canal Santuário Morro da Conceição - FOTO: BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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Maria, mãe do menino Jesus, tem mais de mil títulos no mundo todo. Mas hoje, para os devotos, ela é Nossa Senhora da Conceição, mãe que cuida, protege e intercede por seus filhos. E, se 2020 foi ano marcado por desafios trazidos pela pandemia do novo coronavírus, ele também serviu para renovar a fé e aproximar ainda mais os fiéis de sua devoção. Aos pés da santa, antes e durante a festa, muitos passaram para agradecer as graças concedidas e também a saúde dos seus.

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O motorista de aplicativo Nilton Barbosa, de 52 anos, é voluntário há oito na Festa do Morro. Mas este ano, a celebração é especial, porque Nilton é um sobrevivente. No final de abril, quando Pernambuco vivia seus dias mais difíceis da pandemia, ele contraiu a covid-19. A esposa, o filho de oito anos, a sogra e a mãe dela também adoeceram. A última faleceu no mesmo dia em que precisou ser socorrida e levada para uma unidade de saúde. "Foram momentos muito difíceis. À noite, eu rezava sempre para Nossa Senhora da Conceição, pedindo pela saúde de todos nós. Em vários momentos, eu sentia no meu coração que eu iria me curar. Era ela respondendo. Minha cura foi alcançada por intercessão de Nossa Senhora." 

Moradora do Alto José do Pinho, bairro vizinho ao Morro da Conceição, também na Zona Norte da capital, a esteticista Bianca Dias, 32, subiu o morro na segunda-feira que antecedeu a festa para agradecer. A avó de 86 anos contraiu o novo coronavírus, mas teve sintomas leves. "Quando a gente soube, ficou muito preocupado, porque ela é do grupo de risco. Não só pela idade, mas tem problemas de saúde como diabetes. Nossa família é muito devota e começamos a rezar. Nossa Senhora curou minha avó, por isso vim agradecer", explicou. A idosa, que frequenta o santuário todos os anos na época da festa, este ano ficará em casa. "Mesmo já tendo pego a doença, achamos melhor que ela ficasse em casa", justificou a neta.

Em momentos difíceis, a fé se renova e fortalece. É o que defende a engenheira Anne Marques, 63. Na última quarta-feira, ela e as três irmãs levaram a mãe Regina, de 80 anos, até o santuário para fazer orações. A família, que inicialmente iria passar de carro, acabou descendo quando encontrou o local com pouca circulação de pessoas. "Nossa fé é da família inteira, sempre viemos na Festa de Nossa Senhora da Conceição. Maria é tudo pra mim. Ela é o início de tudo, na verdade. Se não fosse pelo sim dela, não teríamos o filho de Deus. Nesses tempos difíceis de pandemia, é essa fé que nos sustenta. É saber que estamos sendo assistidos por nossa intercessora. Uma relação que se intensifica ainda mais", defende.

Reitor do Santuário de Nossa Senhora da Conceição pelo primeiro ano, o padre Luiz Vieira lembra que Maria é mãe e vai ao socorro dos filhos em momentos de necessidade como este. "O próprio Cristo, na cruz, disse ao discípulo amado: 'eis aí a tua mãe'; e, depois, a Maria: 'eis aí o teu filho'. Ela é a mãe da humanidade, que ampara nos momentos difíceis."

O amor e a confiança na figura da mãe intercessora se reflete todos os anos no grande público que participa das procissões de abertura e encerramento da festa, suspensas em 2020 devido à pandemia, e também na circulação de fiéis durante os dias da comemoração. O professor de história Flávio Cabral, que coordena a licenciatura do curso na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), explica a origem da devoção ao dogma da Conceição. "O padroeiro do Recife é, na verdade, Santo Antônio, que tem como copadroeira Nossa Senhora do Carmo. Mas ninguém tem uma procissão tão grande quanto Nossa Senhora da Conceição. E isso vem de longa data. Antes de chegar ao Brasil, ela era padroeira de Portugal. Foi algo que passou pelo período colonial, depois pelo império, quando inclusive se torna padroeira do Brasil, e chega até hoje."

No Recife, explica ele, a própria história do Morro da Conceição é contada pela devoção. "Em 1904, com dom Luís Raimundo, então arcebispo e de devoção mariana, a imagem, vinda da França, é colocada no alto do morro. Começa, então, a haver um fluxo de peregrinos no local. Muita gente passou também a querer morar perto da santa, e, assim, foi sendo construído o bairro. A devoção, que já era antiga, se intensifica com a construção do monumento e chega ao que temos hoje, essa relação fervorosa entre o pernambucano e o dogma da Conceição."

Programação

Tradicionalmente o dia mais movimentado da programação da Festa do Morro, o 8 de dezembro, Dia de Nossa Senhora da Conceição, exige cuidados redobrados este ano para quem pretende ir até o Santuário dedicado à Imaculada, no Morro da Conceição, Zona Norte da capital. Nesta terça-feira, as missas começam à 0h. As celebrações ainda estão marcadas para as 2h, 4h, 6h, 9h, 12h, 14h e 16h. A solenidade de encerramento, presidida pelo arcebispo de Olinda e Recife dom Fernando Saburido, acontece às 19h.

Quem faz parte do grupo de risco para o novo coronavírus, deve ficar em casa, segundo orientações da arquidiocese, e assistir as missas pela internet ou pela televisão aberta. Todas as celebrações são transmitidas ao vivo pelo canal do Santuário de Nossa Senhora da Conceição no YouTube. As missas das 4h e das 19h também poderão ser acompanhadas pela TV Pai Eterno.

Já os fiéis que quiserem participar presencialmente das missas ou ter acesso à imagem de Nossa Senhora, devem estar atentos aos protocolos. A entrada no santuário está acontecendo pelos portões A e B, próximos à torre. Dentro do templo, há limitação de vagas. São 120 bancos, com duas pessoas cada, totalizando 240 pessoas. Na área externa, mais 300 cadeiras foram dispostas, mantendo o distanciamento. Ao fim das missas, os fiéis saem pelas laterais do santuário e têm acesso à santa. A saída é pelo portão G, atrás da imagem.

Quem não quiser participar das missas, mas optar por ter acesso apenas à imagem da santa, poderá utilizar os portões C e D para entrada. Marcas foram pintadas no chão para orientar o distanciamento. A saída também será pelo portão G.

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