MEIO AMBIENTE

Tradicional barco Sinuelo, da UFRPE, passa o bastão no estudo dos tubarões em Pernambuco para novos gigantes

Ainda neste ano, a missão de conhecer os mistérios do mar deve passar para novos aliados: o projeto Megamar e o Navio Ciências do Mar IV

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 03/07/2021 às 7:31
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YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
Ciências do Mar IV é uma das quatro embarcações financiadas pelo Ministério da Educação (MEC) que deve atender aos alunos de oceanografia, engenharia de pesca e biologia marinha de todo o Nordeste - FOTO: YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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Com o início dos ataques de tubarão no litoral de Pernambuco - que registrou 66 entre 1992 e 2019 -, perguntas começaram a ser feitas pela comunidade científica. Por que aqui? Por quais espécies? Como evitar? A necessidade de respondê-las rendeu uma parceria entre o Governo do Estado e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). No famoso barco Sinuelo, pesquisadores tiveram conclusões cruciais para diminuir as ocorrências nas praias. No entanto, em 2014, o convênio não foi renovado, e o Estado parou de monitorar os peixes. Agora, ainda este ano, a missão de conhecer os mistérios do mar deve passar para novos aliados: o projeto Megamar e o Navio Ciências do Mar IV.

Nenhum dos dois, entretanto, surgiu de uma iniciativa do poder estadual. O Megamar foi idealizado em 2019 pelo engenheiro de pesquisa e professor da UFRPE Fábio Hazin - que também liderou o extinto Projeto de Pesquisa e Monitoramento de Tubarões no Estado de Pernambuco (Protuba) e faleceu em junho deste ano por complicações da covid-19. O projeto, que deverá ter sua primeira expedição na primeira semana de julho, tem custo estimado em R$ 2 milhões e será inteiramente financiado pelo Porto de Suape - que tem construção apontada como uma das causas para o maior aparecimento de tubarões na costa do Estado.

Segundo o diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Complexo de Suape, Carlos Cavalcanti, estão inicialmente previstos trabalhos para os próximos dois anos. No primeiro, vão ser montadas cinco estações de monitoramento dentro do mar, onde serão identificadas espécies de toda a chamada ‘megafauna’, como tubarões, botos, barracudas, raias e tartarugas. No segundo, chips de monitoramento serão inseridos nos animais para possibilitar o acompanhamento do percurso deles, além de ser feita a conscientização da população sobre a ocorrência das espécies no litoral.

“Existe um conjunto de possibilidades que faz com que aconteça o incidente entre as espécies e os seres humanos, e a gente tem tentado entender qual a principal causa desse processo. Junto a Hazin, fomos construindo bases para uma pesquisa direcionada à área do Porto de Suape para saber quais são as espécies desse ambiente marinho estuarino e quais acompanham as embarcações - porque tem uma teoria já consagrada de que elas atraem os tubarões. Queremos entender se isso tem relação com os incidentes na Região Metropolitana do Recife”, disse Cavalcanti.

Junto a seis estagiários, o Megamar agora será comandado pelo professor da UFRPE e engenheiro de pesca José Carlos Pacheco, que, antes da morte de Hazin, era o supervisor do projeto. “Vamos estudar a área do Porto de Suape para estudar a composição da megafauna, incluindo tubarões e raias, para que a gente possa ver a composição dela, já que sempre foi veiculado através inclusive de dados a relação de ataques com o Porto, o matadouro, a pesca, e o canal adjacente à área, que juntos influenciariam nos ataques nessas áreas de risco”, afirmou o pesquisador.

Uma outra promessa para o estudo dos mares é o Navio Ciências do Mar IV, uma das quatro embarcações financiadas pelo Ministério da Educação (MEC) com o objetivo de colaborar na formação dos 945 estudantes matriculados em cursos superiores de oceanografia, engenharia de pesca e biologia marinha de todo o Nordeste. Atualmente atracada no Porto do Recife, a embarcação gerenciada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) espera pela regulamentação dos documentos exigidos pela Marinha do Brasil e pelo retorno das atividades presenciais dos estudantes - paralisadas pela pandemia - para operar no mar.

“O navio de ensino e pesquisa representa um salto importante na formação de recursos humanos na área de Ciências do Mar, que se tornou real a partir de uma vontade do Estado brasileiro de dar consequência a uma política pública, visando o desenvolvimento das atividades de utilização, exploração e aproveitamento dos recursos vivos, minerais e energéticos do mar brasileiro, de forma racional e sustentável para o desenvolvimento socioeconômico do país, gerando emprego e renda”, defendeu o professor de oceanografia da UFPE e responsável pelo barco, Alex Costa.

YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
EMBARCAÇÃO - Laboratório Flutuante UFPE - Ciências do Mar IV atraca no Porto do Recife. - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
ESPAÇO Navio tem 32 metros de comprimento e transporta até 26 pessoas - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
EMBARCAÇÃO - Laboratório Flutuante UFPE - Ciências do Mar IV atraca no Porto do Recife. - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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EMBARCAÇÃO - Laboratório Flutuante UFPE - Ciências do Mar IV atraca no Porto do Recife. - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
EMBARCAÇÃO - Laboratório Flutuante UFPE - Ciências do Mar IV atraca no Porto do Recife. - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
EMBARCAÇÃO - Laboratório Flutuante UFPE - Ciências do Mar IV atraca no Porto do Recife. - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM

A moderna embarcação climatizada tem 32 metros, um calado máximo de 2,83 metros, velocidade de operação em torno de 10 nós, autonomia para passar até 10 dias em mar e 26 lugares. Ela é dividida em três convés. No primeiro, estão a sala de comando, os camarotes do Comandante e do imediato, a sala de hidroacústica e o comando de ré. No principal, onde serão feitas todas as coletas, ficam os laboratórios, a cozinha, o refeitório, três camarotes com dois beliches cada. No inferior, estão a praça de máquinas e mais cinco camarotes.

“O barco-escola vai beneficiar alunos, professores, pesquisadores e também será uma oportunidade de fazer pesquisas, já que tem um laboratório. Quando saímos a campo, nós fazemos amostragens; e com o barco poderemos analisá-las ali mesmo. Muito material vai ser devolvido imediatamente, vai ser um barco completo. Toda comunidade vai se beneficiar dele, que também continuará com os estudos dos tubarões”, disse o diretor do Departamento de Pesca e Aquicultura da UFRPE, Alfredo Olivera.

Monitoramento

Atualmente, o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (CEMIT) atua em ações de prevenção a ataques no Estado. Junto ao Corpo de Bombeiros, tem quatro principais linhas de ação: pesquisa e monitoramento de tubarões; recuperação ambiental; educação ambiental; e prevenção e fiscalização de esportes proibidos. O tenente-coronel Anderson Barros associa a queda aos trabalhos educativos feitos pela corporação. “Os Bombeiros trabalham na parte preventiva, uma atuação que tem reduzido os números de afogamento e que também associamos a ter zerado os incidentes com tubarões. Nós e o Cemit temos integração com a universidade em várias áreas, e os estudos normalmente são compartilhados conosco. É uma troca de dados e informações”, explicou.

“Nos últimos anos, a Secretaria de Defesa Social e o Cemit vêm trabalhando em diversas frentes com o intuito de enfrentar esses incidentes, incluindo a aquisição de novas motos aquáticas de salvamento utilizadas na prevenção, fiscalização e resgate aquático pelo Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (CBMPE), que também realiza campanhas de prevenção nas praias e comunidades. Além disso, houve reforço no efetivo do CBMPE”, disse a SDS, por nota, além de destacar as 110 placas informativas destinadas à prevenção de ataques de tubarões no Estado.

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