MEIO AMBIENTE

Apesar de período sem ataques, tubarões em Pernambuco são perigo constante

Entre 1992 e 2019, foram registrados 66 ataques de tubarão no Estado. Pesquisas, monitoramento e ações educacionais ajudaram a reduzir os incidentes, que ainda carecem de algumas explicações

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 04/07/2021 às 9:00
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
requalificação da orla de Jaboatão - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Apesar de haver relatos anteriores, foi em 1992 que Pernambuco começou a registrar oficialmente os primeiros ataques provocados por tubarões. Em um intervalo de dois meses, dois banhistas não resistiram às lesões e morreram, enquanto um sobreviveu. Em 1994, um boom: dez em apenas um ano. A recorrência acendeu o alerta na comunidade acadêmica e no governo do estado, que criaram grupos de pesquisa com o intuito de entender o que teria motivado a chegada dos gigantes do mar à costa do Grande Recife. Desde 2019, o Estado não notifica novos incidentes, mas ainda há muito a ser descoberto.

De 1992 até 2019, foram registrados 62 ataques no continente, sendo 27 no Recife, 23 em Jaboatão dos Guararapes, seis no Cabo de Santo Agostinho, quatro em Olinda, um em Paulista e outro em Goiana. Em Fernando de Noronha, quatro pessoas foram vítimas dos tubarões. Desse total, 25 não resistiram aos ferimentos, e 41 sobreviveram - muitas sofreram amputações. Os pontos onde mais foram registrados incidentes no continente foram na Igreja de Piedade (19,35%), na Praia de Piedade, e no Acaiaca (11,29%), na Praia de Boa Viagem. Em Fernando de Noronha, cada um dos quatro ataques aconteceu em localidades diferentes.

O comerciante Flávio Santos, de 39 anos, que tem uma barraca em frente à Igreja de Piedade, contou ter visto um dos primeiros ataques na área. “Em 1993, o rapaz foi tomar banho no rasinho enquanto o peixe dele não saia. Quando ele foi sair do mar, o tubarão passou pelas pernas dele. Não tinha muita gente, mas muita gente foi tentar ajudar, tirar ele da água, depois chamaram os Bombeiros e levaram. À época, o movimento era melhor, tinham mais banhistas. Quando os ataques começaram, senti o movimento cair 70%”, disse.

Enquanto todo Brasil tinha os olhos voltados para o perigo existente no litoral do Grande Recife, o professor e engenheiro de pesca Fábio Hazin encabeçou o Projeto de Pesquisa e Monitoramento de Tubarões no Estado de Pernambuco (Protuba), da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que contou com o apoio da Secretaria de Defesa Social (SDS) e foi realizado no barco Sinuelo. Também em 2004, foi criado o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), que atua até hoje com ações de conscientização nas praias do Estado.

Durante dez anos, centenas de tubarões foram capturados e monitorados, o que permitiu que o grupo de pesquisa pudesse entender melhor a dinâmica dos animais. Em um artigo científico, Hazin catalogou que, de 73 tubarões capturados durante estudos do Protuba, o tubarão flamengo, o tubarão sucuri e o tubarão lixa foram as espécies mais abundantes no litoral pernambucano, representando juntas cerca de 85%.

Também foram elaboradas diversas hipóteses para elucidar o porquê da presença dos tubarões nas praias pernambucanas. “Há uma série de componentes, como a passagem das espécies pela área, o uso intenso das praias por humanos e a construção de determinadas estruturas, como canais”, citou Rosângela Lessa, especialista em tubarões da UFRPE. Além dessas questões, há ainda a provável relação com a construção do Porto de Suape, que pode ter atraído espécies para a região.

A pesquisadora relaciona os trabalhos de pesquisa à redução dos ataques nos últimos anos, mas alerta para a necessidade da continuação do monitoramento. “Foram gerados bons resultados nas pesquisas desenvolvidas, e já se conhece melhor o comportamento das espécies, mas evidentemente não estamos livres de ataques, porque estamos sempre vulneráveis a isso, principalmente em áreas onde já aconteceram. É bom ficar contente, mas não abandonar as medidas de cautela”, afirmou.

Hoje, o Cemit trabalha junto ao Corpo de Bombeiros com quatro principais linhas de ação: pesquisa e monitoramento de tubarões; recuperação ambiental; educação ambiental; e prevenção e fiscalização de esportes proibidos. O tenente-coronel Anderson Barros associa a queda aos trabalhos educativos feitos pela corporação. “Os Bombeiros trabalham na parte preventiva, uma atuação que tem reduzido os números de afogamento e que também associamos a ter zerado os incidentes com tubarões. Nós e o Cemit temos integração com a universidade em várias áreas, e os estudos normalmente são compartilhados conosco. É uma troca de dados e informações”, explicou.

“Nos últimos anos, a Secretaria de Defesa Social e o Cemit vêm trabalhando em diversas frentes com o intuito de enfrentar esses incidentes, incluindo a aquisição de novas motos aquáticas de salvamento utilizadas na prevenção, fiscalização e resgate aquático pelo Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (CBMPE), que também realiza campanhas de prevenção nas praias e comunidades. Além disso, houve reforço no efetivo do CBMPE”, disse a SDS, por nota, além de destacar as 110 placas informativas destinadas à prevenção de ataques de tubarões no Estado.

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