MEIO AMBIENTE

A memória, legado e destino do Sinuelo: o barco utilizado para monitorar tubarões em Pernambuco

Ancorada há mais de um ano em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife, a embarcação em desuso tem hoje uma situação nada gloriosa. Mas, a ela, é prometido um grande destino

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 04/07/2021 às 8:30
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BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
ABANDONO Embarcação Sinuelo, que contribuiu com pesquisas e monitorou os tubarões no Grande Recife, está ancorada, há um ano, na praia de Brasília Teimosa - FOTO: BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Um velho amigo para alguns, professor para outros e ídolo de muitos. Até quem não entende de mar deve honras ao Sinuelo - um pequeno barco de 13 metros que durante 10 anos possibilitou a realização de pesquisas pioneiras da Universidade Rural de Pernambuco (UFRPE) sobre tubarões, evitando que o número de 62 ataques registrados pelos gigantes do mar no litoral do Estado fosse ainda maior. Ancorada há mais de um ano em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife, a embarcação em desuso tem hoje uma situação nada gloriosa. Mas, a ela, é prometido um grande destino: o de integrar um memorial em homenagem ao engenheiro de pesca Fábio Hazin, falecido em 7 de junho por complicações da covid-19.

Ambos tiveram uma relação costurada pelo Projeto de Pesquisa e Monitoramento de Tubarões no Estado de Pernambuco (Protuba), idealizado por Hazin em parceria com a Secretaria de Defesa Social (SDS) entre 2004 e 2014. No Sinuelo, um GPS indicava o melhor lugar para que iscas de moréias e peixes-prego fossem jogadas ao mar. Nem sempre a expedição era bem sucedida, mas, em grande parte, os tubarões eram capturados e soltos após serem marcados para monitoramento pela equipe, que evitava que os peixes voltassem às áreas de risco do Grande Recife. Os que não sobreviviam tinham a carcaça levada para estudos na universidade.

“O projeto monitorava semanalmente a área através da captura e da marcação [de tubarões], além da temperatura da água, do período de chuvas e dos dados abióticos que a gente relacionava para analisar o cenário e a possibilidade de ter um tubarão na região. Tudo isso junto também à educação ambiental, dando palestras em escolas e fazendo atividades nas praias, levando informação aos banhistas sobre os riscos do mar”, conta o professor da UFRPE José Carlos Pacheco, que foi coordenador executivo do laboratório do Protuba e depois pesquisador no Sinuelo.

BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Barco Sinuelo que monitorava e pesquisava ataques de tubarão no Estado de Pernambuco, encontrá-se abandonado na Bacia do Pina. - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Barco Sinuelo que monitorava e pesquisava ataques de tubarão no Estado de Pernambuco, encontrá-se abandonado na Bacia do Pina. - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Barco Sinuelo que monitorava e pesquisava ataques de tubarão no Estado de Pernambuco, encontrá-se abandonado na Bacia do Pina. - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Barco Sinuelo que monitorava e pesquisava ataques de tubarão no Estado de Pernambuco, encontrá-se abandonado na Bacia do Pina. - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM

Um trabalho essencial para reduzir a incidência de ataques de tubarões em Pernambuco em cerca de 90% - segundo estudos de Hazin, e elogiado pela comunidade acadêmica. “Inicialmente, não se sabia muita coisa sobre a migração dos tubarões e o porquê da presença deles por aqui. Com esse barco, começou-se a fazer pesquisas para identificar a migração deles, onde estavam, para onde iam, além de muitas tarefas de educação ambiental”, explicou o professor Alfredo Olivera, atual diretor do Departamento de Pesca e Aquicultura da UFRPE.

Além das contribuições à sociedade, o Sinuelo também formou cientistas. Foi no vai e vem das águas do barco que o então aluno de engenharia de pesca José Carlos Pacheco descobriu-se um apaixonado pelo mar. “Se hoje sou professor da área de oceanografia e técnica de pesca, devo à minha experiência no Sinuelo. Foi onde tive meu primeiro contato em navegação de uma embarcação, lançamento de equipamento de pesca e interação com o ambiente oceanográfico”, contou o professor de oceanografia e engenharia de pesca do campus da Rural em Serra Talhada. Além da embarcação, ele também homenageia os mestres Fábio Hazin e Vanildo Oliveira, os que “mais levaram alunos a estudarem no barco-escola”.

Segundo o pesquisador, o Sinuelo teria sido, “com garantia”, o barco que “mais tem horas de mar de pesquisa e de aulas prática do Brasil”. Além dos alunos de Pernambuco, ele também formou estudantes da Bahia e do Maranhão. “Ele deu oportunidade a alunos do Sertão que nunca tinham ido ao mar de conhecê-lo não da beira da praia, mas navegando nele, passando o dia realizando atividades de engenharia de pesca”, disse. Anteriormente, temia-se que o barco fosse colocado à leilão, o que, para Pacheco, “não seria uma alternativa positiva, porque trazendo-o para nossa história, fazemos com que essa embarcação continue sendo bem representativa na pesquisa e ensino na área de engenharia de pesca e ciências do mar”.

O convênio entre o Protuba e a SDS não foi renovado em por “questões jurídicas” - justificativa da pasta à época - e, desde então, o Sinuelo perdeu sua principal função, e o Estado não colocou em execução um outro projeto de monitoramento dos tubarões no litoral pernambucano. Mesmo assim, o último incidente registrado no continente aconteceu em 2018 na Igreja de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, ponto que mais teve ataques até hoje, levando um banhista à morte. Em Fernando de Noronha, foi em 2019, contra um surfista, que sobreviveu às lesões. Outros dois ataques no arquipélago são analisados pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), e não ainda foram incluídos no relatório.

Para a especialista em tubarões da UFRPE Rosângela Lessa, o intervalo sem ataques se deve às pesquisas já desenvolvidas no Sinuelo, que permitiram o conhecimento acerca do comportamento das espécies. “Todo mundo que trabalha na área tem que ser muito grato a ele, porque gerou muito conhecimento principalmente em relação à ecologia na área”, disse. No entanto, ela alerta que “não estamos livres de ataques”. “Estamos sempre vulneráveis a isso, principalmente em áreas onde já aconteceram, mas parece que estamos vivendo um momento de um ‘gap’ sem incidentes. É bom ficar contente, mas não abandonar as medidas de cautela”, explicou”.

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