SOCIEDADE

Para os filhos esquecidos do Brasil, o maior pedido de Natal é por dignidade

Com a chegada das festas de fim de ano, o JC provocou algumas das milhares de pessoas em situação de rua do Recife a responderem quais seriam seus desejos de Natal

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 14/11/2021 às 6:00
FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
Um trabalho fixo. O resto eu conquistava", pediu Silvaneide Vicente de Ferreira - FOTO: FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
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Nunca antes tão cheias. Nunca antes tão abandonadas. Nunca antes tão desesperançosas. A atual percepção das ruas do Recife há muito tempo não contrasta tanto com o espírito natalino. Por isso, a um mês da festa, a reportagem do JC provocou algumas das milhares de pessoas em situação de rua da cidade a responderem quais seriam seus desejos de Natal. "Você pode pedir qualquer coisa". Mas em todos os casos a resposta foi similar. Não riqueza, ou bens materiais. Não um carro de última geração, ou a oportunidade de conhecer um país distante. Sempre pela efetivação de seus direitos e por aquilo que trouxesse dignidade: uma palavra que perde mais o significado a cada dia no Brasil.

“Um trabalho fixo. O resto eu conquistava”, respondeu Silvaneide Vicente de Ferreira. Aos 26 anos, ela diz já ter perdido a capacidade de sonhar desde que percebeu que, ano após ano, sua realidade não muda. “Quando eu era criança, tinha muitos planos, depois acabou tudo. Todo ano é a mesma coisa. Todo ano estou do mesmo jeito”, disse, enquanto a lágrima escorria. Mãe solo, já viu a oportunidade de trabalho escapar de suas mãos por não ter onde deixar os dois filhos, com quem passa o dia no cruzamento da Rua Barão de Souza Leão com a Avenida Visconde de Jequitinhonha, em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, à espera de doações. “Tem hora que dá um desespero grande nesse lugar. Aqui não é lugar de ninguém, não vivo aqui porque quero”.

Ao lado dela está Inaiana de Lima, de 23 anos, que há dois meses mora em uma cabana improvisada com lona e tem o chão como travesseiro. Desempregada há um ano, sente saudades da renda de R$ 750 por mês, ainda abaixo do salário mínimo, de quando trabalhava em bancas de apostas. Hoje sobrevive com R$ 130 de Bolsa Família, que ela diz “não dar para nada”. “Vamos nos virando. Pegamos um almoço aqui, outro ali. Quando não nos dão, precisamos comprar por R$ 12 ou R$ 13”, revelou. Além de voltar a trabalhar, o seu sonho de Natal seria poder celebrá-lo ao lado da família e na segurança de quatro paredes. “Aqui somos humilhados todos os dias. Se eu pudesse, iria para casa; mas não tenho para onde ir”.

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Inaiana de Lima vive com o filho de colo nas ruas de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, há dois meses - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

Uma contagem feita pela Prefeitura do Recife em 2019 apontou que cerca de 1.400 pessoas viviam em situação de rua na cidade. Apesar de não haver dados consolidados sobre o tema, ativistas sociais sentem que o número cresceu. “As ruas estão abarrotadas de pessoas. É um sentimento geral. A pandemia acentuou bastante a desigualdade e a presença de pessoas nas ruas, até de pessoas que têm uma moradia, mesmo que precária, mas que vão para lá por não ter condições de se alimentar. A chegada de pessoas que têm uma casa, uma formação e escolaridade aumenta a falta de esperança nas que já estavam”, explicou Rafael Araújo, fundador da ONG Samaritanos.

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Os olhos de João Soares, de 36 anos, brilharam ao responder que desejaria "um emprego" de Natal - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

É o caso de João Soares, de 36 anos, cujos olhos brilharam ao responder que desejaria “um emprego” de Natal, como se vislumbrasse a realização do sonho. O que agora parece distante fazia parte de sua vida há poucos meses, até ser demitido do restaurante onde trabalhava como auxiliar de cozinha, após redução da equipe por causa da pandemia da covid-19. “Não tenho trabalho e não tenho como pagar o aluguel, então o que sobra é a rua”, revelou. O último natal, segundo ele, foi especial - diferente do que espera para esse ano. “Tinha fartura em casa, para mim e para a minha família. Esse ano vai ser complicado, vai ser triste. Hoje me sustento pedindo. Não tenho ninguém para me dar um apoio”, disse.

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Sabrina Meneghel sonha em "poder chegar em casa e descansar" após um dia de trabalho - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

João vive numa pequena praça situada na Rua Velha, no bairro da Boa Vista, Centro da cidade, junto a pessoas que já tinham as ruas como sustento há décadas. É o caso de Sabrina Meneghel, 37 anos, expulsa de casa há mais de 20 anos por ser uma mulher trans, e Kátia Simone de Barros, 50, que mora nos Coelhos, mas depende das doações que recebe no local. “Meu desejo é ter uma carteira assinada. Não tenho muita leitura, mas sei fazer faxina. Queria qualquer trabalho, até limpar o chão, para ter meu cantinho, poder chegar em casa e descansar, e ter meu lazer no final de semana”, afirmou Sabrina. “Meu sonho é ter uma casa própria para poder cuidar dos meus filhos”, respondeu Kátia.

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Desde os 9 anos, Kátia Simone de Barros, 50, depende de doações na rua para se alimentar - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

Ainda no Centro, próximo à Praça da República, uma família passa o dia sentada na calçada com as mãos estendidas a quem passa. À reportagem, responde que o desejo de Natal seria uma mesa cheia em 24 de dezembro. “Eu queria um Natal com muita comida para que minhas filhas ficassem com a barriguinha cheia, porque é tão ruim ter que vir para cá no outro dia”, revelou Thayanne Pereira, com a voz embargada. “Nunca tive uma ceia na minha vida. Minha vida foi pedir esmola. Como se comemora assim?”, questiona Francisca, a avó das crianças. Para ela, este é o ano com mais gente nas ruas e menos doações. “Nunca estiveram tão fracas quanto agora. Nessa época, no ano passado, já estavam passando e doando mais."

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Mãe e filha, Francisca e Thayanne Pereira pedem por "uma ceia de natal muito grande para mim e para a minha família" - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

Como chegamos aqui, e para onde vamos

Há vários fatores que causaram o quadro de miséria no país apresentado pelos entrevistados. Segundo o sociólogo econômico Sidartha Sória e Silva, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a estagnação da economia desde 2015, a pandemia, a fragilidade das instituições, a desconfiança geral da política e a diluição de políticas públicas - como o Bolsa Família, encerrado neste ano - que tinham como foco os mais pobres são algumas delas. “Há uma crise econômica potencializada por uma crise política e institucional, com a população insatisfeita e desorientada, e ainda veio a crise sanitária que foi pessimamente conduzida no Brasil. Tudo isso se soma e ajuda a explicar um pouco desse drama que o país vive”, analisou.

Nessa conjuntura, a campanha Natal Sem Fome, da Ação da Cidadania Pernambuco Solidário, está “consciente” de que a arrecadação em 2021 pode não ser a maior de todas, mas segue “otimista”. “Só temos a lamentar por ver que poderíamos estar muito mais adiante se não tivessem tantas pessoas indiferentes no passado e tantas pessoas públicas achando que o povo estava anestesiado. Parece que caiu a ficha da população - e isso é a parte boa da história. Cada vez mais o cidadão comum entende que o que serve para uma sociedade melhor é a solidariedade e políticas públicas; não só comida, mas emprego, cultura de paz, acesso a uma casa digna e uma educação de qualidade”, pontuou o coordenador Anselmo Monteiro.

Há quatro anos, os Samaritanos realizam sonhos como os de Thayanne e Francisca ao servir entre 100 e 120 pessoas carentes em uma ceia de Natal. “Para elas o final de ano também tem um simbolismo de confraternização, apesar de muitas vezes não terem oportunidade [de celebrar]. É mais rico e significativo sentar na mesa com pessoas que conhecemos pelo nome e que conversamos o ano todo, do que só distribuir a comida”, pontuou Rafael.

Para Sidartha, “em uma sociedade moderna os estratos sociais mais vulneráveis não deveriam depender da boa vontade de outros cidadãos”, mas sim ter direitos assegurados pelo Estado, “que está falhando nisso”. Mas enquanto a conjuntura não muda, é justamente a solidariedade que pode trazer, emergencialmente, um alívio para a vida de quem está na base das estruturas de poder do país. "Está todo mundo exausto, a margem está muito estreita, mas em vez de só esperar pelo momento da eleição, pode-se formar pequenas iniciativas. Vale a tentativa de fazer uma diferença para o próximo". E, quem sabe, realizar esses simples - mas essenciais - sonhos de Natal.

Participe dessa corrente solidária

Samaritanos Recife

Banco do Brasil: Agência: 3243-3 | Conta Corrente: 43787-5
ASSOCIAÇÃO CATÓLICA DOS SAMARITANOS
CNPJ: 32.589.782/0001-32
PIX: 32.589.782/0001-32

Acesse o site: www.samaritanosrecife.com.br/doe

Natal Sem Fome

Doações físicas:

Sede da instituição, no Parque do Cordeiro, Zona Oeste do Recife, e no supermercado Extra da Avenida Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife. 

Doações em dinheiro: 

Bradesco: Conta: 9640-7 | Agência 1055-3

PIX: 04.095.409/0001-90

Acesse o site: www.natalsemfome.org.br

Armazém do Campo

Para doações em dinheiro: Associação da Juventude Camponesa Nordestina - Terra Livre - Banco do Brasil | AG 0697-1 | CC 58892-X (outros bancos, substituir o X por 0)
PIX: 09.423.270.0001.80

A Fome Não Pode Esperar

Depósito bancário na conta: Diocese de Palmares - CNPJ: 10.193.944/0028-04 - Banco do Brasil | AG: 3924-1 | CC: 40.629-5

Cúria Metropolitana

Av. Rui Barbosa, 409, Graças, Recife, todos os dias, de domingo a domingo, das 7h às 17h, além de paróquias das igrejas católicas

Central de Cidadania

As doações podem ser feitas pelo site www.centraldecidadania.org/doe-contato

Cores do Amanhã

As doações podem ser feitas por depósito bancário na conta: Movimento Social e Cultural - Cores do Amanhã - CNPJ: 13.449.687/0001-9 - Banco do Brasil | AG: 4118-1 | CC: 20.766-7

Enche Panela

As doações podem ser feitas via vakinha.com.br/vaquinha/enche-panela

Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC)

As doações podem ser feitas pelo site www.nacc.org.br/como-ajudar/doacoes/

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