RECIFE ACOLHE

Cadê as vagas em hotéis para pessoas em situação de rua no Recife? Quatro meses após anúncio, pouca coisa avançou

Rede hoteleira da capital pernambucana resiste à iniciativa e critica orçamento destinado ao programa

Marcelo Aprígio
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Marcelo Aprígio
Publicado em 20/10/2021 às 11:32 | Atualizado em 20/10/2021 às 11:55
BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
A Prefeitura do Recife lançou no dia 14 de junho o programa Recife Acolhe, com iniciativa voltadas a pessoas de situação de rua - FOTO: BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Anunciada em 14 de junho de 2021, há mais de quatro meses, a contratação de vagas em hotéis e pousadas localizados na capital pernambucana para acolher as pessoas em situação de rua avançou pouco e enfrenta dificuldades para sair do papel. Apresentada como uma alternativa às famílias vulneráveis que, por falta de opção, ocupam ruas e calçadas do Recife, a iniciativa chegou a enfrentar resistência da rede hoteleira e ainda não conseguiu garantir o abrigo de nenhuma pessoa.

Por meio de nota, a Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Juventude e Política Sobre Drogas do Recife afirmou que está em andamento com os trâmites para o credenciamento do primeiro hotel que receberá os contemplados pelo programa Recife Acolhe.

Apesar disso, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira em Pernambuco (ABIH-PE), Eduardo Cavalcanti diz desconhecer que algum estabelecimento tenha aderido ou indicado intenção de adesão ao Recife Acolhe.

“A sensação que eu tenho é de que nenhum hotel da ABIH aderiu ao programa. Logo após o anúncio desse programa, consultei os associados, mas ninguém demonstrou interesse. Ontem (terça, 19 de setembro), fiz uma enquete, e todos que responderam negaram participar deste programa”, diz.

Para o dirigente da ABIH-PE, que representa pelos menos 87 hotéis da capital pernambucana, o orçamento destinado à iniciativa contribui para a baixa adesão.

“O orçamento que eles [a prefeitura] apresentaram é para que os hotéis coloquem o valor da diária 30% mais barato. Talvez, fizeram a cotação por tarifa de pousada. É mais um motivo para que a hotelaria não entre [no programa]”, argumenta Cavalcanti, ressaltando que, além disso, os estabelecimentos temem ficar com a imagem de que se tornaram abrigo.

O investimento da Prefeitura do Recife para a viabilização do programa foi de R$ 3,6 milhões por 200 vagas pelo período de três meses, podendo ser prorrogado. O valor máximo estimado para cada diária é de R$ 100 e o pagamento será feito em até 30 dias após a data de recebimento da nota fiscal.

“A prefeitura está mais preocupada, neste caso, com o fator político. Porque com esse dinheiro, dava para construir casas populares. De fato, menos pessoas seriam atendidas, mas é melhor atender 100 pessoas permanentemente do que 200 temporariamente. Não adianta colocar 200 pessoas nos hotéis por três meses e depois jogar elas nas ruas de novo. É melhor construir uns embriões para moradia popular”, pontua Cavalcanti.

“Mas construir casa só gera mais uma entrega de casas, colocar nos hotéis, porém, gera fato político. Imagine as imagens que poderão fazer de pessoas de rua nas piscinas dos hotéis, nos quartos, restaurantes. Isso só iria durar, no máximo, seis meses”, diz o presidente da ABIH-PE.

População de rua no Recife

Dados dão conta de que a população de rua na capital pernambucana tem aumentado. Em levantamento realizado pela Prefeitura do Recife em 2016, ela era de cerca de 1,2 mil pessoas. Em 2019, cresceu para 1,6 mil. Número que deve ser ainda maior agora, durante a pandemia da covid-19, segundo o coletivo Unificados Pela População em Situação de Rua.

Atualmente, o executivo municipal tem registro de que 200 cidadãos sem teto do Recife estão em casas de acolhimento. Dessa forma, com o projeto anunciado, o total de pessoas acolhidas deve subir para 400: o que representaria cerca de 25% da população desabrigada na cidade.

Diante do elevado número de pessoas em situação de rua, a prefeitura ignora as dificuldades de adesão e reafirma que segue com inscrições abertas para hotéis e pousadas. Segundo o edital, o credenciamento deve durar até janeiro de 2022.

Segundo a administração municipal, para se cadastrar é preciso ser pessoa jurídica e apresentar os documentos exigidos no edital, lançado em 26 de julho de 2021, há quase três meses, e que pode ser encontrado na página da Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Juventude e Políticas Sobre Drogas no portal da Prefeitura do Recife.

Na avaliação de Eduardo Cavalcanti, da ABIH-PE, à medida que os estabelecimentos de hospedagem veem o setor reaquecer, fica mais complicado aderir ao programa. “Na situação de hoje, tornou-se muito mais difícil a adesão, porque 90% dos hotéis já reabriram com boa ocupação. Antes, quando tínhamos muitos hotéis que estavam realmente paralisados ou que fecharam diversos andares, já não era fácil”, diz ele.

“Hoje, mesmo não voltando aos patamares da pré-pandemia, em 2019, já sentimos uma retomada bem forte do ponto de vista turístico e já começamos a sentir a questão dos eventos corporativos. [...] Então, acredito que nenhum hotel entraria nesse programa", completa.

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