SAÚDE

Abuso da ivermectina pode ser causa do surto de coceira em Pernambuco, diz estudo

Artigo do Instituto de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) aponta que medicamento pode ter causado superresistência a um ácaro causador da sarna humana

Emannuel Bento
Emannuel Bento
Publicado em 27/11/2021 às 12:15
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FREEPIK/IMAGEM ILUSTRATIVA
PELE Os sinais e sintomas mais comuns são lesões na pele e coceira. Em Pernambuco, 12 cidades registraram casos - FOTO: FREEPIK/IMAGEM ILUSTRATIVA
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Um estudo realizado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) evidencia que o uso indiscriminado de ivermectina pode ser o responsável pelo surto de coceira registrado no Grande Recife nos últimos dias. De acordo com o artigo, o abuso do remédio pode ter desenvolvido uma superresistência de um ácaro causador da sarna humana - também conhecida como escabiose. Ou seja, o uso do remédio teria tornado o parasita mais forte, o que poderia atingir qualquer pessoa - não apenas aquelas que tomaram a ivermectina.

O estudo, divulgado no site da UFAL nesta sexta-feira (26), partiu da observação de casos de resistência à ivermectina já relatados, surtos isolados e os dados de aumento de consumo do medicamento por causa da pandemia de Covid-19. Comprovadamente ineficaz para o tratamento de pessoas com Covid, a ivermectina integrou o "Kit Covid", indicado por muitos médicos e planos de saúde, além do ministério da saúde.

Em Pernambuco, já são 12 cidades com notificações de casos de lesões na pele que provocam coceira. A maior parte dos registros da doença, cuja causa ainda segue desconhecida, concentra-se no Recife: são 176 pessoas com "lesões cutâneas a esclarecer", em 35 bairros.

Embora o surto ainda não tenha causa confirmada, a pesquisa da UFAL ressalta que o Sarcoptes scabiei, ácaro causador de sintomas similares aos registrados, pode ter desenvolvido resistência à ivermectina.

Ainda são necessários mais testes e descarte de hipóteses sobre o que ocorre no estado para confirmação das questões levantadas no artigo, que é assinado pelos pesquisadores Sabrina Neves, Alfredo Oliveira-Filho e dos estudantes estudantes Lucas Bezerra e Natália Alves.

"Uso irracional de medicamentos é um problema de saúde pública"

"O nosso artigo lança a hipótese de que poderíamos ter problemas com surtos de escabiose resistente, por conta do uso irracional da ivermectina. O surto está configurado, pois está havendo um aumento rápido de casos de lesões de pele com coceira e outros sintomas", afirmou Sabrina Neves, pesquisadora do Instituto de Ciências Farmacêuticas (ICF), em texto publicado no site da UFAL. "Se essa hipótese se confirmar, temos um problema enorme, pois a doença poderia atingir qualquer população, e o que é pior, com dificuldade de tratamento."

"O uso irracional de medicamentos é um problema de saúde pública, porém, no caso de antibióticos, antiparasitários e antifúngicos, esse problema ganha proporções maiores. Quando utilizamos de forma irracional/incorreta medicamentos, como a ivermectina, corremos o risco de induzir a resistência do parasita ao medicamento que deveria tratar a doença causada por ele", reforça.

A professora ainda deixa mais uma reflexão: "Esse é um problema mundial, principalmente no que diz respeito à resistência bacteriana, que é um problema sério, uma vez que já temos vária cepas de bactérias resistentes a antibióticos no mundo todo. Ou seja, nesse caso, o uso irracional do medicamento leva a um problema geral, pois gera cepas resistentes a tratamento, que podem infectar qualquer pessoa."

Clique aqui para conferir o trabalho completo da UFAL.

No Grande Recife

A maioria dos pacientes do Recife são da Guabiraba e de Dois Irmãos, na Zona Norte. Os demais são de Boa Viagem, Ibura, Várzea, Passarinho, Córrego do Jenipapo, Torre, Graças, Morro da Conceição, Sítio dos Pintos, Imbiribeira, Iputinga, Bomba do Hemetério, Encruzilhada, Brejo da Guabiraba, Linha do Tiro, Boa Vista, Mangabeira, San Martin, Porto da Madeira, Casa Forte, Cordeiro, Tamarineira, Jordão, Madalena, Dois Unidos, Santo Amaro, Coqueiral, Água Fria, Caçote, Afogados, Campo Grande, Monteiro e Areias.

Também foram registrados casos em Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho, Olinda, Ipojuca, Paulista, São Lourenço da Mata, Camaragibe, Itapissuma, Araçoiaba e Igarassu, na Região Metropolitana, e Nazaré da Mata, na Zona da Mata Norte. Veja abaixo a quantidade de casos notificados em cada cidade:

Recife: 176
Camaragibe: 108
Jaboatão dos Guararapes: 60
Olinda: 22
Cabo de Santo Agostinho: 9
Itapissuma: 5
Paulista: 10
Nazaré da Mata: 3
Igarassu: 5
Ipojuca: 3
Araçoiaba: 1
São Lourenço da Mata: 7

A Secretaria estadual de Saúde informou que os registros "estão sob investigação clínica, epidemiológica e laboratorial pelos municípios, com apoio da equipe técnica da SES-PE, Laboratório Central de Pernambuco (Lacen-PE) e especialistas". As autoridades de saúde orientam que quem sentir os sintomas deve procurar ajuda médica, e não se automedicar.

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