Especial Fome

Instituições e sociedade civil entram no combate à fome, mas governo precisa ter política permanente de transferência de renda

Em Pernambuco, a situação é ainda mais frágil do que no Brasil. Pesquisa divulgada pelo IBGE aponta que o Estado tem 11,8% de sua população vivendo na extrema pobreza. No País esse índice é bem inferior, ficando em 5,7%

Adriana Guarda
Adriana Guarda
Publicado em 22/12/2021 às 7:00
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POBREZA Família de Maria das Dores da Conceição, de São Caetano, no Agreste pernambucano, costuma pular refeições - FOTO: TV Jornal
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No Sítio Camboa, em São Caetano (Agreste de Pernambuco), a família de Maria das Dores da Conceição vive, literalmente, um dia de cada vez. Com as panelas vazias sobre o fogão, a dona de casa espera por doações ou que seu marido consiga fazer algum bico e trazer dinheiro para casa. Mãe de seis filhos, Maria chora a fome das crianças. "A gente que é mãe não quer que falte nunca nada pra eles", diz. Dessa vez, o problema da fome não é transitório, provocado pela seca. A pandemia, o desemprego, a inflação e a perda de renda empobreceram ainda mais a população. 

Em Pernambuco, a situação é ainda mais frágil do que no Brasil. Pesquisa divulgada pelo IBGE aponta que o Estado tem 11,8% de sua população vivendo na extrema pobreza. No País, esse índice é bem inferior, ficando em 5,7%. Com esse resultado, Pernambuco tem a terceira pior situação do Brasil, atrás apenas do Maranhão e do Amazonas. O resultado negativo vem se repetindo há três anos seguidos.

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Especial Fome - Família de Maria das Dores da Conceição - São Caetano - TV Jornal
 

Deixar de fazer refeições virou rotina entre a família de Maria das Dores. No dia em que a reportagem conversou com a dona de casa, os armários e a geladeira estavam vazios e a única coisa que tinham para comer era um cuscuz. O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan), confirma que a fome é mais presente entre as populações rurais. 

A pobreza das populações rurais, sejam elas de agricultores familiares, quilombolas, indígenas ou ribeirinhos, tem reflexo nas condições de segurança alimentar. Nessas áreas, em todo o País, a fome se mostrou uma realidade em 12% das residências.

Se a fome não pode esperar, a ajuda da sociedade civil e das instituições acabam sendo mais imediatas. Durante a pandemia, essa força da solidariedade se confirmou em todo o País. Em Pernambuco, a Cufa (Central Única das Favelas) foi uma das principais organizações a atuar no combate à fome. Com 15 anos de atuação no Estado, atualmente conta com 20 empresas parceiras e 100 doadores pessoa física.  

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"Durante os quase dois anos de pandemia, distribuímos 300 mil cestas básicas. Foi um número importante, mas diante da fome da população, foi como uma gota de água no oceano. Em 2020 conseguimos beneficiar 24 mil famílias, mas depois a média caiu para algo entre 8 mil e 9 mil. Nós que somos acostumados a circular pelas comunidades, ainda nos chocamos com a situação de pobreza em alguns lugares. É o caso da Favela do Arco-Íris, em Peixinhos. Parece que estamos em um cenário de pobreza da África. Não existe uma casa sequer de alvenaria, os banheiros são coletivos e as crianças caminham com aquelas barrigas grandes de doença. É coisa para ver e ficar sem dormir", lamenta a presidente da Cufa Pernambuco, Altamiza Melo. 

Outros lugares apontados por ela são o Alto 13 de Maio, em Casa Amarela, e ilhas de mangue, no Pina. A presidente da Cufa conta que este ano a organização fechou parceria com 13 shopping centers da Região Metropolitana do Recife para doar sete toneladas de alimentos a famílias em situação de vulnerabilidade. A entrega deverá acontecer em janeiro.

"Para o Brasil voltar a sair do Mapa da Fome é preciso primeiro parar de normalizar a pobreza. Tratar o pobre com dignidade, como força motriz que ajuda a carregar o Brasil. Também é preciso investir em educação e dividir as riquezas. Não só as financeiras, mas também as oportunidades", defende Altamiza. 

Continuidade do Auxílio Brasil 

Para quem sabe o que é sentir a barriga roncar sem ter o que comer, o fim do programa Bolsa Família e a criação do Auxílio Brasil é motivo de preocupação. Embora o Auxílio tenha o valor de R$ 400, maior do que a média do programa anterior, a transitoriedade preocupa. O programa é datado e tem validade apenas até 31 de dezembro de 2022. Depois disso, o novo presidente ou o próximo presidente terá que reeditar ou criar uma nova iniciativa. 

"O Bolsa Família foi um programa muito bem estruturado, criado para quebrar com ciclo da pobreza no País, porque ele foi uma ideia pensando no futuro dos filhos dos beneficiários. As crianças permaneciam na escola e conseguiam escapar da miséria dos pais. Por isso, milhões de famílias saíram da pobreza. Um programa de transferência de renda não pode ser transitório, assim como as políticas públicas para combater a fome, porque a população vulnerável é muito grande. A criação de um programa claramente eleitoreiro, como é o Auxílio Brasil, traz enorme preocupação", alerta o economista Sandro Prado, lembrando que as pessoas precisam ficar muito atentas às propostas dos candidatos às eleições em 2022 se quisermos um Brasil melhor e sem fome. 

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