ATITUDE CIDADÃ

Projeto transforma resíduos de cortinas em transformação socioambiental no Pina

A Love Trash atende mulheres da comunidade do Bode, no Pina, e tem como um dos pilares a transformação de comunidades a partir do impacto socioambiental

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Bruno Vinicius

Publicado em 22/05/2022 às 8:00 | Atualizado em 23/05/2022 às 9:37
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A autonomia financeira é um dos pilares para a transformação socioeconômica das mulheres que chefiam famílias no País. A costureira Genilda Alves Xavier, de 56 anos, sabe bem a diferença de ser independente a partir do seu trabalho. "Hoje eu sou o homem e a mulher da minha casa. Tomo conta e dou conta da minha casa", relata. Ela, que nunca teve uma profissão antes, participa desde 2020 da Love Trash. O projeto atende mulheres da comunidade do Bode, no Pina, e tem como um dos pilares a transformação de comunidades a partir do impacto socioambiental.

A ONG nasceu a partir de um incômodo que a empresária e articuladora social Isabel Nascimento teve a partir de visitas a locais com deficiência no saneamento e com a grande quantidade de lixos que era jogada no meio ambiente. A partir dali, ela entendeu que também fazia parte do problema. Em 2010, conheceu o trabalho do Instituto de Assistência Social Dom Campelo, entidade católica mantida pelas Irmãs Medianeiras da Paz desde a década de 1970, no Pina.

"Em 2010, eu tive uma experiência com um Natal num lixão junto com uma ONG. Aquilo mexeu demais comigo, a gente se ver parte daquele problema. A partir daquilo, muitas coisas foram acontecendo. Tudo que a gente vai descartando, para onde vai? O que eu posso fazer para produzir menos resíduos. E essa mudança a partir de um entendimento e compromisso que a gente vai assumindo essa responsabilidade, você vai mudando seu comportamento e acaba refletindo nas pessoas da sua comunidade doméstica ou corporativa. Acabamos trazendo aqui para o IASDOC os resíduos de lá da fábrica e outras instituições de forma amadora", explica Isabel, que passou a doar os materiais da Arbor Cortinas de forma despretensiosa.

Entretanto, apenas em 2020 a Love Trash tomou forma do jeito que é hoje. Era o início da pandemia de covid-19, auge da crise sanitária e do desemprego no País. Além disso, havia uma produção de 80 toneladas de resíduos por ano no Brasil. Como uma breve solução desses problemas, Isabel decidiu investir na educação como um meio de transformação para as mulheres do Bode, que já eram atendidas pelo IASDOC. "A gente transformou uma deficiência na gestão de fábrica em uma eficiência de formar uma escola de oportunidades, profissionalizando mulheres e dando a elas o direito de participação ativa de transformação na sociedade", explica Isabel.

"A escola profissional da Love Trash dá a assistência para que essa mulher se torne uma profissional da costura. Nós somos uma empresa socioambiental e todo o resíduo dessa fábrica, de uma matéria-prima muito nobre, é transformada em ferramenta de educação ambiental. São produtos com propósito, fazem a transformação cultural da sociedade. Não existe mais jogar isso fora de casa. Estamos aqui dentro. O planeta é um só. E estamos dentro do planeta. Durante muito tempo, fomos produzindo muitos produzidos e só pensando naquele momento, sem pensar no final e no retorno desse produto", conta Isabel.

Hoje, a Love Trash conta com 11 mulheres no Bode, lá no Pina, uma comunidade que fica em um dos trechos mais caros da Cidade. Isabel, que até brinca com o apelido de "Gata do Lixo", reitera que cada mulher do projeto impacta diretamente 5 pessoas. Durante a visita da reportagem do JC à sede da empresa, elas estavam produzindo produtos para empresas dos mais variados setores, sobretudo o de turismo, dentro e fora do Estado.

 

Uma das mulheres foi a costureira Genilda Alves Xavier, que conheceu o projeto há dois anos. "Eu moro aqui na comunidade há 20 anos e tenho duas crianças na instituição. Recebi o convite para fazer de aula de costura. Aceitei e estou aqui há dois anos costurando. Eu era do lar. O trabalho me deu uma autonomia muito grande, quando eu comecei tinha uma máquina de conserto em casa, e eu não sabia nem botar uma linha na agulha", relata.

"O financeiro mudou demais. A relação com a minha família hoje é maravilhosa. Depois que entrei aqui passei a separar o lixo, parei de deixar lixo misturado. Todo material é separado. Faço essas bolsas com muito carinho", conta.

Gestão

A psicóloga Marilene Magalhães atua na gestão e no comportamento das mulheres do projeto. "A Love Trash chegou aqui para auxiliar essas mães da comunidade. Elas têm a oportunidade aprender um curso de costura, gratuito, aprendem um ofício e sentem empoderadas pelo conhecimento. Eu venho trabalhando muito com essas mulheres no sentido de desenvolver competências, onde a gente faz um trabalho do quanto elas podem ir além e atingir os resultados a partir da autoestima", explica.

O foco do projeto agora é expandir a outras mulheres. A Love Trash pretende chegar, agora, na Fundação Altino Ventura. A organização quer trabalhar a independência das mães que possuem filhos com microcefalia e são atendidas pela fundação. Além disso, uma terceira célula vai ser instalada em Maragogi, em Alagoas, para trabalhar com mulheres de zona rural.


Todo o acompanhamento do projeto pode ser feito pelo Instagram (@sejalovetrash). Pedidos, de empresas, organizações ou pessoas físicas, são feitos pela rede social.

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