Projeção

O futuro de Sergio Moro no xadrez da política brasileira

Cientistas políticos apontam que, ao sair do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ex- juiz e ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública entrou de vez no mundo político do País

Renata Monteiro
Renata Monteiro
Publicado em 18/05/2020 às 13:31
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EVARISTO SA/AFP
Sérgio Moro pediu demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública no dia 24 de abril - FOTO: EVARISTO SA/AFP
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“O compromisso que eu tive com ele é carta branca para o combate à corrupção e ao crime organizado”, disse o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em 2018, ao anunciar o nome do então juiz Sergio Moro como seu futuro ministro da Justiça e da Segurança Pública. A lua de mel dos dois, contudo, não durou muito. No fim do último mês de abril, após quase 16 meses à frente da pasta, Moro desembarcou do governo por não concordar com a troca do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, imposta por Bolsonaro. Se até aquele momento muitos afirmavam que o Moro político já existia desde a época da magistratura e outros tantos cravavam que ele não encarnou esse personagem nem participando de um governo, analistas políticos consultados pelo JC disseram acreditar que a demissão do agora ex-ministro, do modo como ocorreu, indiscutivelmente o mergulhou na política.

Titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, especializada em crimes financeiros e de lavagem de dinheiro, Sergio Fernando Moro ficou conhecido nacionalmente depois de tornar-se responsável pelos processos da Lava Jato em primeira instância. Enquanto atuava na operação, Moro condenou nomes como o ex-presidente Lula (PT), o deputado federal cassado e ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (MDB), além de ex-diretores da Petrobras e empresários vinculados a grandes empreiteiras.

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Desde essa época, o então juiz já era acusado por opositores de usar a toga para atuar politicamente. “Eu poderia ter ido para uma embaixada, mas eu tomei a decisão de ir lá, porque eu preciso provar que o juiz Moro não era juiz, era um canalha que estava me julgando”, declarou Lula em novembro de 2019, após passar 1 ano e 7 meses preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em Curitiba. “Quando o Moro era juiz, toda a Lava Jato tinha a estratégia de ser política, o que não quer dizer que ela foi partidária. O time da Lava Jato tinha um concatenamento com os fatos político que aconteciam e isso deu visibilidade a Sergio Moro, que ganhou notoriedade midiática e se tornou uma personalidade política”, avaliou o cientista político Vanuccio Pimentel, professor da Asces/Unita.

Detentor de um amplo apoio popular por conta do trabalho desenvolvido na Lava Jato, durante a corrida presidencial de 2018, Sergio Moro foi assediado por diversos partidos interessados em dar-lhe legenda para que pudesse concorrer na eleição, mas acabou não aceitando nenhum convite. Com a vitória de Jair Bolsonaro, veio a aceitação do cargo de ministro da Justiça, que muitos enxergavam como um primeiro passo para que o magistrado fosse indicado, agora em 2020, a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

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Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o cientista político Ernani Carvalho acredita que o mergulho recente de Moro na vida política se deu, de certa maneira, contra a vontade do ex-juiz. O analista é um dos que creem que que o ex-auxiliar de Bolsonaro aceitou entrar no Palácio do Planalto apenas por acreditar que aquele seria um atalho para sua chegada ao STF. “Essa questão faz parte de uma escolha pessoal e fica difícil tentar entender enquanto projeto político, mas ele (Moro) tinha 22 anos de magistratura, era um juiz clássico, tinha uma carreira acadêmica e tudo indicava que não daria voo político. Em 2018 resolveu aceitar o convite de Bolsonaro, penso eu que com a visão no STF, pois ele até mesmo deu entrevistas dizendo que teria muito orgulho ocupar uma cadeira na corte. Com o transcurso do tempo, porém, a coisa se complicou”, detalhou.

Ernani Carvalho aponta, ainda, que entre os fatos que contribuíram para a mudança de rota de Moro nos meses em que ele participou do governo Bolsonaro estão o desgaste no seu relacionamento com o presidente e a divulgação, pelo site The Intercept, de mensagens trocadas no Telegram pelo ex-juiz com membros da força-tarefa da Lava Jato, como o promotor Deltan Dallagnol. As conversas, amplamente divulgadas pela imprensa, mostraram, entre outras coisas, que Moro teria cedido informações privilegiadas à acusação. “Tudo isso tornou a ida de Moro para o Supremo mais difícil, pois ele precisaria passar por uma sabatina rigorosa no Senado e porque vários parlamentares poderiam se sentir na vez de vingar-se do que eles reputam como perseguição da Lava Jato”, concluiu Carvalho.

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Sem chance de chegar ao STF e tendo seu poder cada dia mais reduzido pelo presidente, Moro, que segundo pesquisa Datafolha publicada no fim de 2019 tem índices de aprovação melhores do que os do próprio Bolsonaro, decidiu sair do governo atirando para todos os lados e acusou o presidente de tentar interferir politicamente na PF para proteger seus filhos, investigados pelo órgão. “Ele (Moro) identificou que o governo Bolsonaro estava indo para o buraco, sobretudo agora, durante a pandemia da covid-19, que está perdendo popularidade e que há um risco real do presidente cair, embora a gente não possa subestimar a legião de apoiadores que ele ainda tem. Ele já vinha sendo fritado pelo chefe, afinal nenhuma estrela pode brilhar mais do que a do presidente, e ele já vinha aparecendo em pesquisas como o único capaz de derrotá-lo nas urnas, por isso decidiu deixar o ministério dessa maneira. Agora, é atacado tanto pela esquerda quanto por bolsonaristas”, avaliou o cientista político Antônio Lucena.

Mas se a intenção de Sergio Moro é concorrer à presidência, o que ele fará até 2022 para não ser esquecido por seus potenciais eleitores? Vale lembrar que o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa era muito popular durante o julgamento do mensalão e muitos cogitavam sua candidatura à presidência, mas depois que ele se aposentou e deixou os holofotes, perdeu relevância política.

Para Vanuccio Pimentel, essa é uma questão sobre a qual o ex-juiz precisará se debruçar com bastante atenção, visto que até mesmo a sua saída do ministério parece não ter sido planejada. “Se Moro tivesse planejado sua saída do governo, provavelmente ele teria feito isso antes do dia 7 de abril, então poderia concorrer a algum cargo público nas eleições desse ano. Ele realmente corre o risco de perder relevância, até porque o inquérito que está correndo no STF (sobre a possível intervenção política do presidente na PF) também investiga possíveis crimes cometidos por ele e ninguém sabe, até agora, onde isso vai chegar. Esse é um conflito entre lavajatistas e bolsonaristas, mas não quer dizer que o Moro não será atingido. Ele corre o risco de sair do cenário, outra pessoa aparecer e a conjuntura mudar”, explicou.

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