Sergio Moro

Em entrevista, Moro afirma que Bolsonaro não apoiou combate à corrupção

Para o ex-juiz, sair do Ministério da Justiça e da Segurança Pública foi uma forma de não trair seus princípios

Vanessa Moura
Vanessa Moura
Publicado em 25/05/2020 às 8:25
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Reprodução/Rede Globo
Sergio Moro em entrevista a jornalista Poliana Abritta, no Fantástico, Rede Globo. Domingo (24). - FOTO: Reprodução/Rede Globo
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No último domingo (24), o ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, concedeu uma entrevista exclusiva a Poliana Abritta, onde falou a respeito de seus 16 meses integrando o governo Bolsonaro, comentou sobre o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril divulgado na última sexta (22) e afirmou que entregou o cargo para não trair seus princípios. Moro revelou ainda que Jair Bolsonaro (sem partido) não apoiou o combate a corrupção. A entrevista foi televisionada pelo programa Fantástico, da Rede Globo. 

Ao sair do ministério da Justiça e da Segurança Pública, há cerca de um mês atrás, Sergio Moro dirigiu sérias acusações a Bolsonaro, afirmando que o presidente havia tentado interferir politicamente em investigações da Polícia Federal. Um inquérito de apuração das denúncias foi aberto pelo Supremo Tribunal Federal, e uma reunião ministerial foi apontada como prova por Moro. Na época, o ex-ministro contou que, na reunião, Bolsonaro assumiu abertamente a intenção de obter informações privilegiadas da PF. 

Na sexta-feira (22), o vídeo da reunião em questão foi divulgado publicamente. Nas imagens, Bolsonaro afirma querer interferir na "segurança da ponta da linha" para proteger a família, defende o armamento e incentiva que a população não cumpra as medidas de isolamento social impostas para o controle da proliferação do novo coronavírus. Além disso, uma série de ataques a autoridades e instituições públicas foi feita na reunião, onde Sergio Moro, muitas vezes, aparece de braços cruzados, sem interferir. Atitude essa que foi questionada por Poliana Abritta durante a entrevista com o ex-ministro.

Moro afirmou que, embora não concordasse com muito do que foi dito na reunião, não havia espaço ali para o 'contraditório', além disso, apontou que teria uma reunião particular com o presidente onde trataria de determinadas questões. "Quanto às questões relativas à interferência da Polícia Federal, eu tinha uma reunião com o presidente na quinta-feira, no dia seguinte. E, sinceramente, acho que esses assuntos eram mais apropriados para serem discutidos numa reunião entre eu e o presidente". Questionado inclusive sobre a fala do ministro do Meio Ambiente, que sugere aproveitar o momento de pandemia para passar a 'boiada' na 'simplificação' das leis ambientais, Moro simplesmente responde que "não estava confortável naquela reunião" e que sentiu-se incomodado em "vários aspectos". 

Em outro momento, Moro salientou que faltou empenho por parte de Bolsonaro na agenda de combate a corrupção. "Me desculpe aqui os seguidores do presidente se essa é uma verdade inconveniente, mas essa agenda contra a corrupção não teve um impulso por parte do presidente da República". De acordo com o ex-ministro, medidas nesse sentido foram sendo "esvaziadas" pelo presidente, que agora faz alianças "questionáveis", nas palavras de Moro, com partidos do Centrão. 

Sergio Moro reitera a denúncia de tentativa de intervenção na PF, por parte do presidente, e diz que tinha a obrigação de revelar "a verdade por trás" de sua saída do governo. "O que aconteceu, na minha avaliação, uma interferência politica do presidente da república na Polícia Federal, tanto na direção-geral como também na superintendência do Rio de Janeiro".

Antes mesmo da reunião ministerial divulgada, Bolsonaro parecia já ter batido o martelo sobre a saída de Valeixo, então diretor-geral da PF. Em uma mensagem direcionada a Moro, o presidente escreveu: 'Moro, Valeixo sai esta semana. Está decidido. Você pode dizer apenas a forma: a pedido ou a ex-ofício (sic)'. Para o ex-juiz, isso demonstra que a argumentação de Bolsonaro, que garante não ter interesse de intervir na Polícia Federal, não é verdade. 

Para o ex-ministro, agora, cabe " às instituições - PGR, Polícia Federal e o próprio Supremo Tribunal Federal - fazer avaliação sobre esses fatos". 


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