HISTÓRIA

Os caminhos que levaram Dani Portela (PSOL) a tornar-se a vereadora mais votada do Recife

Da adoção até a vida política inspirada por Marielle Franco, conheça a história da nova ocupante da Câmara dos Vereadores do Recife

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 16/11/2020 às 16:06
Notícia

DIVULGAÇÃO
Danielle Gondim Portela (PSOL) foi eleita vereadora do Recife com 14.114 votos - FOTO: DIVULGAÇÃO
Leitura:

As duas palavras que mais se repetem no discurso de Danielle Gondim Portela, ou apenas Dani Portela, a vereadora mais votada do Recife na eleição desse domingo (16), com 14.114 votos, são as que ela também usa para se definir: mulher e negra. Os substantivos podem ser usados separadamente, por representarem dois entre os grupos sociais que mais sofrem com discriminações no Brasil, mas a convergência dos dois termos, para a historiadora e advogada, é o que há de mais potente em sua defesa política. É a primeira vez em que a candidata de 45 anos pelo PSOL concorre à Câmara Municipal do Recife, após ter apontado em 3º lugar para eleições do Governo do Estado em 2018.

» Confira o resultado final de todas as cidades de Pernambuco nas eleições 2020

» Índice de renovação na Câmara de Vereadores do Recife é 46%

» Eleições 2020: confira os vereadores eleitos no Recife

O começo da história de Dani é um mistério até para ela mesma. Adotada aos sete meses de vida no Recife, a socialista não sabe o dia e nem a hora em que nasceu, muito menos quem sejam seus pais biológicos, mas conta que foi acolhida por uma mãe, um pai e um irmão mais velho em um lar de amor e respeito. A família ensinou a repartir tudo o que ganhasse, com a perspectiva de que deveria fazer diferença não só na própria vida, mas também na do próximo. Só aos 17 anos, ela soube que havia sido adotada. “Sempre foi um assunto tabu com meus pais, só que eu olhava para a minha família e era muito distinto, então comecei a desenvolver a teoria de que eu tinha sido trocada na maternidade."

Criada em uma família branca, a vereadora eleita não se reconhecia como negra até a adolescência. “Passei a infância usando o cabelo trançado, contido, amarrado. Na adolescência, eu fazia teatro e contação de histórias em hospitais de criança com câncer, e aí uma delas pediu para eu soltar o cabelo e respondi, na minha imaturidade dos meus 15 anos, que não gostava dele. Ela disse, ‘tia, eu queria pelo menos ter cabelo’. Aquilo foi tão impactante para mim que me fez questionar por que o volume, os cachos e os traços da minha negritude me incomodavam, e como eu precisava me compreender como uma mulher negra”, revela.

Foi também na juventude que Dani se descobriu professora. “Com 14 anos, recebi de presente um curso de alfabetização de adultos pelo método Paulo Freire. Foi ali que se abriu um universo na minha mente que alfabetizar e ensinar a ler é muito mais do que juntar sílabas e formar palavras, mas [é sobre] ler o mundo e transformar a realidade de maneira crítica”. Posteriormente, ela se formou em direito pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Mas, seja no caminho da advocacia ou no da educação, ambos tinham como fim a defesa dos direitos das minorias. “Sempre olhei para questões de gênero e de violência entendendo que a centralidade é o enfrentamento às opressões, sejam elas de classe, de raça ou de gênero”, disse.

Mãe de uma adolescente de 17 anos, Dani, que é divorciada, mora hoje com um companheiro e é “boadrasta” (como ela se intitula, em uma junção das palavras ‘boa’ e 'madrasta‘) de seus dois filhos, de 10 e 8 anos. Ela também integra o movimento “Partida”, que significa partido no feminino. “É um movimento suprapartidário mas que busca provocar essa maior participação das mulheres nos espaços de poder”, explica. O coletivo auxilia mulheres a serem eleitas em cargos de decisão, desde conselhos de moradores e conselhos tutelares, até no legislativo, no executivo e no judiciário. Além disso, apesar de não ser membra, elenca como fundamentais em sua trajetória política o Foro de Mulheres de Pernambuco e a Rede de Mulheres Negras.

Início da vida política

Foi no dia 31 de agosto de 2016, quando a primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Rousseff (PT), sofreu um impeachment na Câmara dos Deputados, em Brasília, que Portela decidiu ingressar na política. Mais especificamente quando o atual chefe do executivo do País, Jair Bolsonaro (sem partido), dedicou seu voto ao impedimento da continuidade do mandato de Dilma ao General Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), declarado pela Justiça como um torturador na ditadura militar. Ustra não foi apenas o “pavor” na vida da petista, como disse Bolsonaro em discurso, mas também do pai de Dani, Eribaldo Portela, preso político do regime militar. Por ser informante, ele ficou desaparecido durante alguns anos nos porões do DOPS, no Rio de Janeiro, e, devido às torturas, ficou estéril. “Naquele dia, com aquela declaração de voto, eu decidi que queria ocupar esse espaço; e ocupar, não Dani, não sozinha, mas como se meu corpo significasse muitos e muitas que estão chegando comigo”, conta.

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) foi escolhido por Dani por ter, segundo ela, “paridade de gênero nas instâncias de decisão”. “Eu nunca tive dúvida em relação ao PSOL. Ao longo da história, sempre votei na esquerda, no Partido dos Trabalhadores, um partido que me representa muito, mas o PSOL trouxe uma coisa que me chamou atenção e que fez com que eu me aproximasse: é praticamente o único partido que tem paridade de gênero nas instâncias de decisão. Temos 50% de mulheres e de homens nos diretórios municipais, estaduais e nacionais. Fui para um partido em que as mulheres têm o poder de decidir. Decidir a política que vai defender, decidir as propostas, decidir a centralidade da atuação com liberdade”, explica. Na entrevista, ela deixa claro que não está só “com o partido político, mas com os movimentos sociais”.

Já a decisão pela candidatura ao Governo do Estado em 2018 aconteceu durante um encontro de mulheres negras em São Paulo, quando a então vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (Psol), morta em março daquele ano, disse à recifense que ‘‘quando uma mulher sobe, ela puxa a outra’. “Foi ela quem trouxe para centralidade que não se pode mais silenciar a voz de uma mulher, que eu sou porque nós somos, porque construímos juntas, que eu decidi ser candidata. [...] Em Pernambuco, a terra de Zumbi dos Palmares, no Nordeste de Dandara dos Palmares, de tantos e tantas que resistiram antes da gente”, diz, e completa: “Uma frase de Angela Davis que eu repito muito é ‘quando as mulheres negras se movimentam, elas movimentam a estrutura com elas’, porque estamos na base dessa pirâmide de opressões. Que mais mulheres negras se coloquem na centralidade dos espaços de tomada de decisão.”

A campanha para a Câmara

Oito pessoas na rua, uma jornalista para comandar a assessoria e as redes sociais, um fotógrafo e dois videomakers. Essa foi a equipe que levou Dani à primeira colocação nas eleições para vereadores, em uma campanha feita nas periferias. “Passei a campanha andando nas comunidades, conversando com muitas mulheres em morros, nas beiras dos mangues e rios, por entender que essas mulheres são atrizes políticas de transformação social. As pessoas olhavam e diziam ‘você parece com a minha filha’. É sobre esse parecer que é físico, mas que também é um parecer político. Se parece com os nossos. Infelizmente, os nossos não chegam nesses espaços de decisão, então é sobre representatividade”, defende. Quando questionada, a advogada afirma que o resultado, dedicado a Marielle Franco, foi uma surpresa, mas que “esperava que tivesse uma vitória política porque a construção foi muito bonita”.

Na última eleição para vereadores do Recife, em 2016, uma mulher também foi a primeira colocada. O curioso é que ela, a missionária Michele Collins, é de um espectro político totalmente oposto ao de Dani. Conservadora e evangélica, a candidata do Progressistas também conseguiu vaga na Câmara para o mandato que começa em 2021, mas, dessa vez, em 24º lugar, de 39 vagas. Além de Dani e Michele, apenas outras cinco mulheres foram eleitas, representando aproximadamente 17,9% da casa. “A gente sabe que existe em curso um poder teocrático em nosso país. As eleições de 2018 revelaram um maniqueísmo e uma exaltação ao nacionalismo e à religiosidade em um país que é laico, que tem religiosidades diversas e plurais. Ter, em uma eleição anterior, uma mulher desse campo conservador e ter, na eleição seguinte, uma mulher da esquerda progressista, é trazer uma força e é uma reparação histórica.”

Por cruzar sua própria vida, na Câmara, Portela pretende tratar a pauta da adoção como central, com ações de fiscalização aos abrigos, assistência às crianças, garantia de direitos e da adoção tardia. Ela elenca os negros e negras, mulheres e crianças como sujeitos principais do mandato entre 2021 e 2024. “As pautas centrais se colocam no enfrentamento às opressões, sejam elas de classe, gênero ou de raça. Vai ser um mandato que vai construir muito esse enfrentamento ao racismo, porque acredito que ele é estrutural para as demais desigualdades”, afirma. Sobre o feminismo, ela explana que a “luta é por uma democracia que passe pelas nossas vozes, lutas e corpos.”. Além desses, outro assunto importante para Dani é a acessibilidade, “não só pensando em calçadas e acessos, mas na acessibilidade comunicacional”.

A marca registrada de Dani Portela é uma flor, sempre posicionada em seus cabelos crespos, pretos e volumosos. A imagem foi usada em todo o material de campanha, mas a vereadora eleita explica que, na verdade, é um acessório que a acompanha há muito anos. “A flor vem desse processo da adolescência em que eu soltei meu cabelo, entendi que o volume dele e que meus traços falavam sobre a minha negritude e ancestralidade. Eu tenho inúmeras, não tem a ver com marketing, tem a ver comigo, com minha negritude, mas entendi que era reconhecida por ela. A flor fazia com que as pessoas me identificassem”, relata. Dani, então, ficou conhecida como “mulher da flor”, o que, para ela é o símbolo da semeadura por uma cidade melhor.

Comentários

Últimas notícias