EUA

Após invasão do Congresso norte-americano, especialistas analisam possíveis consequências do ato para o Brasil

Impactos do movimento que ocorreu nos Estados Unidos passa por ações do presidente Jair Bolsonaro, segundo os analistas. O militar da reserva, contudo, não fez nenhum movimento no sentido de rechaçar o que ocorreu

Renata Monteiro
Renata Monteiro
Publicado em 07/01/2021 às 15:02
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Apoiadores do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entram na Rotunda do Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, em Washington, DC - FOTO: AFP FOTOS
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Diante da violenta invasão do Congresso norte-americano por apoiadores do presidente Donald Trump na última quarta-feira (6), analistas políticos ouvidos pelo JC afirmam que o ataque pode gerar ecos em outros Países, entre eles o Brasil. Por aqui, na manhã desta quinta-feira (7), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a afirmar - sem citar diretamente o caso do Capitólio - que se o modelo de votação eletrônica existente no País não mudar, em 2022 "nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos".

O modo como Bolsonaro age lembra muito os movimentos de Trump. Desde a campanha de 2020, o presidente norte-americano vem afirmando que as eleições foram fraudadas, muito embora nunca tenha apresentado nenhuma prova disso. Não satisfeito com as acusações, ontem pela manhã o republicano fez um discurso na Casa Branca incentivando seus apoiadores a protestarem no Congresso, que naquele dia faria uma sessão para certificar a vitória de Joe Biden no pleito.

"Houve uma clara incitação do presidente Donald Trump à invasão. Ele fez aquele discurso e incentivou um ato de sedição. Isso é uma coisa extremamente grave nos Estados Unidos. É a primeira vez que um presidente eleito faz isso. A única vez em que houve uma invasão ao Congresso americano foi na época do domínio inglês", pontuou o cientista político Antônio Lucena, da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

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Lucena afirma, ainda, que a principal motivação de Trump ao provocar um motim como o que ocorreu no Capitólio seria "manter o trumpismo vivo", mesmo com a derrota nas urnas. O analista ressalta, no entanto, que diferentemente do Brasil, a democracia dos Estados Unidos é "robusta", "madura", então mesmo que Trump tenha colocado o sistema norte-americano sob suspeição, um rompimento democrático por lá seria bem mais difícil.

"O presidente Jair Bolsonaro também tem dito que o sistema eleitoral brasileiro é falho, já levantou a bola de que as eleições teriam sido fraudadas, também não apresentou provas, e provoca uma espécie de cacofonia ao que o presidente Trump vem fazendo. O problema é que nós não temos uma democracia robusta como a dos americanos. Lá, as instituições estão muito mais consolidadas. Nossa democracia é muito jovem e a gente precisa ficar atento porque a mesma coisa que ocorreu lá, pode ocorrer aqui", argumentou Lucena.

Professor do curso de relações internacionais da Faculdade Damas, Bianor Teodósio chama atenção para o fato de que, apesar de um rompimento institucional entre Brasil e Estados Unidos estar praticamente descartado, diante da mudança no governo norte-americano, o presidente Jair Bolsonaro precisará rever alguns posicionamentos para evitar um distanciamento com o governo Joe Biden. "Os Estados Unidos sempre foram um parceiro político e econômico do Brasil, mas, hoje, há uma aproximação do atual presidente brasileiro com o presidente norte-americano que causou todo esse problema. O Brasil precisa urgentemente se posicionar com relação a uma diplomacia pragmática, reafirmando os seus processos democráticos. Só assim o País pode se colocar como um parceiro preferencial dos Estados Unidos, como sempre foi", detalhou Teodósio.

De acordo com o docente, caso Bolsonaro não assuma uma posição de isenção nessa seara, além de enfrentar os efeitos das crises econômica e sanitária provocadas pela pandemia de covid-19, terá que lidar com as pressões do novo governo dos Estados Unidos que não existiriam caso ele fosse visto como um aliado. "Enquanto o nosso País e o Itamaraty não se pronunciarem sobre esse tema, existe o risco de que o próximo governo americano cobre mais do Brasil posições que ele não cobraria se a gente estivesse alinhado de maneira mais programática. Quando eu falo de cobranças, me refiro às questões ambientais, acordos político-econômicos. Esse alinhamento pessoal de Bolsonaro com Trump é uma ameaça para nós sob todos os aspectos, desde a estrutura do País até sob o ponto de vista comercial", completou o analista.

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