DENÚNCIA

Governo Bolsonaro pediu propina de US$ 1 por dose de vacina contra covid-19, diz jornal

Segundo a Folha de S.Paulo, representante da empresa Davati Medical Supply afirmou que proposta partiu de Roberto Dias, diretor de Logística do Ministério da Saúde

Amanda Azevedo Paulo Veras
Amanda Azevedo
Paulo Veras
Publicado em 29/06/2021 às 21:37
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TÂNIA REGO/AGÊNCIA BRASIL
Até o dia 19 de junho, 1.268 doses do imunizante fora da validade foram ministradas em Pernambuco - FOTO: TÂNIA REGO/AGÊNCIA BRASIL
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Atualizada à 0h10 de 30/06/2021

O representante de uma vendedora de vacinas teria dito em entrevista à Folha de S.Paulo que recebeu pedido de propina de US$ 1 por dose em troca de fechar contrato com o Ministério da Saúde. As informações foram publicadas pelo jornal na noite desta terça-feira (29).

Segundo a Folha, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que se apresenta como representante da empresa Davati Medical Supply, disse que o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, cobrou a propina em um jantar no restaurante Vasto, no Brasília Shopping, na capital federal, no dia 25 de fevereiro. O jornal acrescenta que Roberto Dias foi indicado ao cargo pelo líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Sua nomeação ocorreu em 8 de janeiro de 2019, na gestão do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM).

Na semana passada, Barros foi apontado pelo também deputado Luis Miranda (DEM-DF) e pelo seu irmão, Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, de ter participado em irregularidades no contrato para a compra da vacina indiana Covaxin.

De acordo com a Folha, a Davati procurou o governo federal para oferecer 400 milhões de doses do imunizante desenvolvido pela Astrazeneca e a Universidade de Oxford. Na época, cada dose sairia por US$ 3,5 (o equivalente a R$ 17,35 pela cotação desta terça-feira).

"Eu falei que nós tínhamos a vacina, que a empresa era uma empresa forte, a Davati. E aí ele falou: 'Olha, para trabalhar dentro do ministério, tem que compor com o grupo'. E eu falei: 'Mas como compor com o grupo? Que composição que seria essa?'", afirmou Dominguetti à Folha

Foi aí que Dias teria apresentado a proposta de majorar o valor do imunizante para viabilizar o negócio. O empresário teria dito que esse tipo de acordo não era possível porque as doses vinham do exterior e, lá, as companhias não operavam dessa maneira.

A solução apresentada pelo diretor do ministério seria adicionar um dólar ao valor de cada dose. Com a cotação atual, US$ 400 milhões equivalem a R$ 1,984 bilhão. "Foi uma coisa estranha porque não estava só eu, estavam ele e mais dois. Era um militar do Exército e um empresário lá de Brasília", descreveu Dominguetti à Folha.

Ao jornal, o empresário disse ter certeza que conversou com o representante do governo federal. Sugeriu que os dados telemáticos do seu celular e as câmeras de segurança do local podem ser usadas para confirmar o encontro.

Como Dominguetti rejeitou o acordo, Dias teria pedido para que ele pensasse e voltou a chamá-lo para ir à pasta dois dias depois. Ele teria pedido ao empresário para esperar numa sala, enquanto concluía uma reunião.

"Disso, eu recebi uma ligação perguntando se ia ter o acerto. Aí eu falei que não, que não tinha como. Isso, dentro do ministério. Aí me chamaram, disseram que ia entrar em contato com a Davati para tentar fazer a vacina e depois nunca mais. Aí depois nós tentamos por outras vias, tentamos conversar com o Élcio Franco, explicamos para ele a situação também, não adiantou nada. Ninguém queria vacina", afirmou ao jornal.

A Folha disse que tentou contato com Roberto Dias, mas não teve sucesso. Por meio de nota, Ricardo Barros disse desconhecer a denúncia. "Em relação à matéria da Folha, reitero que Roberto Ferreira Dias teve sua nomeação no Ministério da Saúde no início da atual gestão presidencial, em 2019, quando não estava alinhado ao governo. Assim, repito, não é minha indicação", afirmou o deputado.

Saúde anuncia exoneração de diretor citado em denúncia

Após a publicação da Folha, o Ministério da Saúde divulgou uma nota na qual anunciou a exoneração de Roberto Dias, diretor de Logística.

A pasta não explica o motivo da exoneração, dizendo apenas que a decisão foi tomada durante a manhã desta terça-feira (29).

"O Ministério da Saúde informa que a exoneração de Roberto Dias do cargo de Diretor de Logística da pasta sairá na edição do Diário Oficial da União desta quarta-feira (30). A decisão foi tomada na manhã desta terça-feira (29)", informou o ministério.

CPI da Covid

O presidente da CPI da covid, Omar Aziz (PSD-AM), disse, após a publicação da entrevista, que convocará o empresário para prestar depoimento na próxima sexta-feira (2). Um pedido para convocação de Dias já estava sendo estudado anteriormente pela comissão.

Repercussão entre oposição e bolsonaristas

De um lado, a oposição destacando a denúncia da Folha de S. Paulo como mais um motivo para o impeachment de Jair Bolsonaro. Do outro, apoiadores do presidente mostrando-se um pouco desconsertados.

O presidenciável, ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes (PDT) convocou a população às ruas. "Empurra que ele cai. Todo mundo na rua, se protegendo. Fora, Bolsonaro, ladrão Safado", disse o pedetista. Rapidamente, a frase chegou aos assuntos mais comentados do Twitter.

Aliada de primeira hora de Bolsonaro, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) publicou um vídeo com os olhos marejados nas redes sociais. "Estamos apanhando sem parar. E aí? Qual é a nossa situação e o que fazer?", questionou a deputada. "A gente está um pouco cansado, porque não tem nada que a gente possa fazer além do que estamos fazendo", confessou a parlamentar.

O senador Humberto Costa (PT) disse que as denúncias são "demolidoras". "Se forem verdadeiras, constataremos que a compra de vacinas foi usada para a prática de corrupção deslavada. Mais do que nunca a CPI da Covid tem que aprofundar sua investigação", afirmou o petista. Segundo o pernambucano, a CPI espera "obter provas robustas para esclarecermos as responsabilidades nesse trágico enfrentamento à pandemia por parte desse governo".

Para defender o governo, o deputado federal bolsonarista Bilbo Nunes (PSL-RS) admitiu a possibilidade de algum representante do Executivo ter se corrompido. "Se tem cabimento dizer que o Governo do Brasil pediu propina de 1 dólar, na vacina Astrazeneca. Uma pessoa pode até ser, mas um governo é ridículo demais. Urubus fazem de tudo para tentar culpar Bolsonaro", escreveu.

Líder do PSB na Câmara, o deputado federal Danilo Cabral disse que os partidos de oposição vão cobrar apuração do Ministério Público Federal (MPF) sobre as denúncias, que ele considera graves. "Não está fácil a vida dos advogados da oposição… Não conseguem fechar o 'superpedido' de impeachment do Bolsonaro. Quando estão perto de concluir a peça, surge uma nova denuncia", ironizou.

A deputada estadual por São Paulo Janaina Paschoal (PSL) fez um apelo a Bolsonaro. "Presidente, manda apurar e afasta quem deve ser afastado! Há situações que necessitam ser enfrentadas rapidamente. Não adianta aguardar. Ninguém vai resolver", se pronunciou.

Críticas também foram feitas pela deputada federal Marília Arraes (PT). "No meio de uma pandemia não se pode contar com o Ministério da Saúde porque estão negociando como vão lucrar na compra de vacinas", disparou a petista. Seu colega de bancada, o deputado federal Carlos Veras (PT) disse que "a casa caiu".

 

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