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Concursos de miss flertam com o novo

Coordenador do Miss PE, Miguel Braga acredita que disputas têm se adaptado às conquistas femininas

NATHÁLIA PEREIRA
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NATHÁLIA PEREIRA
Publicado em 27/05/2017 às 6:00
Fotos: AFP/Facebook/Divulgação
Coordenador do Miss PE, Miguel Braga acredita que disputas têm se adaptado às conquistas femininas - FOTO: Fotos: AFP/Facebook/Divulgação
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Há cerca de 15 dias, Kara McCullough foi eleita a mulher mais bonita dos Estados Unidos. Junto à faixa de Miss, a candidata do distrito de Columbia ostentou a representação de um tipo de perfil em ascensão nos concursos de beleza feminina. Aos 25 anos, a jovem foi destaque em noticiários não apenas pelo título conquistado, mas por ser negra e cientista da Comissão Reguladora Nuclear dos EUA. As opiniões polêmicas de Kara sobre assuntos como o sistema público de saúde norte-americano foram a cereja do bolo: além das mudanças no estereótipo físico, as perguntas feitas às misses agora têm respostas não tão inocentes como nos primórdios.

Realizado desde 1954, o Miss Brasil demorou 32 anos para coroar Deise Nunes, primeira mulher negra eleita símbolo da beleza nacional. Quase o mesmo tempo separou o reinado da gaúcha da vitória da baiana Raíssa Santana, Miss Brasil 2016 pelo Paraná. Em Pernambuco, ao longo de 61 anos, a única negra eleita foi Ana Maria Guimarães, em 1988, que desfilava com faixa e coroa quando recebeu manifestações racistas vindas da plateia.

“Ana foi vaiada, jogaram um copo com bebida e pontas de cigarro nela”, relembra o colunista social e “missólogo” Fernando Machado. O hiato desde a vitória de Ana Maria pode ser quebrado este ano, já que quatro das 21 candidatas ao Miss PE 2017, exibido hoje à noite pela TV Tribuna, têm pele negra.

Coordenador do concurso há 27 anos, Miguel Braga acredita que as disputas têm se adaptado às conquistas femininas. “Este ano, a maioria das meninas é universitária, tem profissões. Essa é a nova mensagem, resgatar o sonho de cinderela de forma atual: uma mulher que trabalha, que pode casar, ter filhos, namorar. Ela faz tudo, mas tem tempo pra ela, pra se manter bonita”, comenta.

Apesar de tais disputas não abrirem mão de exigências como altura mínima e peso “harmonioso”, ele considera que a flexibilidade tem se tornado um caminho permanente.“Beleza é um estado de espírito, ninguém tem direito de dizer que A ou B não está dentro dos padrões. É você que tem que estar dentro do seu padrão de beleza, aí você se torna a mais bonita do mundo”.

A opinião é compartilhada pela representante da capital, Keron Linn, de 18 anos. “A cultura, força e garra da faixa que carrego representam as mulheres em geral não só as de mesma origem que eu”, defende ela. Saída de uma recente transição capilar, a Miss Caruaru, Vanessa Arcoverde, se destaca por ostentar os cachos volumosos. “Assumir minha identidade foi a decisão mais importante da minha vida”, afirma.

OUTRO LADO

Na corrente oposta ao discurso das organizações de concursos está, principalmente, a militância feminista. Por ocasião do Miss Universo 2015, quando o anfitrião Steve Harvey anunciou a vencedora errada, ao vivo, a blogueira feminista Jessica Valenti publicou no britânico The Guardian artigo no qual questiona a vigência de tais eventos.

“Harvey não conseguiu distinguir uma mulher bonita da outra e isso é quase poético, porque em concursos como Miss Universo, Miss América e Miss Estados Unidos, as mulheres são símbolos, sem um nome além do Estado ou país que representam. São eventos que expõem mulheres como seres disputando pelo direito de ser o objeto mais brilhante”, sentencia.

Menos de dois anos depois, o termo “empoderamento” parece ter chegado para marcar época, tomando conta dos concursos e abrindo ainda mais a discussão em torno do papel que representam.

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