Escada para Lava Jato

Biógrafo de Lula usa livro para criticar imprensa nacional

Críticas ao trabalho da imprensa são terceirizadas pelo ex-presidente e assumidas pelo biógrafo oficial

JAMILDO MELO
JAMILDO MELO
Publicado em 13/12/2021 às 10:46
FABIO RODRIGUES POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL
O 2º lugar nos gastos foi em 2007, quando Lula e aspones fizeram o pagador de impostos bancar gastos de R$ 76,2 milhões - FOTO: FABIO RODRIGUES POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL
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O jornalista Fernando Morais, autor da biografia oficial de Lula, livro que acaba de chegar às livrarias ao lado do livro do ex-juiz Sérgio Moro, teve a preocupação de escrever um apêndice na obra especial e exclusivamente para criticar o trabalho da imprensa nos anos recentes, em especial depois do lançamento da operação Lava Jato, pela Justiça de Curitiba, a partir de 2014.

Oficialmente, Lula pode afirmar que as palavras são do biógrafo, mas o ex-presidente já vocalizou até mesmo desejo de enquadrar o setor com uma proposta de regulamentação da mídia. Depois recuou.

São 14 páginas com um único juízo de valor, resumido no título. "Uma radiografia do comportamento dos grande veículos de comunicação na guerra contra Lula e seu partido".

EDUARDO MATYSIAK / AFP
Moro é pré-candidato à Presidência da República pelo Podemos - EDUARDO MATYSIAK / AFP

O ex-juiz Sérgio Moro também é alvo da pregação, uma vez que o autor usa dados do Dieese para afirmar que os prejuízos com a operação Lava Jato foram infinitamente maiores (cerca de R$ 172 bilhões em investimentos e 4,4milhões de desempregados) do que o que supostamente foi obtido com recuperação de ativos, na casa dos R$ 4,2 bilhões. No seu livro, em comparação, como que antecipando uma resposta, Moro escreve que a corrupção é areia nas engrenagens do capitalismo nacional.

"A alavanca que moveu o Brasil a favor de Moro e durante meses cravou na testa de Lula a pecha de "ladrão" tem nomes, donos e endereços públicos: os grandes veículos de comunicação do país", escreve, tendo como base um estudo exclusivo para o livro de uma instituto chamado "Manchetômetro", da UERJ e tocada pelo cientista político João Feres Júnior.

A exemplo de Bolsonaro, um dos principais alvos é a Rede Globo de Televisão, secundados pela Bandeirantes e os canais do pastor Edir Macedo, da Igreja do Reino De Deus, bem como Folha de São Paulo, Estadão, Globo e a revista Veja, no impresso.

Morais, com base no estudo, reclama que os três maiores jornais brasileiros publicaram em média mais de uma manchete diária "contrária a Lula", no período. "A vitória de Bolsonaro nas eleições, em outubro de 2018, ao contrário do que se poderia supor, não tirou Lula da mira dos três jornais, que prosseguiram na espantosa campanha", aponta. "Nos editoriais, idem, era uma marretada por dia", observa. Ele cita 28 positivos em 2173 editorias dos três maiores jornais, nos três anos que antecederam as eleições de 2018.

Fernando Morais diz que, entre os três jornalões, o Estadão "foi de longe o mais implacável algoz de Lula". No entanto, de acordo com o biógrafo, "nada se compara à cobertura do televisivo Jornal Nacional, do qual se esperaria alguma isenção editorial", afirma. "Ao longo do período avaliado pelo Manchetômetro foram apenas 21 citações positivas contra 705 negativas e 403 neutras", contabiliza. Em tempo de tV, seriam 43 horas de pau, contra uma hora de notícias favoráveis. O próprio Lula já usou a mesma estatística em entrevistas depois de sair da prisão.

"A intensidade da artilharia deu resultado; alvo principal da operação, Lula foi condenado por Moro a nova anos e seis meses de reclusão pela acusação de haver recebido um apartamento triplex na cidade do Guarujá, no litoral Paulista", concluiu, referindo-se a abril de 2018, quando é decretada a prisão do ex-presidente.

"A criminosa lambança jurídica que juntou Moro, setores do Ministério Público, da Polícia Federal e da Justiça não adquiriria a relevância que obteve sem o conluio da maioria dos grandes meios de comunicação com um só propósito: dar fim à trajetória política de lula e esvurmá-lo da vida pública com a fama de corrupto. Ele e seu partido, o PT", afirma, em suas conclusões.

O biógrafo faz apenas uma concessão aos meios de comunicação a partir do início de 2021, quando as noticias neutras ultrapassam as negativas. Mas o mérito não é dado aos meios de comunicação. "O período coincide com a reviravolta na Lava Jato, quando o Supremo anula os processos contra Lula, restituindo o direito de se candidatar à Presidência da República, além de aceitar a acusação de suspeição e parcialidade contra o ex-juiz Sergio Moro"

Morais também critica a Veja, hoje em crise. "A Veja demonizou Lula em quase todas as suas publicações".

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