Patrimônio

Obra recupera traços barrocos da Igreja da Misericórdia de Goiana

Igreja da Misericórdia pertence à Santa Casa de Goiana. A intervenção também contempla a recuperação do prédio do antigo hospital da irmandade

Cleide Alves
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Cleide Alves
Publicado em 24/07/2016 às 8:08
Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
Igreja da Misericórdia pertence à Santa Casa de Goiana. A intervenção também contempla a recuperação do prédio do antigo hospital da irmandade - FOTO: Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
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A Igreja da Misericórdia de Goiana, relíquia da arquitetura barroca do século 18, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, está trocando de roupa. A mudança teve início em março de 2016, quando uma obra de restauração começou a despir a edificação de pinturas indevidas, remendar portas esburacadas, consertar janelas quebradas e refazer os assoalhos e cobertas desgastados pelo uso.

Num trabalho artesanal, a remoção de camadas de tinta da cimalha (acabamento entre o teto e a parede) e das molduras do púlpito e dos balcões deixou aparente a cantaria de 1720, época da construção do templo católico. A pintura foi tirada com bisturi, manualmente, para não causar danos à pedra, diz Giulya Galindo, técnica em edificações da empresa LMA Empreendimentos, responsável pela obra.

A intervenção no conjunto arquitetônico irmandade – a igreja e o prédio anexo onde funcionava o hospital – é financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e será executada em duas etapas, até abril de 2018. “Assinamos um contrato com a instituição financeira no valor total de R$ 8,5 milhões”, declara Bosco Rabello, provedor da Santa Casa de Misericórdia de Goiana.

Na primeira fase são realizados serviços de recuperação da torre sineira, esquadrias, cantaria, pisos, coberta (incluindo o telhado do anexo), janelas, portas e instalações elétricas, além da pintura interna da igreja. A restauração da capela, do altar-mor e do piso de pedra da igreja está contemplada na segunda etapa, assim como a adaptação dos imóveis a outros usos.

Vamos conciliar as atividades religiosas com salas para exposições, exibição de filmes e espetáculos de dança, teatro e música”, avisa Bosco Rabelo. O projeto, diz ele, prevê uma sala de cinema e um auditório multimídia no primeiro piso do anexo. E uma sala para exposições no andar térreo. O dinheiro para a compra dos equipamentos está assegurado pelo banco.

A nave central da igreja receberá as apresentações artísticas, aproveitando a boa acústica do prédio, destaca o provedor. “Para manter a qualidade, instalamos uma manta de lã de vidro na igreja e o mesmo será feito no anexo”, afirma. Uma das galerias laterais do templo será aproveitada como sala de pesquisa. Lá, os interessados encontrarão documentos do acervo de três séculos da Santa Casa, digitalizados.

Giulya informa que a primeira fase da obra está prevista para terminar em agosto. Porém, a liberação da verba para a segunda etapa está condicionada à remoção das barracas de feira que cercam a igreja e fecham o acesso de veículos ao prédio histórico, destaca Bosco Rabello. “A transferência dos feirantes para outra área está prevista para o fim deste ano (2016)”, diz ele.

Com 296 anos de construída, a Igreja da Misericórdia preserva a arquitetura de origem, acrescenta Bosco Rabello. “Só o altar, destruído num incêndio no século 19, está diferente porque foi refeito no estilo rococó”, comenta. “Descobrimos em toda a fachada e nas quatro faces da torre sineira um revestimento de marmorino que será recuperado”, diz o provedor.

O prédio integra um circuito de nove igrejas históricas de Goiana, representantes dos século 16 ao 19. Todas precisam de reparos. Sete delas ficam no Centro da cidade. “As igrejas eram divididas por classe social”, observa Bosco Rabello, citando como exemplo Nossa Senhora da Conceição, frequentada por pardos cativos, e Nossa Senhora do Amparo, dos pardos ricos.

“Goiana tem muita história para contar pelas igrejas”, observa Marcelo do Nascimento, que vende temperos na feira em volta da Misericórdia. “A cidade estava precisando dessa obra, vai ser bom para todo mundo, mas seria melhor ordenar as barracas aqui mesmo”, diz a feirante Luciana Miranda. O prédio está fechado para intervenções há cerca de quatro anos.

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