Patrimônio

Arquidiocese restaura imagens de santos do século 17

As imagens de Santo Inácio de Loyola e de São Francisco Xavier pertencem ao Seminário de Olinda

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 30/01/2019 às 15:33
Foto: Sérgio Bernardo/Acervo JC Imagem
As imagens de Santo Inácio de Loyola e de São Francisco Xavier pertencem ao Seminário de Olinda - FOTO: Foto: Sérgio Bernardo/Acervo JC Imagem
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Numa sala no oitão da Igreja da Sé, na Cidade Alta de Olinda, duas restauradoras e um entalhador trabalham de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 17h, para trazer de volta os traços originais de imagens de santos e objetos antigos do acervo da Arquidiocese de Olinda e Recife. Pouco a pouco, num trabalho de formiguinha, eles vão limpando as peças, removendo camadas de tinta que cobriam a pintura primitiva e recompondo na madeira as partes perdidas por ataques de cupim.

A obra de restauração, contratada pela arquidiocese, teve início em novembro de 2018 e se estenderá até fevereiro de 2019. Nesse período, o grupo vai recuperar a cátedra usada por professores para dar aulas no Seminário de Olinda, no Alto da Sé, além das imagens de Santo Inácio de Loyola, que fundou a Companhia de Jesus em 1540, e de São Francisco Xavier (missionário jesuíta, 1506-1552) da Igreja de Nossa Senhora da Graça. As edificações ficam no mesmo terreno e estão interditadas.

“Reza a lenda que a cátedra pertenceu ao padre Antônio Vieira (1608-1697), mas não creio que seja verdade. Padre Vieira (missionário da Companhia de Jesus) viveu no século 17 e há um adorno no móvel, em forma de concha, característico do estilo rococó, do século 18”, afirma padre Murilo Bentinho, membro da Comissão de Conservação e Restauro da Arquidiocese. Para chegar à cor verde com detalhes amarelos da peça foram retiradas três camadas de pintura, em tons de marrom, azul e vermelho.

A cátedra feita de madeira (amarelo vinhático) e pintada é uma raridade diz a restauradora Weydes Santos da Silva. “O mais comum é a madeira sem pintura”, observa. Frisos e ornatos danificados ou perdidos no móvel foram recriados pelo entalhador João Luiz da Silva, que usou como referência as partes conservadas. Ele executou o mesmo serviço para recompor a liteira (cadeira de arruar) do acervo da Catedral, confeccionada em cedro e de origem desconhecida.

Cadeira conduzida por escravos para o transporte de pessoas nas ruas, a liteira da Sé exibe novamente a pintura alaranjada com detalhes florais que estava escondida por baixo de uma camada de tinta marrom. Tanto a cadeira de arruar quanto a cátedra não possuem mais a porta de acesso ao interior da peça. “Foram fechadas em intervenções anteriores”, diz padre Murilo Bentinho.

ORIGENS

As imagens de Santo Inácio de Loyola e de São Francisco Xavier remetem à origem do prédio, construído no século 16 no ponto mais alto de Olinda para abrigar o colégio da Companhia de Jesus. O seminário só é instalado na edificação no ano de 1800. Feitas de pinho de riga, nos séculos 17 ou 18, as duas esculturas apresentavam danos causados por cupins e enxertos de gesso de restaurações realizadas no passado.

As restauradoras Weydes e Vilma Santos da Silva estão retirando o gesso e substituindo as áreas perdidas com madeira (cedro).“Os dedos da imagem de Santo Inácio de Loyola tinham sido quebrados num acidente, quando o ajudante de um fotógrafo tropeçou no báculo (bastão) que ele segurava em um das mãos, e foram restaurados”, comenta padre Murilo Bentinho. “Não sabemos de onde vieram, mas há um Santo Inácio idêntico a esse na Igreja do Divino Espírito Santo, na Praça Dezessete (Centro do Recife)”, diz.

Depois de restaurado, o acervo será levado para o Museu de Arte Sacra de Pernambuco, no Alto da Sé. “Nossa intenção é continuar o trabalho com a restauração de altares laterais e de outras três imagens da capela do Seminário, com representações de Nossa Senhora da Graça, de São José e do Cristo Crucificado”, diz o sacerdote. O Seminário de Olinda e a Igreja da Graça não recebem visitas desde maio de 2015 quando a Defesa Civil da cidade interditou as edificações devido a avarias generalizadas.

No momento, os prédios passam por intervenção emergencial na coberta e a Arquidiocese de Olinda e Recife ainda está à procura de parceiros para conseguir os recursos necessários à obra completa de restauração.

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