Arquitetura social

Arquitetura e urbanismo a serviço de comunidades no Grande Recife

Coletivo Vendaval Catalisadora e Cooperativa Arquitetura Urbanismo & Sociedade oferecem assessoria e consultoria

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 11/06/2019 às 8:08
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Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
Coletivo Vendaval Catalisadora e Cooperativa Arquitetura Urbanismo & Sociedade oferecem assessoria e consultoria - FOTO: Foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem
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O arquiteto, como todo mundo sabe, é aquele profissional que cria projetos de edifícios, casas e cidades. Porém, quando ele se une a cientistas políticos com afinidades de pensamento os horizontes se abrem. Assim, tanto pode ajudar uma nação de maracatu a arrecadar recursos para a reforma da sede do grupo quanto abrir campanha de captação de verba para restauração de um prédio ícone como o Holiday, em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.

“Mais do que o aspecto financeiro, nosso trabalho tem repercussões humanas, apoiamos ações para ajudar a diminuir a pobreza”, declaram Lucas Lima e Flavius Falcão, cientistas políticos e integrantes do coletivo Vendaval Catalisadora de Impacto Social + Chão Atelier. A equipe é formada por três cientistas políticos e quatro concluintes do curso de arquitetura e urbanismo, sendo três da UFPE e um da Faculdade de Ciências Humanas Esuda.

A função do grupo, explica Lucas Lima, é acelerar mobilizações que já estão acontecendo na cidade de iniciativa comunitárias, de ongs e de movimentos sociais, culturais e políticos. Uma das ações em curso é a captação coletiva para conseguir o dinheiro necessário à reconstrução da sede da Nação do Maracatu Encanto do Pina, criada em março de 1980 na Zona Sul do Recife. Os brincantes ocupam uma palafita na comunidade do Bode.

 Nação do Maracatu Encanto do Pina (Foto: Chico Porto/Acervo JC Imagem)

Com a vaquinha virtual no portal Benfeitoria eles pretendem alcançar o valor de R$ 15 mil. Para colaborar é preciso acessar o link https://bitly.com/NovoLarPina e fazer a doação até 23 de junho próximo. “Nosso espaço é pequeno para as atividades sociais que oferecemos a crianças e jovens da comunidade e para guardar os instrumentos musicais”, relata Joana D’Arc da Silva Cavalcante, mestra do Maracatu Encanto do Pina. O dinheiro será usado na construção de um galpão, informa a mestra.

No caso do Holiday, interditado pela Justiça em março de 2019 devido às condições precárias do imóvel, a Vendaval Catalisadora de Impacto Social + Chão Atelier criou campanha para obter os recursos que serão destinados à obra emergencial na edificação. “A vaquinha virtual (encerrada) para o Holiday é um pedaço da captação, continuamos com um plano de arrecadação para a restauração do prédio”, declaram Lucas Lima e Hugo Bresani, estudante de arquitetura da Esuda e vinculado ao coletivo.

 Edifício Holiday em Boa Viagem (Foto: Leo Motta/JC Imagem)

Lançada em 2018, a Vendaval Catalisadora atuou na campanha coletiva das deputadas Juntas (PSol), com projeto de comunicação; auxiliou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na compra de um portão para a ocupação Marielle Franco, no Centro do Recife; e está às voltas com a captação de verba para a manutenção do Parque dos Mamulengos, em Surubim, no Agreste pernambucano.

ASSESSORIA

Outro grupo de apoio a comunidades é a Cooperativa Arquitetura Urbanismo & Sociedade (CAUS), criada em 2015 num processo de reestruturação do Diretório Acadêmico de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco. “Queríamos levar o conhecimento teórico para as ruas”, diz o estudante da UFPE e membro da CAUS Wallace Rodrigues, ao explicar a origem do grupo.

Numa atuação em conjunto com o Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH), a CAUS conseguiu fazer intervenções em um casarão modernista no bairro da Tamarineira, ocupado por famílias sem teto há mais de 20 anos. “O primeiro trabalho foi a recuperação da coberta e a colocação de extintor de incêndio”, informa o estudante de arquitetura. A cooperativa ainda está elaborando propostas para melhorias na edificação.

“Construímos as soluções em conjunto com as famílias”, destaca Wallace Rodrigues, acrescentando que isso vale para a definição das obras a serem realizadas e a escolha da forma de captação de recursos para a execução dos serviços. A CAUS também atua em comunidades, como o Pilar (Bairro do Recife) e Caranguejo, Zona Especial de Interesse Social (Zeis) em Afogados, Zona Oeste da capital, com assessoria técnica.

Formada por dez pessoas, cinco arquitetos e cinco estudantes, a cooperativa atua como mediadora de conflitos entre prefeitura e moradores. Eles acompanham as comunidades em audiências públicas e reuniões no Ministério Público, quando necessário. “Orientamos as famílias para que elas sejam protagonistas nas pautas com os governos”, declara Wallace Rodrigues. “Elas passam a fazer uma leitura crítica dos projetos da prefeitura”, diz o arquiteto da CAUS Luan Melo.

Um dos resultados práticos no Pilar foi a inclusão da comunidade na lista de Zeis da cidade na proposta de revisão do Plano Diretor do Recife, enviada pela prefeitura à Câmara de Vereadores em dezembro de 2018.

UFPE

A atuação diferenciada de jovens arquitetos no mercado, de acordo com o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco Luiz Amorim, reflete o novo currículo implantado na UFPE em 2010. Antes da reforma curricular a faculdade estava mais focada em ensinar o aluno a projetar edifícios. Com a mudança, os estudantes passaram a ter um contato mais direto com a sociedade, afirma Luiz Amorim.

 Arquiteto e urbanista Luiz Amorim ((Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem)

Nos quatro anos do curso, os alunos são estimulados a fazer escolhas, com autonomia crítica e capacidade para tomar decisões. “Uma instituição pública deve oferecer todos os caminhos para a formação do estudante”, destaca Luiz Amorim. O currículo prevê mais disciplinas eletivas e isso representa cerca de 25% da carga horária com atividades que os jovens elegem por vontade própria, diz ele.

“Os estudantes estão levando para as ruas a experiência do curso, criando soluções para problemas coletivos da comunidade com a consciência social que desenvolveram na faculdade”, informa. Também contribuíram para essa mudança, na avaliação do professor, as exigências do mercado de trabalho atual e o sistema de cotas nas instituições de ensino. “As cotas levaram para a universidade jovens com outros olhares sobre a cidade, temos um cenário mais rico no câmpus”, observa o urbanista.

Para o arquiteto e professor da UFPE Enio Laprovitera, a reformulação do currículo é uma das referências para explicar essa nova maneira de ser arquiteto e de fazer arquitetura. “O currículo despertou uma sensibilidade maior para a cidade, um olhar mais social e voltado para os espaços informais”, declara Enio Laprovitera.

 Arquiteto e urbanista Enio Laprovitera (Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem)

Ao lado da grade curricular, ele destaca a identificação de parte dos estudantes com os movimentos sociais e a nova visão de fazer política que a juventude tem levado para as ruas, centrada no cotidiano. “Os estudantes estão mais próximos dos movimentos sociais e conseguem ajudá-los com captação de recursos e revertendo as demandas em projetos desenhados com a participação das comunidades, é uma postura inovadora com um grande desafio pela frente”, afirma Enio Laprovitera, coordenador do Fórum da Arquitetura Social de Pernambuco, um projeto de extensão da UFPE.

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