TRAGÉDIA

‘Só vi a mão dela’; diz marido de vítima de soterramento em Olinda

Parentes e vizinhos relatam como aconteceu a tragédia que matou Iraci Maria da Conceição, de 78 anos

Katarina Moraes
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Katarina Moraes
Publicado em 25/07/2019 às 12:36
Foto: Bobby Fabisak / JC Imagem
Parentes e vizinhos relatam como aconteceu a tragédia que matou Iraci Maria da Conceição, de 78 anos - FOTO: Foto: Bobby Fabisak / JC Imagem
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A madrugada de chuvas da última quarta-feira (24) levou 12 vidas no Grande Recife. Entre elas, Iraci Maria da Conceição, de 78 anos, que morreu soterrada por um deslizamento de barreira na Rua Aquarela, no bairro de Águas Compridas, em Olinda. A reportagem do Jornal do Commercio ouviu a narrativa da família e vizinhos da vítima.

Relato

O viúvo de Iraci, Paulo Francisco Lopes, de 60 anos, viveu momentos de terror enquanto tentava salvar a vida da esposa. Atendendo aos pedidos da sua irmã, Eliane da Silva, o casal permaneceu acordado durante aquela noite em caso de um deslizamento, apesar de não acreditarem que poderia acontecer.

Quando avistou a barreira Paulo entendeu o risco que corria e passou a pedir insistentemente que Iraci saísse da casa com ele. ‘Ela era muito ranzinza, passei mais de meia hora tentando tirá-la de casa’, completou. Quando finalmente conseguiu convencer a esposa e levá-la até a grade do terraço, a lama carregou o sofá que os arrastou até a parede do quintal. ‘Quando olhei para trás só vi a mão dela’. Iraci já estava soterrada.

'Corre que a barreira de seu Paulo caiu'

Kelcy Ferreira Araújo, vizinha de Iraci, narra que assim que a terra cedeu, os vizinhos correram e tentaram tirar a vítima da lama mas, após apenas 10 minutos de resgate, foi constatado que Iraci já estava sem vida. 'A gente fez de tudo para ajudar, mas infelizmente não deu. Estamos ajudando ele (Paulo) agora e o que nós podemos fazer, nós fazemos.'

Paulo embarga a voz ao relembrar os detalhes daquela noite e repete, como querendo se consolar, que já era tarde demais e que tentou salvar como pôde a sua ‘Cema’, como carinhosamente a chama.

Apesar da catástrofe, a empatia e honestidade dos vizinhos é clara. Durante a reportagem, alguns passam pelo local cumprimentando o viúvo e até oferecendo café.

‘Não tenho roupa para vestir’

Paulo revela não ter ‘roupa para vestir’ no enterro da esposa, que será em Beberibe, às 16h da tarde. Havia perdido todos os seus pertences no incidente e as vestimentas do seu corpo eram doações de vizinhos.

Durante a entrevista com a reportagem, a chuva voltou e o desespero foi claro. Paulo aponta para a barragem e afirma que, caso a chuva perdure, tudo vai desabar em cima da casa. ‘Eu estou em uma situação muito difícil, a casa da minha irmã já tem muita gente, não sei onde vou morar’.

Negligência

A irmã de Paulo relata que eles haviam acionado a Defesa Civil de Olinda desde o inverno de 2018. Após uma visita, a promessa da retirada de árvores que ameaçavam a segurança do local foi feita, mas nunca cumprida. ‘Tive que pagar do meu próprio bolso’, afirmou Paulo.

Paulo conta que, depois da morte da sua mulher, as autoridades colocaram lona na barragem, medida protetiva usualmente usada contra a queda das barreiras. Além disso, condenaram várias residências ao redor. ‘Se entrar, vão mandar tirar na marra’, relatou a cunhada de Iraci.

‘Estamos morrendo de medo’

Desde a tragédia, várias casas ao redor da residência de Paulo e Iraci foram interditadas, mas, de acordo com Eliane, sua irmã, ainda há ‘muita gente nas redondezas e se uma das residências cair, atinge as outras’.

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