FEMINICÍDIOS

Número de mulheres assassinadas em Pernambuco preocupa especialistas

Apesar de os números oficiais não terem sido divulgados, quem trabalha na rede de proteção sente aumento da violência contra a mulher

Amanda Rainheri
Amanda Rainheri
Publicado em 10/02/2020 às 20:06
Análise
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Apesar de os números oficiais não terem sido divulgados, quem trabalha na rede de proteção sente aumento da violência contra a mulher - FOTO: Foto: Reprodução
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Os números oficiais ainda não foram divulgados pela Secretaria de Defesa Social (SDS), mas quem atua na proteção e no acolhimento de vítimas de violência doméstica confirma: 2020 tem sido um ano violento para as mulheres em Pernambuco. No último domingo (9), a fotógrafa Leandra Jennyfer da Silva, de 22 anos, foi assassinada a tiros pelo companheiro na casa em que eles viviam, no bairro da Madalena, Zona Oeste do Recife. A jovem, que deixou dois filhos, foi enterrada nesta segunda-feira (10), em clima de dor e revolta.

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Leandra e o marido Raphael Cordeiro Lopes, 32, estavam em uma prévia de Carnaval em Olinda, Região Metropolitana da capital, na noite de sábado, quando uma briga teria começado. A jovem e o marido, então, teriam ido para casa. Lá, os dois teriam entrado em luta corporal e Raphael acabou disparando duas vezes contra a vítima. O filho do casal, de um ano e meio, teria presenciado a morte da mãe. Leandra chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos.

O casal estava junto há cerca de quatro anos. Raphael era descrito como um homem violento. Segundo a mãe de Leandra, Josiane Oliveira, o homem já havia, inclusive, disparado tiros dentro de casa. “Eu não entrava nem na casa da minha filha”, contou, em entrevista à TV Jornal. “Eu não sei mais o que fazer da minha vida. Tenho três filhos e hoje só me sobraram dois”, lamentou.

A revolta da família foi ainda maior quando o suspeito, que permanece foragido, mandou uma mensagem para a mãe da vítima. “Sei das consequências que vou encarar e nunca vou ter perdão de ninguém, mas foi um acidente”, justificou o homem. Na mensagem, ele ainda pede que a avó cuide do filho do casal. “Você destruiu a minha vida e a vida da minha mulher e ainda tenta falar com a gente?”, respondeu André da Silva, pai de Leandra.

Assim como ela, outras mulheres perderam a vida entre janeiro e fevereiro, vítimas de companheiros ou ex-companheiros. Em Amaro Branco, Olinda, uma mulher de 39 anos foi morta a facadas pelo marido após uma discussão, no dia 23 de janeiro. O filho deles, de três anos estava em casa no momento do crime.

Na noite de 12 de janeiro, Thayslane Beatriz Teixeira da Silva, 22, teve 70% do corpo queimado pelo ex-marido em Itaquitinga, Zona da Mata pernambucana. Ela passou 15 dias internada no Hospital da Restauração (HR), antes de falecer. Ariclenes Pessoa dos Santos, 28, foi preso no dia 29 de janeiro.

Também na Zona da Mata,no município de Escada, duas mulheres foram assassinadas em 17 de janeiro. Gleice Kelly Silva, 18, e Daniele Silva, 20, foram mortas a tiros. Em Candeias, Jaboatão dos Guararapes, outra mulher foi assassinada em 22 de janeiro. Ao todo, foram 55 facadas. Ao lado do corpo, a polícia encontrou uma camisa masculina ensanguentada. Em João Alfredo, no Agreste, mais uma mulher assassinada dentro de casa, dessa vez no dia 6 de fevereiro.

Alerta

O número de mulheres assassinadas em Pernambuco assusta quem atua diretamente com vítimas de violência. “Estamos muito preocupados. É como se houvesse uma banalização e isso está vindo de forma mais acelerada desde o mês de janeiro. Estamos assim agora neste período de prévias e tememos o que vai acontecer no período de pico do Carnaval”, alerta Regina Célia Barbosa, vice-presidente do Instituto Maria da Penha. “Existe um silêncio que perdura pelo medo. A vítima de violência não denuncia porque não há celeridade para outras mulheres. Ela não acredita na denúncia, não acredita na medida protetiva. Precisamos que haja mais eficiência do Estado para que a vítima possa descansar quando denunciar”, completa.

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